quarta-feira, 21 de julho de 2021

"ALPM Entre Vista" - Academia inaugura seu canal no YouTube


A Academia de Letras de Pará de Minas - ALPM - fará sua estreia no YOU TUBE, dia 24/07/2021, às 19h e 30min, com “ALPM ENTRE VISTA”. 

Na oportunidade, Fátima Peres, mestra, professora, jornalista e Márcio Simeone – professor, Doutor na área de Comunicação Social, ambos docentes da UFMG, promoverão um “dedinho de prosa” com a escritora “patafufa” Conceição Cruz - ocupante da cadeira nº 4 da ALPM – Academia de Letras de Pará de Minas e cadeira nº 29 da ADL – Academia de Letras de Divinópolis/MG.


Clique neste link para acesso ao canal:

https://www.youtube.com/channel/UC0WQMIRCype2i0tq_aZGhQA


À direita da sua tela, inscreva-se e ative o sininho para receber notícias sobre as futuras novidades. Por favor, divulgue o nosso canal para seus contatos, familiares e amigos para que eles também possam celebrar conosco a ativação do canal, com o nosso primeiro evento virtual!

sábado, 17 de julho de 2021

Unicidade

Geraldo Phonteboa
Cadeira n.º 14


Sentir é a forma que o corpo pensa.

Pensar corpóreo: carnalidade.

Nervos e sensores

Racionalizados.

A carne reage, tensiona, relaxa,

Aquece e esfria.

Comunica com o Todo e o Tudo.

Assim nos sabemos

E sabemo-nos nos outros.

Carpo é carne em interação:

Sensibilidade mundana

Inundada de racionalidade.

A Carne sente, o corpo percebe

E a razão reflete:

Dependência e interação.

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segunda-feira, 12 de julho de 2021

Amarelinha

Conceição Cruz
Cadeira n.º 4


Amarelinha, fábulas, andar de bicicleta,
mariquinha, passar anel, corrida, caminhada,
adedanha, tabuada sem pestanejar, cantigas de
roda e jogos na rua: queimada, futebol...
Escrever, desenhar, pular corda e elástico, cantar,
ler, contar  estórias. Coletividade. As férias, mesmo as de
inverno, dispensavam longas viagens. 
Nasceu a geração digital: desde cedo, individualidade! Conectada ou 
hipnotizada pelo “canto de sereia” da rede
altamente virtual? Será feliz no mundo real? 

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terça-feira, 6 de julho de 2021

A vida nunca morre!

Ailton José Ferreira
Cadeira n.º 7


Eu costumo dizer que, a cada dia que vivemos, a morte está mais próxima. A morte do corpo físico e não a morte do corpo espiritual. Porque a vida é eterna, ela nunca termina. Costumamos morrer, sim, durante todo o transcorrer de nossa vivência. Destruímos muitas vezes nossos desejos, vontades e realizações por uma simples atitude inconsequente ou impensada. Morremos para a vida sempre que desistimos de lutar por alguma coisa, algum sentimento ou ideal. Adoecemos simplesmente por não termos ido até o fim daquilo que iniciamos, ou por não termos escolhido o caminho mais correto, embora difícil de transpô-lo. Pois, geralmente, escolhemos o caminho mais fácil, que nem sempre é o melhor, porque assim “deve ser e pronto”.


Porém, esse “deve ser” é o que realmente nos fere, enfraquece e - por que não? -  destrói também a família e as pessoas que vivem à nossa volta. Por que agimos assim? Por que não aceitamos que estamos errados muitas vezes? Culpamos a vida pelos nossos erros, por nossas cabeçadas mal dadas, por nossos pensamentos confusos, por ferirmos o próximo, sem pensar que ele também tem sentimentos como os nossos. Ferimos e não queremos ser feridos. Maltratamos e não queremos ser maltratados. E muitas vezes praticamos atos sem o uso da razão. Embora ela sempre esteja ao nosso lado, mas a descartamos para dar lugar à ira, à vaidade e à ambição.


O ser humano foi criado por Deus para ser feliz, mas, mal começamos a vida, nossos primeiros pais já desobedeceram ao Criador e pecaram; por isso, estamos carregando este peso por toda a eternidade. Porém, nossa vida aqui neste mundo é para nos redimirmos de nossos erros para, quando morrermos para a Ressurreição, estarmos finalmente preparados na eternidade, junto a Deus. Portanto, se buscamos sempre a felicidade, precisamos antes de tudo fazermos o nosso próximo feliz.


Nós sempre ouvimos dizer: “A ambição mata” e, mesmo assim, nem sempre a ignoramos. E ela, realmente, quando usada para o poder desenfreado, mata para o amor, para a solidariedade, para a humildade e compreensão. Deixamos que tome conta, desrespeitando o próximo e, se preciso for, passando por cima dele sem dó nem piedade. Vivemos em comunidade, sociedade organizada, se assim podemos às vezes dizer. Claro, porque o homem, de modo geral um ser racional, jamais conseguiria viver solitariamente. Jamais pensamos em desenvolver um modo de passarmos a nossa vida isolada, porque somos seres criados para a coletividade, para o social. E quando o isolamento acontece é consequência dos fatos por nós provocados.


Por isso digo sempre que a vida é bela e nós a tornamos amarga e feia, de acordo com o que construímos ou destruímos durante nossa passagem por este planeta. Estamos acostumados a culpar os outros e a Deus pelos nossos defeitos, nossos erros e irresponsabilidades. É mais fácil achar culpados do que se culpar pois, se assim fosse, teríamos que apontar nossos erros e consertá-los, e isto para nós não é fácil. A morte da vida só acontece se quisermos. Somos seres criados na perfeição de Deus, porém somos seres destruidores na vontade de nossos erros, mas mesmo assim “A VIDA CONTINUA...”.


QUE DEUS ABENÇOE A TODOS!

domingo, 13 de junho de 2021

Fogueira e Fé

 Conceição Cruz
Cadeira n.º 4

Festejamos, em Junho, Santo Antônio: 
O primeiro a trazer Jesus Criança!
Guiado por Ele, São João tem, nos braços,
Um Cordeiro.
E São Pedro, as Chaves do Paraíso.
Instintivamente, olhamos  para o alto: qual a 
Relação do fogo, dos três Santos e “cês” -
a Criança, o Cordeiro e o Céu?

E elas nos contam, de

forma peculiar, um grande segredo. Para compreendê-lo, basta ser
É ou somente ter a pureza de uma criança!
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quarta-feira, 2 de junho de 2021

Saudade

 Paulo Roberto dos Santos
Cadeira n.º 17




A saudade é companheira.
Não é responsável por nada.
Temos uma relação saudável,
amor e ódio, amistosa.

Às vezes, insiste em gritar,
coloco-lhe limites. Porém,
como uma adolescente,
adora transgredir. 

Assim, vamos crescendo...
Fazendo poesia,
concreta ou não.

De quando em vez,
ela enche o pote.

Então, entorno em lágrimas.


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quinta-feira, 27 de maio de 2021

A razão nem sempre tem razão?

Ailton José Ferreira
Cadeira n.º 7


Quando digo isso, não estou tirando o verdadeiro mérito da razão. Mas sim a colocando em seu verdadeiro lugar e no momento adequado. Pois a razão sempre terá espaço em nossos pensamentos e decisões, porque faz parte do equilíbrio da vida. Com a razão temos um sentido das coisas, sem ela tudo se perde. Porém em alguns momentos nem sempre a razão vai nos ajudar, porque os sentimentos falarão mais forte. E será que é bom isto acontecer? Algumas vezes sim, mas, na maioria delas...

Tomemos como exemplo o Amor. Em todo o relacionamento que o Amor estiver presente, certamente ele terá razão. Mesmo que muitas vezes a razão deste amor não tenha sentido. Porém, é o Amor o maior de todos os sentimentos. E sempre que isso acontecer, precisamos manter o equilíbrio necessário para não trocarmos “alhos por bugalhos”. A razão é o equilíbrio de nossas ações. Ela é necessária e indispensável em nossos atos e decisões durante a vida. Por isso tenho cá em meus pensamentos que, na comparação entre o amor e a razão, não existe muita diferença. Se é que elas existem. Pois mesmo movido pelo amor no momento de nossas decisões, sempre vai existir a razão no meio dessas decisões, ainda que percebamos isto tardiamente.

A paixão, por exemplo, não pode ser confundida com o amor. Esta, sim, traz o perigo da confusão e da discórdia, e jamais deixa que a razão interfira. Isso acontece também quando entram os sentimentos negativos de ira, raiva, ódio e tudo mais que possa nos destruir.  O amor interfere para construir, e a paixão, na maioria das vezes, interfere para destruir, pois ela se transforma frequentemente na ira, no ódio e na raiva, levando a todos à escuridão de suas decisões, enquanto que o amor leva à luz, à harmonia sincera. Não podemos por isso confundir, jamais, o amor com a paixão. O amor cai em terra firme e germina, a paixão cai em terra dura e o vento leva.

Por isso, quando quis dizer que a razão nem sempre tem razão, foi no sentido filosófico de que quando entra o amor a dirigir o nosso caminho, é porque ele já incorporou a razão para dar sentido à nossa vida. Quando amamos de verdade, a felicidade brota como água de uma rica nascente. Quando amamos o próximo, a natureza e o que fazemos, flutuamos como se estivéssemos no espaço sem o tempo a nos controlar. E se a razão de ser é o amor, por que, então, termos razão nos pequenos detalhes e problemas que nos controlam e que às vezes até nos destroem? A razão só tem razão quando o que fazemos e decidimos é por respeito e, principalmente, por amor ao próximo e ao mundo em que vivemos.

Jamais aceitarei que me convençam que uma guerra é provocada por razões próprias e em defesa de um povo. Se para alguns a razão existe neste sentido, então para mim ela nunca terá razão. Não podemos chamar a insensatez, o desequilíbrio emocional do poder, a loucura propriamente dita, de razão. Se assim fosse, acredito que ninguém na face da Terra poderá explicar o que realmente seja a razão. A razão que dizem por aí ser a verdadeira, com suas desculpas para pisarem e massacrarem o povo pelo dinheiro e pelo poder, é falsa e vergonhosa. Nada nela existe de razão, por isso não pode ser chamada assim.

A razão caminha lado a lado com o amor: amor às coisas, ao próximo, à vida profissional e familiar etc. Se assim for, será sempre a verdadeira razão tendo razão.

QUE DEUS ABENÇOE A TODOS!



quinta-feira, 20 de maio de 2021

O dia das mães na floresta

 José Roberto Pereira
Cadeira n.º 12



    Todos os bichinhos, lá na floresta, se preparavam para o Dia das Mães. Corriam de um lado para o outro, tentando encontrar o presente mais especial para presentear a mãezinha. Só a cigarrinha Tutinha parecia não estar preocupada em encontrar um presente. Ela cantava o dia inteiro. De repente, chegaram três joaninhas e perguntaram:

     _ Tutinha, você não vai procurar um presente para sua mãezinha?

     _ Não. Eu canto todos os dias para ela. Canto que é uma beleza!!! Afinadinha!

     _ Nós já encontramos um presente. Olha, é o perfume de uma rosa.

     Tutinha olhou o embrulho e não respondeu nada. Continuou a cantar. Foi quando chegaram correndo dois cachorrinhos pintados. Estavam felizes por terem encontrado duas gotinhas de orvalho para presentear sua mãezinha. Tutinha olhou as gotinhas e continuou sua cantoria.

     Pouco tempo depois, vieram duas gatinhas. Estavam contentes, pois haviam encontrado o cheiro de uma torta de peixes e colocado-o dentro de uma caixa,  amarrada com um laço muito bonito. Tutinha tentou sentir o cheiro e não conseguiu. Voltou a cantar. Era o que mais gostava de fazer.

     Não demorou muito, foi interrompida por quatro leõezinhos. Eles tinham encontrado um presente quentinho para dar para sua mãezinha: o calor de um abraço. Eles mostraram o embrulho e saíram rugindo.

     Nem o forte calor do sol fez com que Tutinha parasse de cantar. E, quando a tardinha caiu lá no horizonte, todos os bichinhos chegaram de um só vez perto dela. Pareciam apavorados. Falavam todos juntos. Uma confusão de sons e palavras, não se entendia nada. As joaninhas foram as primeiras a falar, depois do falatório de todos. Disseram que o perfume que haviam encontrado tinha exalado.

     _ Não sobrou nem um pouquinho de cheiro.

     Os cachorrinhos pintados mostraram que as gotinhas de orvalho tinham secado.

     _ Au, au, auuuuu! As duas evaporaram.

     As gatinhas mostraram sua caixa vazia.

     _ Miau, miauuuuu! O cheiro da torta de peixes sumiu.

     Os leõezinhos também mostraram sua caixa sem nada dentro.

    - Uauuu! O calor do abraço esfriou.

     Todos começaram a falar ao mesmo tempo, tentando encontrar uma solução para o presente do Dia das Mães. Ninguém conseguia entender uma só palavra. Foi quando Tutinha teve uma ideia para ajudar seus amigos.

     _ Silêncio! – gritou.

      Todos se calaram.

     _ Vamos juntar todas as mãezinhas em um lugar bem bonito e fazer uma serenata para elas?

     Os bichinhos acharam a ideia excelente. Mas ninguém sabia cantar. Tutinha começou a ensinar tudo sobre as notas musicais: dó, ré, mi, fá, sol, lá, si. Em pouco tempo, estavam cantando, afinadinhos, porque tiveram muita atenção e respeito à professorinha Tutinha.

     O presente para o Dia das Mães estava salvo.

     Não era nada material. Era amor em forma de música. Uma música muito bonita de uma tribo indígena brasileira que falava do vento que tudo leva e traz.

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(Meu primeiro texto infantil, escrito em 2001, para o Colégio Educare de Itaúna)

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segunda-feira, 10 de maio de 2021

Nome de mãe

Valmir José
Cadeira n.º 10




Existe um nome pequenino

Lardeando os traços esmaecidos

Do passado de menino:

Mãe! Amor sem par.

 

Depois menino crescido

Correndo das sombras da vida

Tal qual fuga no tempo escasso,

Refoga-se na retorta dos anos

Enlaçado por tão meigo abraço

A cada vez que, desprotegido,

Mergulha, homem amadurecido,

Sutilmente buscando refúgio

Na ternura do nome de Mãe.

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domingo, 9 de maio de 2021

Mãe é pura poesia!


Conceição Cruz
Cadeira n.º 4

Mãe é pura poesia!

Como explicar um outro ser? Carne da sua carne e sangue do seu sangue? 

Ou, uma coleção de seres - gerados em seu seio - assim tão diferentes?

 

O instinto maternal é divino e profundo!

Os filhos são todos diferentes!

Quem nunca ouviu a mãe dizer:

- Filho, você não é todo mundo!

 

Na Humanidade, duas coisas certas: homens sem filhos há de haver...

Mas, todo filho u'a mãe há de ter, em cada canto onde há vida, mesmo em área deserta!

 

Mãe é poesia das mais completas!

Até o “EU SOU" dela necessitou para expressar-se aqui na terra!

Não existe filho ruim aos olhos dela! 

A virtude de amar a faz ver o lado do bom filho! Ah, sim!

 

No silêncio de seu ser, gera, alimenta...

Um dia, libera o feito do seu ventre, para que a própria vida também possa ajudá-lo a crescer!

Tal qual o Poeta Mor da Criação, a mãe o filho cria!

 E ambos são humanas expressões da divina poesia!

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Imagem: https://www.gratispng.com/png-xrkpon/




sábado, 8 de maio de 2021

Colo de mãe

Carmélia Cândida
Cadeira n.º 2

Minha mãe, Lúcia, nome que significa “a luminosa”, “a iluminada” ou "aquela que nasceu com a manhã".

O colo de mãe é o melhor lugar do mundo. Em seu abraço, nos sentimos amparados, protegidos. O amor de mãe é imensurável. Não pode haver um amor maior que esse. Com a nossa mãe, queríamos viver a vida inteira e até além. E a falta de mãe é doída demais. Tão ou talvez mais doída que essa falta só a da perda de um filho.

Uma mãe jamais abandona seu filho. O amor dela nunca o deixará sozinho. Por meio desse amor, ela para sempre viverá e continuará com ele, mesmo que às vezes ele se esqueça ou que não perceba. 

A mãe vai estar na cozinha quando estiver sendo preparada aquela receita de bolo que ela fazia, no cheiro do café sendo passado de manhã, no quentinho do cobertor nas noites frias, em cada flor que for plantada no seu jardim, no seu silêncio quando você contemplar uma paisagem bonita, em coisas que você diz sem se dar conta de que um dia ouviu dela, numa borboleta que passa... Ela vai estar em tudo que te ensinou. Ela vai estar nas batidas do seu coração. Sinta...

Você  pode não ter mais a sua mãe com você ou ela pode estar sendo levada por uma doença cruel e não ter mais como te oferecer o seu colo, o seu abraço. Você pode, em algum momento de dor ou dificuldade, achar que nada mais importa e querer desistir. Você pode se sentir sozinho, desamparado, desalentado. Mas você não está. Sua mãe está com você. Então, nesses momentos, pense no quanto ela torce por você, no quanto quer ver você bem, e siga em frente, pois é isso que ela espera de você.

Eu sei que você pode ficar triste se você não tiver mais o colo ou o abraço dela, se não ela não mais puder perguntar como está sua vida nem te contar sobre a dela,  como em tempos passados. E você vai ficar, muitas vezes. E está tudo bem.  Quando isso acontecer, procure pensar só nos bons momentos que passaram juntos, reviva e agradeça. E saiba fazer dessa tristeza uma tristeza querida, pois  ela vem da lembrança da sua mãe, amor sem igual.

E, se você puder ter fisicamente esse colo e esse abraço, com todas as possibilidades que podem existir entre mãe e filho, tente não perder nenhuma dessas possibilidades. Aproveite cada momento com ela. Respeite, coopere, defenda, não deixe ninguém ofendê-la. Beije, se acalente em seus braços e dê acalento a ela também. Faça tudo o que puder por ela. Enquanto é tempo.

Não se esqueça: sempre que você quiser, ela vai estar presente. Seja em alma e corpo, seja dentro de você em forma de amor. Porque todo o significado de mãe, que pode ser infinito, se tiver que ser reduzido a uma definição, será a de amor.






sexta-feira, 7 de maio de 2021

Mulher, perfume do lar!

Aílton José Ferreira
Cadeira n.º 7 



No próximo dia 9 de maio, comemoramos o Dia das Mães. Mais do que nunca é um dia especial para todos nós, também! Acho que as mulheres e principalmente as mães, têm que ser homenageadas diariamente. Sempre haverá tempo e espaço para homenagem este ser vivo mais belo e maravilhoso que Deus criou para ser companheira do homem neste mundo. Por isso aqui vai mais uma vez a minha pequena e singela homenagem.

A mulher conquistou, através dos anos, um espaço que muitos não acreditavam que elas conseguiriam. Mas o sexo feminino tem uma força dentro de si, desconhecida pelo homem, que ultrapassa os limites da nossa razão. A mulher sempre teve participação importante na história da humanidade. Lembremos as diversas passagens da Bíblia em que a mulher, corajosa em suas decisões e ações, muito contribuiu para que o povo de Deus seguisse em frente na sua caminhada rumo à Salvação. O sexo feminino tem uma sensibilidade que nos deixa de “queixo caído” e uma intuição que nós homens deveríamos aprender com elas.

A mulher conquistou sim, o seu lugar no mundo depois de muita luta e sofrimento, mas ela tem que manter a sua feminilidade acima de qualquer coisa. Por trás de cada homem que conseguiu fama e sucesso existiu uma grande mulher. Elas são os nossos esteios, o alicerce de nossa casa. Vejamos a maior de todas as mães, Nossa Senhora, o quanto foi forte, ao sofrer calada tudo aquilo que seu filho Jesus Cristo passou por nós. Ela sabia que seu filho tinha que passar por isso para a salvação da humanidade. Porém, aceitou os desígnios de Deus, e foi mais forte do que qualquer outro ser humano que já existiu na face da Terra.

Quantas vezes nossas mães, nossas esposas sofreram caladas e suportaram as dores de seus filhos. Quantas vezes as famílias passando necessidades, as mães e esposas fazem das “tripas, os corações” para não deixarem faltar nada para seus filhos, tentando amenizar o sofrimento de suas famílias? Às vezes não reconhecemos estas virtudes de nossas mulheres, e que só elas têm, mas temos que nos render, queiramos ou não.

Quando digo que a mulher é o perfume do lar, falo porque elas são as flores mais lindas e perfumadas do Jardim do Éden, que Deus nos proporcionou. Tenho a certeza que vocês concordam comigo. E ainda mais, digo isto também pelas seis flores que tenho dentro do meu coração e que me impulsionam mais e mais a viver de bem com o mundo e a lutar sempre por ele ser cada dia melhor para todos: a minha querida mãe, ainda viva, a minha querida sogra, segunda mãe. E aos quatro perfumes do meu lar, minhas três filhas e a grande razão do meu viver, que me fez chegar até onde estou, mais próximo de Deus, minha querida e amada Esposa Geralda Aparecida, na qual sempre busquei forças, muitas vezes em situações difíceis; quando estas forças já não as tinha dentro de mim para enfrentar tais situações.

Todos nós podemos ter um jardim dentro de nossos lares, basta aceitarmos e compreendermos nossas mulheres, porque tenho a certeza que elas sempre têm uma solução, uma luz para os nossos problemas. Todas as vezes que depararmos com um problema, por mais difícil que ele seja, lembrem-se de Nossa Senhora que a tudo suportou, e teve forças para seguir em frente no caminho de Deus.

PARABÉNS ÀS MÃES DO BRASIL! E QUE DEUS ABENÇOE A TODAS!




segunda-feira, 3 de maio de 2021

Minha mãe Olga

 Ângela Leite Xavier
Cadeira n.º 1
 


Quando cai a primeira chuva, sobe um cheiro gostoso de terra molhada pelo ar. Os pássaros cantam. O cheiro de telha molhada da minha cozinha evoca outras cozinhas de avós, de fogões a lenha, de outros tempos.

Minha mãe tinha medo de chuva forte, tempestade com raio. Cresceu com este medo que era de sua mãe. Minha avó queimava ramos bentos durante as tempestades. Ramos guardados para este fim desde a Procissão de Ramos da Semana Santa.

Mas, este medo minha mãe ocultou de seus filhos, protegendo-nos da angustia que ela própria sentia diante das tempestades. Ao contrário, ela nos fez amar a chuva. Os pingos caindo nas latas colocadas por ela debaixo das goteiras do telhado, eram música aos nossos ouvidos. Cada latinha emitia um som e neste embalo dormíamos felizes.

Quando chovia granizo ela corria e nos chamava para recolher as pedrinhas de gelo que colocávamos na boca como se fosse um maná do céu.

Hoje amo a chuva, o cheiro da terra e das telhas molhadas. Paro para apreciar da janela os raios iluminando o céu escuro.

Como este, lembro de outros momentos mágicos que ela proporcionou a mim e aos meus irmãos.

Aniversário era sempre com festa para cada um de seus oito filhos, além do dela e de meu pai. Ela fazia os salgados que eram deliciosas empadinhas e pastéis. Tudo feito em casa. Ela tinha as forminhas das empadas, o rolo e a carretilha para a massa dos pastéis. Nunca mais comi salgados como os que ela fazia. O bolo era quadrado e montado em andares. A cobertura era branquinha, de suspiro e, no alto ficavam as velas, tantas quantos eram os anos feitos pelo aniversariante e salpicada de confetes de chocolate. E havia também pirulitos de mel que, felizmente, sei fazer.

Sexta feira era dia de fazer quitandas e mamãe deixava que nós, crianças, participássemos. Nossa ajuda era na hora de enrolar ou enfeitar os biscoitos, dourar as roscas, untar os tabuleiros. As maiores podiam bater as claras de ovos para os bolos, e era com garfo. Se faltava ingrediente, uma de nós ia ao armazém comprar. Assada a primeira fornada, era devorada na hora. Nada era escondido. Talvez por esta vivência eu tenha hoje a mão boa e o prazer para fazer algumas daquelas quitandas deliciosas.

Os doces também eram feitos em casa: doce de figo, de laranja da terra, de leite, de mamão, aletria, arroz doce. Tudo acompanhado de perto pelos 8 filhos. Quando o doce era colocado na travessa, nós já estávamos com a colher nas mãos para raspar a panela. Nós e o papai.

À noite mamãe contava histórias. Não havia televisão e dormíamos assim que escurecia. Eu me lembro especialmente da história da Maria Pintada, uma menina que não queria comer verduras, nem legumes, nem frutas. Então, ela era magra e pálida, tanto que, um dia, um vento forte a derrubou. Depois disso, ela começou a comer. Esta história era dirigida em especial à minha irmã mais velha, Maria Olga, que só gostava de café com leite e das quitandas. Eu sempre comi bem, então, ouvindo a história, eu já ia para o terceiro prato quando minha mãe percebia e dizia "basta".

Minha mãe sempre cantava enquanto fazia o serviço de casa. Sua família era de músicos. Cantava no coral da igreja nas missas de domingo e sempre que se reunia com sua família.

Com minha mãe aprendi a apreciar o silêncio das manhãs, a comer lima cortada em gomos formando livrinhos, a acordar às 5 horas da manhã e sair para a igreja a comungar. Com ela aprendi a respeitar o sono alheio, sempre andando pé ante pé, falando aos cochichos e jamais acendendo a luz num cômodo onde alguém estivesse dormindo.

Aprendi a gostar de cultivar flores e hortaliças. Eu a via cuidar dos canteiros floridos com suas flores preferidas: amor perfeito, cravo, rosa e ervilha de cheiro. Eu e minha irmã maior ganhamos, cada uma, um canteiro para plantar o que quisesse. Hoje nós, seus filhos, temos alegria em cultivar, mesmo aqueles que moram em pequenos apartamentos têm seus vasinhos de flores e ervas.

O Natal era uma festa sensacional. Seu pai, vovô Alfredo, era artista e havia feito um grande presépio de serra para cada filho. Assim, antes do natal, mamãe saia conosco para recolher terra branca de talco que havia na serra para montar o caminho dos Reis Magos. Também colhíamos musgos e barbas de pau das árvores para a gruta do Menino Jesus. Havia um pequeno espelho onde os patinhos nadavam. Era uma alegria montar aquele presépio. Muitas pessoas faziam belos presépios que costumávamos visitar. O mais famoso era o da Zé Correia que ocupava todo um quarto e podia ser visto da janela da rua.

Na noite da véspera de Natal sempre havia uma ceia, que acontecia antes de meia noite para que as pessoas pudessem comungar na missa do dia 25 de dezembro. Nós, as crianças, não participávamos da ceia dos adultos. Dormíamos às 8 horas e, antes de irmos para a cama, mamãe nos servia todas as guloseimas da ceia com guaraná, numa mesinha na cozinha. Antes de dormir, cada um de nós deixava um pé de sapato no presépio e, no dia seguinte, ali estavam nossos presentes dados pelo Menino Jesus.

Frequentávamos todos os programas para crianças que apareciam na cidade: parques, circos, quermesses. Sempre arrumadinhas, Maria Olga e eu, de roupas iguais – era moda para crianças – nos divertíamos bastante.

Em nossa casa sempre tinha um galinheiro e muitas galinhas que ajudávamos a cuidar, colher os ovos, soltar para ciscarem e prender de novo à noite. E, o melhor, mamãe dava uma galinha para cada uma cuidar. Eu tinha uma galinha que chocou sete pintinhos. Fiquei com inveja da Maria Olga pois, sua galinha chocou treze. Em compensação, a galinha da Beth, que é mais nova que eu, chocou apenas três.

Quero manter ao longo de minha vida este olhar de criança que vê por primeira vez, que descobre, que toca para sentir a textura, que cheira, que aprecia cada despertar, cada anoitecer, cada nascer da lua, cada movimento da natureza.

À minha mãe meu eterno amor e gratidão.



terça-feira, 20 de abril de 2021

Para percorrer as veredas

José Roberto Pereira
Cadeira n.º 12

[...] Viver é muito perigoso…Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo. [...] (Trecho de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa)

João Guimarães Rosa. Foto: Eugênio Silva, Revista “O Cruzeiro”

Rotulada como obra complexa e de difícil compreensão, o leitor precisa, primeiramente, se desarmar para ler Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Nessa obra, o autor nos apresenta uma Minas Gerais pouco conhecida, e ler esse Sertão é o mesmo que descortinar horizontes sobre nós mesmos e compreender os registros linguísticos presentes na inovadora narrativa literária construída pelo autor.  Porém, existe um abismo entre o livro Grande Sertão: Veredas e o público com potencial para se enveredar obra adentro, lendo-a. Ladeada a essa lacuna, acrescenta-se a falta de interesse de boa parte dos brasileiros por leitura de modo geral.

João Guimarães Rosa figura entre os melhores escritores brasileiros e é citado por intelectuais como um dos mestres da Literatura Universal. Mas por que a obra dele fica em stand-by? Seus livros permanecem em bibliotecas particulares e públicas, acumulando poeira, à espera de leitura pelo grande público. Mais grave ainda é que uma parcela significante de brasileiros não sabe quem é João Guimarães Rosa. Muitos desconhecem que ele foi contista, novelista, romancista e diplomata. E mal sabem que ele nasceu em Cordisburgo, MG, em 27 de junho de 1908 e formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. Guimarães Rosa estará sempre em destaque na galeria da Literatura Nacional. O escritor enveredou-se pela Literatura, primeiramente, por meio da revista O Cruzeiro, em 1929, com o conto O mistério de Highmore Hall. Após tornar-se diplomata, foi cônsul em Hamburgo, Alemanha, entre os anos de 1938 a 1942. Em seguida, de volta ao Brasil, exerceu inúmeros cargos públicos. Sagarana, seu primeiro livro, publicado em 1946, figura entre os melhores livros brasileiros. Em 1952, a revista O Cruzeiro registrou uma excursão que Rosa fez em Minas Gerais acompanhando um grupo de boiadeiros por cerca de 240 quilômetros, aproximadamente, guiando, junto deles, a boiada.  A ambientação, as fazendas e o convívio com pessoas dos locais por onde ele passou  serviram de material de pesquisa para seu livro mais célebre, Grande Sertão: Veredas, publicado em 1956. Sobre o livro, o escritor disse, em um canal de tevê, na Alemanha, em 1962, único registro audiovisual em que explica seu romance, que sua obra tem um fundo telúrico, real [...] passa-se uma história, com transcendência, visando até o metafísico. Seria quase que uma espécie de fausto sertanejo. João Guimarães Rosa ocupou a cadeira nº 2 da Academia Brasileira de Letras. No discurso de recepção de Rosa na renomada instituição, o acadêmico Afonso Arinos de Melo Franco referiu-se a ele como:

[...] Escritor ligado à terra, às limitações temporais e espaciais de uma certa terra brasileira, não sois, no entanto, um escritor regional, ou antes, o vosso regionalismo é uma forma de expressão do espírito universal que anima a vossa obra e, daí, sua repercussão mundial. Sem dúvida exprimis o social – isto é, o local – nos vossos livros e, neste ponto fostes, como nos demais, um descobridor. Manifestastes um aspecto de Minas Gerais que o Brasil não conhecia: a vida heroica; o heroísmo como lei primeira da existência, na guerra e na paz, no ódio ou no amor. [...]

 Grande Sertão: Veredas, após ser lançado, provocou polêmica entre críticos, produzindo opiniões divergentes, principalmente sobre a linguagem usada pelo autor na obra. Mas, nos anos que se seguiram, o livro  tornou-se uma referência nos meios acadêmicos, e hoje está listado como uma das obras brasileiras mais estudadas e interpretadas em teses de mestrado e doutorado. Foi traduzido para alguns países e adaptado para a tevê, transformando-se em uma minissérie exibida pela Rede Globo de Televisão no ano de 1985.

No texto, se faz presente uma aclamada linguagem que —  com experimentações linguísticas, como o uso dos arcaísmos, a recriação e o registro de linguagem sertaneja, a invenção de vocábulos, as construções semânticas e sintáticas  — conferem encanto e originalidade à obra. Por outro lado, ironicamente, são esses mesmos elementos que criam o abismo entre o público e o livro. Ler e compreender Grande Sertão: Veredas, para quem não tem familiaridade com a escrita rosiana, pode ser, sim, uma difícil tarefa a ser cumprida.

 Entre tantos atrativos em Grande Sertão: Veredas, a história de amor entre os protagonistas do romance se destaca­­­­. Na saga, Riobaldo, ex-jagunço, na primeira parte da história, relata suas inquietações, mergulha em conflitos internos, discutindo, de forma desordenada, temas universais, como o bem e mal, Deus e o diabo, a vida e a origem do homem. Riobaldo, à sua maneira — personagem psicologicamente bem construído pelo autor — é uma espécie de filósofo de seu tempo que narra sua própria história. A primeira impressão, aos olhos de alguns leitores que adentram as páginas de Grande Sertão: Veredas, é a de que tanto a narrativa quanto o personagem se mostram caóticos e desordenados, mergulhados em questões existenciais e filosóficas. Mas, após percorridas as primeiras dezenas de páginas, o leitor perspicaz vai, aos poucos, se ambientando com o universo original do autor. É preciso encontrar até mesmo uma respiração adequada para prosseguir a leitura, pois o texto tem uma velocidade própria. Como bem fazem os artistas cênicos que encontram uma forma de respirar apropriada para os personagens que interpretam, o leitor de Grande Sertão: Veredas precisa ajustar sua respiração ao ritmo da história, além de se permitir entrar no mundo rosiano.

Quando Reinaldo, outro personagem importante do romance, apresentado pelo autor com o nome de Diadorim, entra na narrativa, o livro abre novas veredas. No desenrolar das relações conflitantes entre os personagens da saga, em pleno sertão mineiro, Diadorim vai inaugurar emoções profundas em Riobaldo. O amor, o mais desejado dos sentimentos, aflorará em Riobaldo, e será acompanhado de conflitos disparatados e de repressão, uma vez que a relação amorosa entre dois jagunços seria improvável. Os anseios de Riobaldo e de Reinaldo/Diadorim sobrevivem entre guerras de grupos rivais de jagunços e oscilações de lideranças nas regiões do interior do Brasil onde a história se passa, Minas Gerais e em suas divisas com os estados da Bahia e de Goiás. As paisagens ricas e exuberantes, os usos e costumes de um Brasil desconhecido pela maioria dos brasileiros vão sendo revelados pelo autor por meio dos personagens, jagunços que, sobre seus cavalos, percorrem também os caminhos sinuosos que se aprofundam nas mazelas humanas. Quem se propõe a mergulhar nessa obra rosiana, certamente vai se encantar por Riobaldo e seus conflitos, em passagens como estas, por exemplo:

[...] Tudo turbulindo. Esperei o que vinha dele. De um aceso, de mim eu sabia: o que compunha minha opinião era que eu, às loucas, gostasse de Diadorim, […] no fim de tanta exaltação, meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre. [...] Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. [...] (Trechos de Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa)

Como terá desfecho esse amor, se ele irá prosperar e se aprofundar entre os jagunços Diadorim e Riobaldo, somente a leitura do romance poderá revelar. Um bom ponto de partida para ler e compreender a obra é começar pela leitura do livro Para ler Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, de Luiz Carlos de Assis Rocha, lançado recentemente pela Páginas Editora.

Natural de Pitangui, Minas Gerais, Rocha foi professor no Sistema Estadual de Ensino e no curso de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Possui doutorado pela Faculdade de Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, onde defendeu sua tese baseada na linguagem de Guimarães Rosa. Para ler Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, é o resultado de mais dez anos de pesquisa sobre o texto do renomado autor. Paralelamente aos estudos para compor o livro, Luiz Carlos de Assis Rocha desenvolveu outra pesquisa, de forma informal, indagando pessoas que haviam lido ou não Grande Sertão: Veredas. O resultado o surpreendeu. Entre escritores, jornalistas, intelectuais, acadêmicos e pessoas que leem regularmente, a obra rosiana permanece desconhecida ou pouco visitada para leitura. Diante dessa constatação, tornou-se oportuno elaborar uma espécie de manual para facilitar o contato com um dos grandes livros da literatura nacional, bem como  sua compreensão.  Com maestria, aliada à experiência de professor que acumulou ao longo da vida acadêmica, por meio de seu livro, Rocha apresenta curiosidades que vão despertar o interesse pela obra-prima rosiana e facilitar seu entendimento. Muito mais que uma preparação para ler Guimarães Rosa ou um dicionário das palavras e expressões presentes em Grande Sertão: Veredas, o  livro de Luiz Carlos de Assis Rocha é, fundamentalmente, uma explicação sobre uma parte do jeito mineiro de ser e de falar, espalhado por tantos sertões das Gerais. Diagramado por Nelson Flores e ilustrado por Nelson Cruz, Para ler Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa apresenta, de maneira didática, leve e ricamente detalhada, um passo a passo para mergulhar na obra rosiana, como nos exemplos abaixo:

[...] frase desestrut. – frase desestruturada

A verdadeira revolução rosiana se faz no campo da sintaxe. O que torna o texto de Guimarães Rosa inconfundível é a construção da frase, aliada a uma significação especial que é dada às palavras e às orações. Algumas frases são construídas de uma maneira tão diferente do português comum que alguns leitores chegam a dizer que se trata de uma outra língua, de um sistema linguístico diferente do da língua portuguesa. Mas como se trata de um número de frases relativamente reduzido, considerando a extensão de GSV, não se pode dizer que GR tenha criado uma outra língua, ipso facto, com uma sintaxe diferente. [...] Que sirvam de exemplo as passagens abaixo, [...] Que vontade era de pôr meus dedos, de leve, o leve, nos meigos olhos dele, ocultando para não ter de tolerar de ver assim o chamado, até que ponto esses olhos, sempre havendo, aquela beleza verde, de me adoecido, tão impossível. (p. 46/40); [...] Só nos olhos das pessoas é que eu procurava o macio interno delas; só nos onde os olhos. (p. 426- 427/307); [...] E uma vela acesa, uma que fosse, ali ao pé, a fim de que o fogo alumiar a primeira indicação para a alma dele… (p. 582/416) [...]

[...] Deus é definitivamente – ‘Deus é eternidade, segurança’

 retentiva – ‘faculdade de reter na memória’; dicion.

sufusa – ‘espalha, difunde’; neolog.; verbo sufusar, estrang., latin. suffundo, suffundere.

dos acasos – ‘das dúvidas, das indecisões’

Para trás, não há paz. – ‘as pessoas sofrem ao se lembrarem do passado’; rima; ritmo; erud. [...]

(Trechos de Para ler Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, de Luiz Carlos de Assis Rocha)

Vale destacar que, nas Minas Gerais, o celebrado livro de João Guimarães Rosa também não figura entre os mais lidos pelo público mineiro. Talvez o trabalho de Rocha, posto como uma referência para iniciar a leitura Grande Sertão: Veredas, mude essa estatística. Segundo Rocha, o leitor perceberá, já nas primeiras páginas, o quanto o conteúdo irá prepará-lo para “sanar as dificuldades apresentadas pelo livro relativas aos efeitos de linguagem, aos significados do texto e à compreensão da obra de um modo geral”.

Levantai-vos, digníssimos! Leiam os dois livros citados neste artigo. Como disse bem o autor de Grande Sertão: Veredas, que faleceu relativamente jovem, em 1967, aos 59 anos de idade, o que a vida quer da gente é coragem.


Artigo escrito a pedido da Editora Páginas para publicação na revista Conexão Literatura.

Referências:

·          Rocha, Luiz Carlos de Assis, Para Ler Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, 1º edição, Belo Horizonte, Páginas Editora, 2021.

·          Rosa, João Guimarães, Grande Sertão: Veredas, 7ª edição, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1970.

·          Suplemento Literário de Minas Gerais – Guimarães Rosa 50º Grande Sertão: Veredas, Belo Horizonte, maio de 2006, Edição Especial, Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais.

·          Sites: http://www.academia.org.br  e https://www.portugues.com.br/literatura/frases-aforismos-grande-sertao-veredas.html 



segunda-feira, 12 de abril de 2021

Teteia

Conceição Cruz
Cadeira n.º 4




Gata bicolor

de negro e branco

de ar delicado

mia, mia, mia

e, toda noite,

atrai gatos no telhado!


Gato branco

Gato preto

Gato malhado!


Um dia,

inesperadamente,

tornou-se mãe de três filhotes!


Com vários dias de vida,

de olhos bem abertos

Cada um ganhou

um novo lar!


Teteia muito dengosa

com seu colar de prata,

não quis trocar de lar:

quis ali mesmo

ficar!

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