13 de junho de 2026

A casa da Vovó Lilina

Angela Xavier
Cadeira n.º 1

O que é o tempo? Será o passado mais velho que o presente e este maior que o futuro? Em que instante vivemos nós? O que é o agora?

Vejo minha avó Aureslina, alta, bem magrinha, sua saia comprida cobre as pernas até os pés. A roupa escura de viúva eterna, os cabelos longos, enrolados e presos na nuca por grandes grampos, o rosto limpo! Nada de batom, lápis, creme, base, sombras... sempre ao natural como o tempo a fez. Os pés enfiados nos chinelos macios protegendo os joanetes, seu andar vagaroso percorre a casa enorme, agora vazia. Onde estará ela hoje? Onde fica o passado?

Vou lá! Vejo-me menina no quintal imenso de sua casa em meio às bananeiras, mangueiras, abacateiros, laranjeiras, limoeiros – e galinhas! Isto é real? Ou este lugar só existe em minha memória? Não importa. Agora estou lá. Percorro o pomar enorme e farto. Paro diante da parreira de uvas. Está carregada! Nada mudou naquele quintal. Até os cachos de uvas estão envoltos em sacos de panos brancos, protegidos de insetos e pássaros, quiçá de gambás. Resguardados para os netos. Enfio os dedos na abertura de um dos sacos, como fazia na infância, e destaco uma uva. É moscatel. Está rosada de tão madura. Apanho mais duas e levo as três à boca de uma vez só para “saborear com todas as papilas gustativas” como ensinava meu tio Alberto. Minha avó está na janela e espia com satisfação. Nada diz.

Continuo minha caminhada pelo quintal onde tantas vezes brinquei e tantos frutos comi. Diante do pé de jabuticaba, carregadinho, não resisto. Subo, escolho um galho para sentar de onde possa alcançar as frutas maiores e mais doces. As bitelas, como dizíamos. Lá no alto, diante de um galho carregadinho agi como quando criança: abracei o tronco e chupei as frutas sem arrancá-las do galho. Era como se fosse um beijo de amor. As cascas vazias continuavam nos galhos enganando quem as visse de baixo; parecia estar o galho cheio de frutas maduras.

O balanço feito de corda de bacalhau ainda estava lá. Balancei alto e vi, do outro lado do muro, minha outra avó podando suas roseiras, enquanto meu avô pintava o retrato de um bispo.

Continuo descendo até o velho pé de manga pequi. Colho no chão aquele fruto amarelo com pintinhas pretas e como com prazer. Seu delicioso sabor é o mesmo de minha infância. As bananeiras de todas as espécies arrematam o pomar. O muro divide a propriedade com a linha férrea. Um trem passa apitando e as pessoas acenam para mim das janelas. Talvez estejam indo para Bom Despacho. Aceno de volta saudosa destas viagens.

Deixo para trás aquele paraíso e entro na casa pela porta da cozinha. O fogão a lenha está aceso e a Rosa cozinha. O cheiro de sua comida despertou minha fome. Ela cozinha abóbora moranga e prepara o molho de caldo de feijão para temperá-la. Reparei bem como ela faz para aprender. Na infância, só degustei. Agora eu teria a chance de aprender sua receita famosa que tornava todos os legumes deliciosos.

Ela coloca alho picadinho numa cumbuca, uma pitada de sal, salsa, cebolinha e gotas de limão. Depois joga, por cima, um pouco de gordura de porco fervendo. A mistura chia desprendendo um cheiro delicioso. Com uma concha, ela coloca o caldo de feijão sobre a mistura. Em seguida, despeja o molho sobre a abóbora cozida. Eu já estou com água na boca.

Nesta hora a Rosa percebe a minha presença, sorri meiga, me abraça e diz: “ Buniteza”. A Rosa vive com minha avó desde que ela se casou. Negra, cheinha sem ser gorda, usa sempre um pano na cabeça por cima dos cabelos trançados em quadradinhos. Seu vestido de saia reta vai até os pés e é de tecido de algodão, xadrez, discreto. Usa chinelos de couro. Cozinha em panelas de ferro, a colher de cabo comprido com que mexe a comida é também de ferro e está gasta pelo uso. Atrás da porta tem uma cabaça dependurada por um barbante em um prego. Serve para lavar o arroz. Debaixo do armário há uma bacia cheia de bolas de sabão preto feito com cinza e enroladas em folhas de bananeira. É com este sabão que se lavam as vasilhas da cozinha e as roupas da casa. O piso da cozinha, do banheiro e da copa é de ladrilho hidráulico. É bonito com desenhos em verde e vermelho sobre fundo branco.

Enquanto espero a comida ficar pronta, dou um pulo no quarto da vovó Lilina. Lá está sua cama patente de solteira, a cômoda com o despertador em cima além de pequenas imagens de Nossa Senhora e de santos. Os números e ponteiros do relógio, assim como os santinhos, brilham com luz esverdeada no escuro. Sempre gostei de ver isso. Só não poderia dormir perto daquele despertador com um tique-taque tão barulhento.

Vovó me recebe com seu sorriso tímido. Abre uma gaveta da cômoda e tira um santinho. É um comprovante de que me incluiu num movimento de proteção do Sagrado Coração de Jesus. Ela havia garantido uma vela acesa em minha intenção, permanentemente. Fiquei feliz ao pensar que aquela vela acesa me protegeria de todo o mal. E minha avó também. Olhava para mim com a satisfação de uma benfeitora estampada no rosto. Agradeci. Tomei-lhe a bênção. Ela nada respondeu como sempre fazia. Não se sentia digna de abençoar em nome de Deus. O quarto rescendia a naftalina. Ela tinha seus preciosos guardados protegidos dos insetos. Eram seus véus. Dezenas deles. Desde o primeiro que ela ganhou em sua 1ª Comunhão o último. Os primeiros eram brancos, véus de mulher virgem. Depois de casadas, as mulheres usavam véus pretos. E eram de seda fina, de rendas, belos trabalhos.

Saímos do quarto. Ela com seus passinhos curtos arrastando os chinelos, eu com minhas botinas pesadas. Sentamos na mesa grande da copa. Mesa que nos tempos de seu pai, o coronel Zeca da Varginha, nunca comiam menos de quinze pessoas. A Rosa comia na cozinha sozinha, costume mantido dos velhos tempos da escravatura. Vovó comia pouco, como um passarinho. Era frágil como uma criança e era a Rosa quem cuidava dela. A Rosa sabia tudo da vida. Era a dona da casa. Meiga, amorosa, paciente. A família de minha avó era a sua família.

Depois de comer aquela comida simples e saborosa, a Rosa chegou com a tigela de louça branca com seu famoso doce de leite em ponto de colher com tiras de casca de limão. Hum! Poder saborear novamente este doce! Ninguém jamais conseguiu fazer igual.

A sala grande da casa é a sala de visitas. É a entrada da casa e fica logo depois de uma pequena varanda separada do passeio por um portão de ferro desenhado com formas elegantes. Quatro janelas enormes dão frente para a rua São José. A rua é calçada com paralelepípedos, pedras cortadas e ajustadas umas às outras. O movimento não é tão intenso e barulhento como no presente. Poucos carros circulam, Chevrolet, dauphine, combis, alguns poucos caminhões. Muitas bicicletas, cavalos e até carros de bois.  Debruço na janela junto com a Rosa que passa o braço pela minha cintura aconchegando. Uma boiada vem passando. Um boi tem cangalha porque é bravo ou foge. Três vaqueiros controlam o gado. Ôôô! É o aboio que se ouve.

A sala é assoalhada com belas tábuas de madeira em duas cores entre o claro e o preto. Uma mobília de palhinha tem um canapé, duas cadeiras de braços e quatro simples. Na parede duas tábuas encimadas por pequenos pedestais pretos pintados em dourado com chinesices. Forrinhos de frivolité e jarros com flores estão colocados nas tábuas de baixo e santinhos nas de cima.

O quarto grande que dá para a sala já foi quarto do Luiz da Maria Paiva do Juca do Zeca, sobrinho de minha avó. Outro quarto, pequeno, dá para a sala. Era lá que meu pai usava como comitê político. Ali armazenava o material de propaganda política de seu primo Ovídio Xavier de Abreu, candidato a deputado federal.  Mais tarde aquele quarto se transformou na farmacinha dos pobres onde meu pai aviava as receitas de quem não tinha dinheiro para comprar os remédios. Seu irmão Edward, médico, lhe fornecia amostras grátis e também o orientava com as receitas.

O sino da Matriz de Nossa Senhora da Piedade toca para o Te Deum. São 18 horas. As pessoas não se mexem nem se falam enquanto o sino não badala pela segunda vez, encerando a cerimônia. Costume antigo preservado.

Saio pela rua São José. Vejo com saudade uma cidade que já não existe: ao lado da casa da vovó,  a alfaiataria do Chico onde o João da Bé parava para um bom papo, sempre de cócoras enrolando seu cigarro de palha. Depois a casa da tia Mariquinha, a casa do Zé Juca que veio de Maravilhas com sua grande família. A casa de esquina é da família do Arnaldo Moreira, dentista.  Estou na esquina da rua Escandalosa assim conhecida por ser uma rua aberta da noite para o dia em um quintal particular. Coisas de cidade do interior. Do outro lado do passeio fica a casa do Sr Jesus Alexandre cuja filha Carmita se casou com meu tio Alberto. Após vem a residência da família de Jacinto Mendonça com seu enorme quintal. Em frente estão as casas do Nem Vilaça, do Dr Ives, a casa dos Tibite e na esquina a casa do tio Tavinho com seu pé de caju que dava água na boca de quem passava pela rua. Já estou no jardim onde ficam os prédios do Fórum, da prefeitura e da Câmara além do Grupo Novo. Lembro do meu pai, Zezinho Xavier, sempre ás voltas com a política.

Termino meu passeio. As recordações são muitas e já não cabem no meu peito. A memória traz consigo emoções, cheiros e sabores. Ao voltar ao presente tudo mudou. Um sentimento de solidão me atravessa provocado pela vivência momentânea de um tempo que já não há. Onde fica o passado?

Percebo finalmente que o presente contém o passado e que também o futuro, está contido no presente.

____________________________________

Imagem: Criada por IA generativa 


1 de junho de 2026

Festa, romance e devoção

Márcio Simeone
Cadeira n.º 8

Ah, Juno, esposa de Júpiter, protetora dos matrimônios e das mulheres! Viajando pelos séculos, empresta seu nome ao mês festivo, intenso, repleto de outros cultos e devoções, mas propício aos casamentos, ainda que humoristicamente simulados. Casam-se também o fogo com o frio, o sagrado com o profano. Neste momento, celebram-se as expectativas românticas dos enamorados. Um mês de danças e brincadeiras ao redor de fogueiras, onde se erigem mastros para louvar Antônio, João e Pedro. O som das festas populares explode por todo canto, mas ainda há celebrações domésticas, nos quintais, com aconchego de bebidas quentes. É quando o outono solta suas últimas folhas para virar mais uma página e o amanhecer é cheio de orvalho.

Junho da minha infância é do prenúncio das férias de escola. Cheio de bandeirinhas coloridas e dos sabores de pipoca, canjica, pé de moleque e quentão de gengibre. Das quadrilhas marcadas em francês, aquela melodiosa ciranda ao som dos acordeons. Na minha memória é de lua cheia que brilha o mês inteiro, anunciando manhãs de névoa densa a ser rompida com pão quente e café da hora. Hoje junho é minha experiência mística, onde se recupera o perdido e cede o mar bravio em pleno furacão, pela intercessão do Santo Antônio, inspirador de esperança, humildade e caridade.

_____________________________________

Imagem: Criada por IA generativa 

 

13 de maio de 2026

Academia de Letras sedia encontro sobre abolição, racismo estrutural e educação antirracista


A Academia de Letras de Pará de Minas recebe, no próximo dia 13 de maio de 2026, às 19 horas, a programação promovida pela Associação Étnica Dandara, dedicada à reflexão sobre a abolição da escravidão e os desafios sociais que permanecem presentes mais de um século após o fim oficial do regime escravocrata no Brasil.

Com o tema “Abolição / Pós-Abolição”, o encontro propõe uma roda de conversa aberta ao público, reunindo convidados e participantes em torno de debates fundamentais sobre racismo estrutural, desigualdade social, memória histórica e educação antirracista. A iniciativa busca ampliar o diálogo sobre os impactos históricos da escravidão na formação da sociedade brasileira e sobre a importância de ações permanentes de conscientização e transformação social.

A programação será dividida em três blocos temáticos. O primeiro abordará o processo de abolição e seus desdobramentos históricos e sociais. O segundo discutirá o racismo estrutural e suas manifestações na vida cotidiana da população negra. Já o terceiro bloco tratará da educação antirracista como instrumento de formação cidadã, inclusão e valorização da diversidade cultural.

Além das discussões, o evento contará com apresentações culturais e artísticas, com participação da cantora Bell Black, das Cantadeiras do Engenho, do Grupo de Capoeira do Professor Bambam e da Miss Beleza Negra de Pará de Minas, Geovana Moreira, fortalecendo a valorização da cultura afro-brasileira e das expressões artísticas ligadas à ancestralidade negra.

A atividade será realizada na sede da Academia de Letras de Pará de Minas, localizada na Rua Benedito Valadares, 183, 2º andar, Centro, Pará de Minas. A entrada é gratuita.

Mais do que uma data histórica, o 13 de maio se apresenta, nesta proposta, como um momento de escuta, reflexão e fortalecimento coletivo.


12ª Paraliteratura movimenta a cidade, com participação da Academia

Pará de Minas sediará entre os dias 14 e 17 de maio a 12ª Paraliteratura - Feira de Incentivo à Leitura. Como sempre, contará com a feira de livros na Praça Torquato de Almeida e bate-papos, contações de histórias e shows musicais nos espaços da Casa da Cultura, do Teatro Municipal e da Estação Cultural, além de eventos em escolas, com toda a programação gratuita. 

Sob o tema "Palavra é lugar de memória", a edição deste ano presta uma homenagem ao escritor pará-minense Bartolomeu Campos de Queirós, membro honorário da Academia de Letras de Pará de Minas (in memoriam). No último dia da feira, domingo, outro evento cultural se associará à Paraliteratura: o 20º Encontro de Bandas.

A ALPM, como sempre, participará do evento. Terá um estande na feira de livros, onde irá expor e vender não apenas obras dos acadêmicos, mas também disponibilizará o seu espaço para promover livros de outros autores da cidade. Além desta atividade, terá participação específica na programação: a acadêmica Lígia Muniz e o acadêmico Eduardo Rodrigues farão bate-papos em escolas.

Veja a programação completa:

14/05 — quinta-feira
8h às 20h – Feira de Livros | Praça Torquato de Almeida
9h – Abertura da 12ª Paraliteratura e homenagem a Bartolomeu Campos de Queirós | Praça Torquato de Almeida
9h15 – Contação de história – Cia. Canta Contos | Praça Torquato de Almeida
10h – Bate-papo com a escritora Lígia Augusta Muniz | Escola Prof. Wilson de Melo Guimarães
13h30 – Cine-Literatura: “O diário de Pilar na Amazônia” (público escolar) | Estação Cultural
13h30 – Contação de história – Cia Canta Contos | Praça Torquato de Almeida
14h – Espetáculo “Chuá” (público escolar) | Teatro Municipal Geraldina Campos de Almeida
16h – Bate-papo com a escritora Ana Cláudia Saldanha | Escola Municipal Torquato de Almeida
19h – Espetáculo “Chuá” (aberto ao público) | Teatro Municipal
19h30 – Lançamento do livro “Tecendo afetos”, de Idê Ferreira | Museu Histórico

15/05 — sexta-feira
8h às 20h – Feira de Livros | Praça Torquato de Almeida
8h – Bate-papo com o escritor Eduardo Rodrigues | Escola Estadual Manoel Batista
8h30 – Cine-Literatura | Estação Cultural
9h e 10h – Contação de história – Cris Poesia | Praça Torquato de Almeida
13h30 – Cine-Literatura | Estação Cultural
13h30 e 14h30 – Contação de história – Marcilene Tavares | Praça Torquato de Almeida
14h – Bate-papo com o escritor João Souza | Escola Estadual Fernando Otávio
18h – Show musical – Banda MPBlues | Praça Torquato de Almeida
19h – Contação de história “Um sem fim de histórias” | Teatro Municipal

16/05 — sábado
8h às 14h – Feira de Livros | Praça Torquato de Almeida
9h às 12h – Oficina de contação com Letícia Liesenfeld | Teatro Municipal
10h – Bate-papo sobre Bartolomeu Campos de Queirós | Casa da Cultura
10h – Show musical – Ana Maria Medeiros | Praça
11h30 – Show musical – Ricardo Rodrigues | Praça

17/05 — domingo
9h às 13h – 20º Encontro de Bandas e Feira de Livros | Praça Torquato de Almeida

 

12 de maio de 2026

Câmara Municipal de Pará de Minas confere moção de aplausos à ALPM pela realização da Festa Literária

A Câmara Municipal de Pará de Minas aprovou, na reunião do último dia 5 de maio, moção de aplausos à Academia de Letras de Pará de Minas pela realização da sua 1.ª Festa Literária. O evento ocorreu de 7 a 10 de abril, com o tema "Quando a literatura te abraça". A proposição da Vereadora Irene Melo Franco destacou não apenas o sucesso do evento, mas a sua contribuição na valorização dos escritores locais e na democratização da leitura, pela realização de atividades voltadas a estudantes da rede pública e apoio ao fortalecimento dos clubes de leitura da cidade. A moção também ressaltou a importância da ALPM na promoção da diversidade e da identidade local e seu papel na preservação do patrimônio imaterial e histórico do município, considerando a Festa Literária um marco na política cultural de Pará de Minas.

11 de maio de 2026

E assim tivemos mais um “Dia das Mães”

Maria de Fátima Moreira Peres

Cadeira n.º 15


Depois de uma semana cheia de compromissos, dormindo sempre depois da meia-noite e um domingo do Dia das Mães, cheio de emoções, enfim o descanso merecido. Após o almoço, deitei-me na cama, coloquei o fone de ouvido para não incomodar ninguém e comecei a ouvir música clássica para relaxar. 

Pensei comigo: “não é fácil ser mãe, ainda mais, hoje em dia.” Quanta coisa se faz em apenas 24 horas! Poderia enumerá-las aqui, mas até isso já me deixa cansada. Mas ainda é pouco. Quantas mães estão por aí com uma penca de filhos, sem ter onde morar direito, largando os filhos sozinhos para buscar ajuda e um pouco de alimento para colocar na boca de cada um.

Mães solo, mães desempregadas, mães com problemas de saúde, mães de todos os tipos que só querem um pouco de tranquilidade para cuidarem de si próprias. Não tem nada de charmoso o Dia das Mães. Um presentinho aqui, um outro ali e parece que, num passe de mágica, tudo se transforma e o cansaço vai embora, a dor some, a tristeza fica no passado.  

Mas não é bem assim. Continua-se cansada, exaurida e com uma vontade enorme de estar num lugar onde você se sinta leve, sem pensar em nada, a não ser, olhar para o céu e apreciar o fim de tarde, tomando sorvete de doce de leite.

Mas isso não existe. Quando se tem filhos, carregamos em nosso peito, uma profusão de sentimentos de amor, temos a necessidade de estarmos juntos e fazer o melhor, para que o dia seja o mais alegre e divertido possível. E, que bom, quando vemos nossos filhos contentes ao nosso redor, de volta ao nosso lar. Esse é o presente que qualquer mãe deseja. Receber o carinho, o afeto e o melhor abraço do mundo. 

Dia das Mães, como dizem por aí é, enfim, todos os dias do ano, de uma vida. Ter um filho, ou uma filha é a certeza de que você passou pela vida, tornou-se imortal, deixou a sua melhor parte para que te represente neste planeta. Não preciso do Dia das Mães para saber que assim sou. Meu amor é maior do que qualquer comemoração. Ele é todo dia, para a vida toda. 

E ainda que não se lembrem de mim, não importa. Pois, o que vale é o sentimento que trago em meu coração, fruto do que eles me proporcionam a cada instante de suas vidas, vivos. E que sigam vivos e amando seus filhos também. Só assim saberão que viver é amar incondicionalmente aquele pedacinho de você. 

______________________________________________

Imagem: de freepik 

8 de maio de 2026

O doce de figo e Canudos

Angela Xavier
Cadeira n.º 1

Em nossa casa plantamos um pé de figo e cuidamos com carinho até que um dia nos surpreendeu com os primeiros frutos. Eram 11 figos e já estavam no ponto para fazer um doce em calda, especialidade que aprendi com minha mãe.  Então colhi os figos, raspei e dei a primeira fervura. Tem que ser no tacho de cobre para manter o verde. E o tacho tem que ser areado com sal e limão para tirar o zinabre. Com a primeira fervura ele fica feio, amarronzado, mas eu não me preocupei, pois sei que é assim mesmo. Meu marido acompanhava tudo porque adora este doce e não via a hora de saboreá-lo. No dia seguinte o mesmo ritual: arear o tacho e dar a segunda fervura. Os figos começaram a esverdear. Mais um dia de descanso e foi feita a terceira fervura quando os figos ficaram bem verdinhos e cozidos. Era só esperar esfriar e colocar na calda. Decidi terminar o doce neste mesmo dia.

Nossa cozinha era grande e aberta, separada da casa e tinha um fogão a lenha. Coloquei os figos na calda e fui ver televisão enquanto tomava uma sopa. Lembrei que era quarta feira e estava passando Canudos no cinema e era o último dia! Como professora de História, eu estava estudando o período do coronelismo com os alunos e já havia lido Euclides da Cunha. Eu não podia deixar de ver o filme! Levantei-me de um salto, troquei de roupa e escrevi um bilhete: - Fui ver Canudos.

Como estaria representada na tela aquela epopeia do povo miserável seguidor de Antônio Conselheiro, o profeta que pregava pelas ruas: “O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”? Empolgada com a perspectiva de ver o filme sai quase correndo, pois já estava passando da hora.

Cinema lotado, consegui entrar e logo o filme começou. Bons atores, trilha sonora de qualidade, emocionante! O filme mostrava as injustiças contra o povo simples do campo e as ideias do profeta de construir uma cidade que fosse de todos, onde todos mandavam e ninguém poderia obrigá-los a nada. Marieta Severo representava uma família que deixou seu casebre para trás e seguiu Antônio Conselheiro.

Houve uma cena, quando a atriz picava uma moranga na panela, que me deu um lampejo de lembrança: - o meu doce de figo havia ficado no fogo! Levantei-me de um salto e fui até a portaria do cinema. Pedi ao responsável para dar um telefonema urgente. Em minha casa ninguém atendeu. Liguei para a vizinha: - Sandra, aqui é a Angela! Ela não me deixou falar mais nada. - Você é louca! Deixou uma panela no fogo. Saia uma fumaça branca até o céu.  A gente chamou o Corpo de Bombeiros, mas eles demoraram. Então o meu marido e um amigo pularam o muro e desligaram o fogo. A panela estava preta. A diretora do colégio, aqui ao lado, também saiu pulando muros até chegar à sua cozinha, mas nós já havíamos resolvido tudo. – Ah! Muito obrigada! Disse aliviada e voltei para continuar a ver o filme.

Ao chegar em casa esperava um discurso sobre a minha irresponsabilidade, o perigo de incêndio, o doce perdido! Mas estavam todos vendo TV na maior tranquilidade. Cheguei devagar sondando a situação.

 – Oi, tudo bem? – Tudo bem! Responderam. Fui até a cozinha para ver o estrago. Nada! Saí ao quintal e lá estava o tacho estava encostado na parede tendo uma grossa crosta preta por dentro. Voltei.

- Pois é, o doce queimou! Não deu para aproveitar nada.

- Isto acontece! Foi a resposta que recebi, para minha surpresa.

Alívio. Dias depois consegui figos e fiz um tacho cheio de doce de figo. Finalmente!

__________________________________

Imagem: Criada por IA generativa