Márcio Simeone
Cadeira n.º 8
Na festa vi você a dançar e pensei: que graça! Outro dia vi quando
passava, distraída, na rua principal. Observei muito tempo de longe,
alimentando meus sentimentos, meus desejos, coisa à moda antiga. Mas a vida hoje
não espera, de jeito nenhum. Entrei num café e lá estava: nossos olhares não se
encontraram, pois você se concentrava na pequena tela, onde deslizava seus
dedos com agilidade. Fiquei a observar: o movimento dos dedos, suas expressões.
Um meio-sorriso, depois a digitar com agilidade. Leva o aparelho perpendicular
ao ouvido direito, escuta algo com atenção, balança a cabeça e sorri. Volta a
escrever, freneticamente. Em seguida seu semblante está sério, arrasta os dedos
devagar sobre a superfície iluminada. Franze os olhos, como a denotar atenção
máxima. Depois descontrai de novo. Vira a tela na horizontal, um brilho
dançante ilumina sua fronte. Volta à digitação. Ao me levantar, passo por
detrás de você e num fragmento de segundo, quando voltei meus olhos para baixo,
vi apenas uma série de coraçõezinhos. Achei isso romântico. Fui embora, mas
você nem me notou. Tempos depois voltei ao café, com mil pretextos preparados
para abordar você, caso aparecesse. Demorou demais. Quando, enfim, entrou no
recinto e se dirigiu ao balcão, aproveitei para me postar justo ao seu lado. Ao
ver que escolhia uma torta de limão, resolvi pedir uma também. Ocorre que eu
adoro, sempre amei, tortas de limão. Já com algo em comum, ia comentar qualquer
coisa sobre a qualidade e sabor incomparáveis daquela iguaria, mas você foi
mais rápida, sacou seu aparelho e observou alguma mensagem. Devia ser urgente,
porque saiu rápido dali, sentou-se ao fundo do salão e ficou a responder,
falando sozinha para aquele equipamento, gesticulando discretamente. Nem havia
tocado ainda aquele doce. Sentei-me à frente, numa posição favorável para vê-la
e, quem sabe, ser visto. Mas seu olhar só se desviou por um instante para tirar
um pequeno bocado, que experimentou sem esboçar reação mais significativa. Eu a
olhava à vontade, examinando-a ostensivamente. Reparei quando você tirou uma foto
da torta de limão e seus dedos escorregaram para lá e para cá. Certamente
postara a imagem para alguém que também aprecia as tortas de limão. Fiquei
pensando em como fazer você saber que eu também as apreciava e o quanto me
sentia bem ao saber dessa grata coincidência. Imaginei, pela reação terna e
alegre de seu rosto, que deve ter recebido mais alguns coraçõezinhos em reação
à sua postagem. Também desta vez você foi embora sem me notar. Saí com a
sensação de que não sou mesmo notável. Não a ponto de concorrer com todos
aqueles estímulos da tela brilhante. Mas não desisti. Tornei a voltar ao café
até ver você de novo. Esperei que você se sentasse, com uma xícara à sua frente
e se concentrasse, como sempre, em sua tela mágica. Encomendei uma torta de
limão, que mandei entregar à sua mesa. Sentei-me desta vez mais à distância e
fiquei a observar suas reações. O garçom entregou e você ficou surpresa;
educadamente deve ter dito que havia um engano, que não pedira aquilo e vi o
rapaz apontar para mim. Olhei fixo para você, mesmo de longe, para não perder
essa rara oportunidade de ser notado. Balancei muito levemente a cabeça, como
que a confirmar: eu mesmo! Esperava que abrisse um sorriso, mesmo que débil, mas
você hesitou um instante. Desejei algum gesto em minha direção. Em vão. Apenas
mandou ao garçom que me devolvesse a torta de limão. Agora ele vinha, em câmera
lenta, ao meu encontro, segurando aquele prato e meu raciocínio travou. De
relance vi que você estava lá, dedicada a olhar sua tela, talvez contando para
alguém algo estranho que se passara no café. Fiquei estático. Não tinha
referências para lidar com aquela situação e um abismo se formou bem no meio do
salão. Não olhei mais para você. Quando percebi que já tinha saído, esperei um
pouco mais e só então fui embora. Senti-me envergonhado. Dias depois decidi que
frequentaria o café com maior assiduidade, mesmo sem crer que você voltaria. Sonhei
com você, que acariciava ternamente o meu rosto exibido na tela do seu
telefone. Mas como encontrá-la na vastidão do espaço cibernético? De referência
ficaram para mim uma festa e uma cafeteria, únicos lugares nos quais poderia
seguir seus rastros. Nunca pensei que tivesse alguma vez me notado. Imaginei-me
em seu lugar, perturbada por uma torta de limão que aparecera à sua mesa como
um apelo destoante e bizarro por atenção. Hoje tenho a revelação: você me
notara na festa. Eu estava em sua tela. Tinha sido capturado aquele dia, você
me levara consigo, me acariciara o rosto na foto. Eu já estava lá, à sua mesa
da cafeteria, embora não soubesse. E você estava à minha mesa, pelo sabor de
uma torta de limão. Faltava apenas um elo que o destino, sempre caprichoso, entendeu
de prover sem muita demora.