terça-feira, 20 de abril de 2021

Para percorrer as veredas

José Roberto Pereira
Cadeira n.º 12

[...] Viver é muito perigoso…Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo. [...] (Trecho de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa)

João Guimarães Rosa. Foto: Eugênio Silva, Revista “O Cruzeiro”

Rotulada como obra complexa e de difícil compreensão, o leitor precisa, primeiramente, se desarmar para ler Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Nessa obra, o autor nos apresenta uma Minas Gerais pouco conhecida, e ler esse Sertão é o mesmo que descortinar horizontes sobre nós mesmos e compreender os registros linguísticos presentes na inovadora narrativa literária construída pelo autor.  Porém, existe um abismo entre o livro Grande Sertão: Veredas e o público com potencial para se enveredar obra adentro, lendo-a. Ladeada a essa lacuna, acrescenta-se a falta de interesse de boa parte dos brasileiros por leitura de modo geral.

João Guimarães Rosa figura entre os melhores escritores brasileiros e é citado por intelectuais como um dos mestres da Literatura Universal. Mas por que a obra dele fica em stand-by? Seus livros permanecem em bibliotecas particulares e públicas, acumulando poeira, à espera de leitura pelo grande público. Mais grave ainda é que uma parcela significante de brasileiros não sabe quem é João Guimarães Rosa. Muitos desconhecem que ele foi contista, novelista, romancista e diplomata. E mal sabem que ele nasceu em Cordisburgo, MG, em 27 de junho de 1908 e formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. Guimarães Rosa estará sempre em destaque na galeria da Literatura Nacional. O escritor enveredou-se pela Literatura, primeiramente, por meio da revista O Cruzeiro, em 1929, com o conto O mistério de Highmore Hall. Após tornar-se diplomata, foi cônsul em Hamburgo, Alemanha, entre os anos de 1938 a 1942. Em seguida, de volta ao Brasil, exerceu inúmeros cargos públicos. Sagarana, seu primeiro livro, publicado em 1946, figura entre os melhores livros brasileiros. Em 1952, a revista O Cruzeiro registrou uma excursão que Rosa fez em Minas Gerais acompanhando um grupo de boiadeiros por cerca de 240 quilômetros, aproximadamente, guiando, junto deles, a boiada.  A ambientação, as fazendas e o convívio com pessoas dos locais por onde ele passou  serviram de material de pesquisa para seu livro mais célebre, Grande Sertão: Veredas, publicado em 1956. Sobre o livro, o escritor disse, em um canal de tevê, na Alemanha, em 1962, único registro audiovisual em que explica seu romance, que sua obra tem um fundo telúrico, real [...] passa-se uma história, com transcendência, visando até o metafísico. Seria quase que uma espécie de fausto sertanejo. João Guimarães Rosa ocupou a cadeira nº 2 da Academia Brasileira de Letras. No discurso de recepção de Rosa na renomada instituição, o acadêmico Afonso Arinos de Melo Franco referiu-se a ele como:

[...] Escritor ligado à terra, às limitações temporais e espaciais de uma certa terra brasileira, não sois, no entanto, um escritor regional, ou antes, o vosso regionalismo é uma forma de expressão do espírito universal que anima a vossa obra e, daí, sua repercussão mundial. Sem dúvida exprimis o social – isto é, o local – nos vossos livros e, neste ponto fostes, como nos demais, um descobridor. Manifestastes um aspecto de Minas Gerais que o Brasil não conhecia: a vida heroica; o heroísmo como lei primeira da existência, na guerra e na paz, no ódio ou no amor. [...]

 Grande Sertão: Veredas, após ser lançado, provocou polêmica entre críticos, produzindo opiniões divergentes, principalmente sobre a linguagem usada pelo autor na obra. Mas, nos anos que se seguiram, o livro  tornou-se uma referência nos meios acadêmicos, e hoje está listado como uma das obras brasileiras mais estudadas e interpretadas em teses de mestrado e doutorado. Foi traduzido para alguns países e adaptado para a tevê, transformando-se em uma minissérie exibida pela Rede Globo de Televisão no ano de 1985.

No texto, se faz presente uma aclamada linguagem que —  com experimentações linguísticas, como o uso dos arcaísmos, a recriação e o registro de linguagem sertaneja, a invenção de vocábulos, as construções semânticas e sintáticas  — conferem encanto e originalidade à obra. Por outro lado, ironicamente, são esses mesmos elementos que criam o abismo entre o público e o livro. Ler e compreender Grande Sertão: Veredas, para quem não tem familiaridade com a escrita rosiana, pode ser, sim, uma difícil tarefa a ser cumprida.

 Entre tantos atrativos em Grande Sertão: Veredas, a história de amor entre os protagonistas do romance se destaca­­­­. Na saga, Riobaldo, ex-jagunço, na primeira parte da história, relata suas inquietações, mergulha em conflitos internos, discutindo, de forma desordenada, temas universais, como o bem e mal, Deus e o diabo, a vida e a origem do homem. Riobaldo, à sua maneira — personagem psicologicamente bem construído pelo autor — é uma espécie de filósofo de seu tempo que narra sua própria história. A primeira impressão, aos olhos de alguns leitores que adentram as páginas de Grande Sertão: Veredas, é a de que tanto a narrativa quanto o personagem se mostram caóticos e desordenados, mergulhados em questões existenciais e filosóficas. Mas, após percorridas as primeiras dezenas de páginas, o leitor perspicaz vai, aos poucos, se ambientando com o universo original do autor. É preciso encontrar até mesmo uma respiração adequada para prosseguir a leitura, pois o texto tem uma velocidade própria. Como bem fazem os artistas cênicos que encontram uma forma de respirar apropriada para os personagens que interpretam, o leitor de Grande Sertão: Veredas precisa ajustar sua respiração ao ritmo da história, além de se permitir entrar no mundo rosiano.

Quando Reinaldo, outro personagem importante do romance, apresentado pelo autor com o nome de Diadorim, entra na narrativa, o livro abre novas veredas. No desenrolar das relações conflitantes entre os personagens da saga, em pleno sertão mineiro, Diadorim vai inaugurar emoções profundas em Riobaldo. O amor, o mais desejado dos sentimentos, aflorará em Riobaldo, e será acompanhado de conflitos disparatados e de repressão, uma vez que a relação amorosa entre dois jagunços seria improvável. Os anseios de Riobaldo e de Reinaldo/Diadorim sobrevivem entre guerras de grupos rivais de jagunços e oscilações de lideranças nas regiões do interior do Brasil onde a história se passa, Minas Gerais e em suas divisas com os estados da Bahia e de Goiás. As paisagens ricas e exuberantes, os usos e costumes de um Brasil desconhecido pela maioria dos brasileiros vão sendo revelados pelo autor por meio dos personagens, jagunços que, sobre seus cavalos, percorrem também os caminhos sinuosos que se aprofundam nas mazelas humanas. Quem se propõe a mergulhar nessa obra rosiana, certamente vai se encantar por Riobaldo e seus conflitos, em passagens como estas, por exemplo:

[...] Tudo turbulindo. Esperei o que vinha dele. De um aceso, de mim eu sabia: o que compunha minha opinião era que eu, às loucas, gostasse de Diadorim, […] no fim de tanta exaltação, meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre. [...] Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. [...] (Trechos de Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa)

Como terá desfecho esse amor, se ele irá prosperar e se aprofundar entre os jagunços Diadorim e Riobaldo, somente a leitura do romance poderá revelar. Um bom ponto de partida para ler e compreender a obra é começar pela leitura do livro Para ler Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, de Luiz Carlos de Assis Rocha, lançado recentemente pela Páginas Editora.

Natural de Pitangui, Minas Gerais, Rocha foi professor no Sistema Estadual de Ensino e no curso de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Possui doutorado pela Faculdade de Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, onde defendeu sua tese baseada na linguagem de Guimarães Rosa. Para ler Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, é o resultado de mais dez anos de pesquisa sobre o texto do renomado autor. Paralelamente aos estudos para compor o livro, Luiz Carlos de Assis Rocha desenvolveu outra pesquisa, de forma informal, indagando pessoas que haviam lido ou não Grande Sertão: Veredas. O resultado o surpreendeu. Entre escritores, jornalistas, intelectuais, acadêmicos e pessoas que leem regularmente, a obra rosiana permanece desconhecida ou pouco visitada para leitura. Diante dessa constatação, tornou-se oportuno elaborar uma espécie de manual para facilitar o contato com um dos grandes livros da literatura nacional, bem como  sua compreensão.  Com maestria, aliada à experiência de professor que acumulou ao longo da vida acadêmica, por meio de seu livro, Rocha apresenta curiosidades que vão despertar o interesse pela obra-prima rosiana e facilitar seu entendimento. Muito mais que uma preparação para ler Guimarães Rosa ou um dicionário das palavras e expressões presentes em Grande Sertão: Veredas, o  livro de Luiz Carlos de Assis Rocha é, fundamentalmente, uma explicação sobre uma parte do jeito mineiro de ser e de falar, espalhado por tantos sertões das Gerais. Diagramado por Nelson Flores e ilustrado por Nelson Cruz, Para ler Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa apresenta, de maneira didática, leve e ricamente detalhada, um passo a passo para mergulhar na obra rosiana, como nos exemplos abaixo:

[...] frase desestrut. – frase desestruturada

A verdadeira revolução rosiana se faz no campo da sintaxe. O que torna o texto de Guimarães Rosa inconfundível é a construção da frase, aliada a uma significação especial que é dada às palavras e às orações. Algumas frases são construídas de uma maneira tão diferente do português comum que alguns leitores chegam a dizer que se trata de uma outra língua, de um sistema linguístico diferente do da língua portuguesa. Mas como se trata de um número de frases relativamente reduzido, considerando a extensão de GSV, não se pode dizer que GR tenha criado uma outra língua, ipso facto, com uma sintaxe diferente. [...] Que sirvam de exemplo as passagens abaixo, [...] Que vontade era de pôr meus dedos, de leve, o leve, nos meigos olhos dele, ocultando para não ter de tolerar de ver assim o chamado, até que ponto esses olhos, sempre havendo, aquela beleza verde, de me adoecido, tão impossível. (p. 46/40); [...] Só nos olhos das pessoas é que eu procurava o macio interno delas; só nos onde os olhos. (p. 426- 427/307); [...] E uma vela acesa, uma que fosse, ali ao pé, a fim de que o fogo alumiar a primeira indicação para a alma dele… (p. 582/416) [...]

[...] Deus é definitivamente – ‘Deus é eternidade, segurança’

 retentiva – ‘faculdade de reter na memória’; dicion.

sufusa – ‘espalha, difunde’; neolog.; verbo sufusar, estrang., latin. suffundo, suffundere.

dos acasos – ‘das dúvidas, das indecisões’

Para trás, não há paz. – ‘as pessoas sofrem ao se lembrarem do passado’; rima; ritmo; erud. [...]

(Trechos de Para ler Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, de Luiz Carlos de Assis Rocha)

Vale destacar que, nas Minas Gerais, o celebrado livro de João Guimarães Rosa também não figura entre os mais lidos pelo público mineiro. Talvez o trabalho de Rocha, posto como uma referência para iniciar a leitura Grande Sertão: Veredas, mude essa estatística. Segundo Rocha, o leitor perceberá, já nas primeiras páginas, o quanto o conteúdo irá prepará-lo para “sanar as dificuldades apresentadas pelo livro relativas aos efeitos de linguagem, aos significados do texto e à compreensão da obra de um modo geral”.

Levantai-vos, digníssimos! Leiam os dois livros citados neste artigo. Como disse bem o autor de Grande Sertão: Veredas, que faleceu relativamente jovem, em 1967, aos 59 anos de idade, o que a vida quer da gente é coragem.


Artigo escrito a pedido da Editora Páginas para publicação na revista Conexão Literatura.

Referências:

·          Rocha, Luiz Carlos de Assis, Para Ler Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, 1º edição, Belo Horizonte, Páginas Editora, 2021.

·          Rosa, João Guimarães, Grande Sertão: Veredas, 7ª edição, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1970.

·          Suplemento Literário de Minas Gerais – Guimarães Rosa 50º Grande Sertão: Veredas, Belo Horizonte, maio de 2006, Edição Especial, Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais.

·          Sites: http://www.academia.org.br  e https://www.portugues.com.br/literatura/frases-aforismos-grande-sertao-veredas.html 



segunda-feira, 12 de abril de 2021

Teteia

Conceição Cruz
Cadeira n.º 4




Gata bicolor

de negro e branco

de ar delicado

mia, mia, mia

e, toda noite,

atrai gatos no telhado!


Gato branco

Gato preto

Gato malhado!


Um dia,

inesperadamente,

tornou-se mãe de três filhotes!


Com vários dias de vida,

de olhos bem abertos

Cada um ganhou

um novo lar!


Teteia muito dengosa

com seu colar de prata,

não quis trocar de lar:

quis ali mesmo

ficar!

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sábado, 10 de abril de 2021

Revolução

Geraldo Phonteboa
Cadeira n.º 14

Hoje vou escrever algo revolucionário
Vou protestar contra toda a injustiça do mundo
Hoje vou ocupar todos os canais de comunicação
e disseminar minha mensagem
que vai mudar o mundo...
Todo homem vai sair de si e jogar-se ao outro
Em
um abraço
de amor e perdão...
Hoje vou fazer revolução...
Vou escrever versos
Vou compor um poema...
Poesia é algo vazio,
sem nada dentro,
e nesse vácuo a voz
Imprecisa de nós mesmos
ressoa e faz eco...
Esta é minha revolução!

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quinta-feira, 8 de abril de 2021

Os invisíveis na pandemia

José roberto Pereira
Cadeira n.º 12 

Profissional da educação:  o que ensina e ministra aulas. Mestre. Educador. Catedrático. Docente. Doutor. Instrutor. Preceptor. Formador. Mentor. Pedagogo. Titular. Perito. Versado. Profitente. Especialista. Conhecedor. Prelecionador. Polímata. Instruído. Sabedor. Líder. Orientador. Coordenador. Diretor. Lente. Luz. Ajudador. Experto. Atento. Vigilante. Ousado. Precavido. Preletor. Craque. Buliçoso. Inquieto. Desassossegado. Desenvolto. Airoso. Habilidoso. Criativo. Inteligente. Compreensivo. Entendedor. Técnico. Cognitivo. Emotivo. Teórico. Prático. Interessado. Superador. Humilde.  Competente. Culto. Orador. Espirituoso. Racional. Sensível. Humano. Honesto. Alegre. Feliz. Teatral. Sério. Risonho. Camarada. Brilhante. Assertivo. Virtuoso. Correto. Justo. Organizado. Disciplinado. Pontual. Tolerante. Atualizado. Motivador. Resolvido. Obediente. Apto. Idôneo. Gentil. Equilibrado. Capaz. Firme. Flexível. Distinto. Categórico. Inteiro. Sincero. Verdadeiro. Adequado. Apropriado. Peremptório. Ouvinte. Disposto. Predisposto. Disponível. Propenso. Adaptável. Informado. Socializador. Paciente. Artesão. Fabro. Operário. Lídimo. Legítimo. Guia. Mesteiral. Mester. Obrador. Obreiro. Talentoso. Trabalhador. Benevolente. Popular. Discreto. Afável. Cortês. Bom. Caridoso. Compassivo. Condolente. Complacente. Contemporâneo. Hodierno. Moderno. Progressista. Renovador. Vanguardeiro. Revolucionário. Cordial.  Resiliente. Forte. Colaborador. Marcante. Fraternal. Generoso. Indulgente. Clemente. Nobre. Terno. Memorável. Notável. Consentâneo. Coerente. Animoso.  Extrovertido. Folgaz.  Herói. Grande. Cândido. Ajuizado. Criterioso. Oportuno. Propício. Válido. Pertinente. Escrupuloso. Cuidadoso. Fiel. Esperançoso. Bonançoso. Venturoso. Leal. Probo. Reto. Autêntico. Respeitoso. Desembaraçado. Despachado. Engenhoso. Jeitoso. Empático. Defensor. Inovador. Consciente. Referência. Comprometido. Sonhador. Admirador. Companheiro. Realista. Encantado. Torcedor. Entusiasta. Expressivo. Explicador. Exemplo. Inspirador. Elucidador. Esclarecedor. Revelador. Esforçado. Produtivo. Positivo. Observador. Ativo. Pertinente. Provocador. Digno. Virtuoso. Altivo. Brioso. Artista. Articulado. Preocupado. Íntegro. Performático. Original. Incentivador. Vencedor. Cortez. Letrado. Decente. Decoroso. Hospitaleiro. Acadêmico. Discente. Aluno. Aprendiz. Aulista. Colegial. Discípulo. Escolar. Culto. Avançado. Tratável. Doce. Honrado. Meigo. Lutador. Pelejador. Lidador. Sapiente. Erudito. Hábil. Prudente. Profético. Útil. Cheio. Necessário. Semente. Terra. Água. Chuva. Sol. Dia. Noite. Lua. Adubo. Brisa. Sombra. Estrela. Constelação. Delicado. Leve. Chão.  Porto. Ponte. Estrada. Horizonte. Base. Sociável. Piedoso. Valente. Civilizado. Polido. Humorado. Supervisor. Gestor. Zelador. Terapeuta. Psicólogo. Clínico. Comunicador. Conselheiro. Apaziguador. Digitador. Diagramador. Editor. Marqueteiro. Apresentador. Publicitário. Blogueiro. Assistente. Roteirista. Consultor. Cinegrafista. Iluminador. Fotógrafo. Advogado. Protetor. Defensor. Designer gráfico. Gerador de conteúdo. Influenciador digital. Amoroso. Amigo. Apaixonado. Carinhoso. Afetuoso. Essencial. 


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sexta-feira, 12 de março de 2021

Lua

Conceição Cruz
Cadeira n.º 4



Lua

Antes , tão próxima,


rubra,  escondeu-se atrás

da terra!


Século vinte e um: sexta-feira!


Ai! Que susto!

O que você viu? Ou ouviu?

O gato preto, no telhado, mia!


Uma sinfonia deles a trazem

de volta!


Esplendorosa,  no quintal,

derrama uma chuva de bênçãos


no meu pé de jabuticabas!

Sob o seu manto prata

feliz, adormeço!

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segunda-feira, 8 de março de 2021

Dias Chuvosos

Déa Miranda
Cadeira n.º 11 

    O dia amanhece lentamente. Assim é o despertar dos dias chuvosos. É um feriado e tudo parece parado. Só os bichinhos sentem o amanhecer, pois estão procurando alimento e vêm até a área.

Do lugar estratégico em que eu me encontro, assentada à mesa, eu os vejo. Chegam felizes, pois sabem que já coloquei o alimento que estão habituados.

         As rolinhas chegam primeiro. Parece que há um trato secreto entre os pássaros. Logo depois, os pardais tomam conta do lugar. O casal de canarinho saltita por perto e, logo depois, se aproxima. Tiziu é aceito na mesa deles. A cachorrinha nem quis latir essa noite, está quieta espiando os bichinhos da porta de sua casinha. Mostra apenas que está feliz lá dentro.

O calango está esticado, esperando que um raio de sol surja e o aqueça. Ele já não se espanta com a minha presença. Fica quieto com os olhos fixos em mim. Jogo miolo de pão, mas ele espera eu me afastar para vir comê-los. Talvez pareça estranho falar do calango como se fosse um animal de estimação, mas eu vejo todo ser vivo e, aqui incluo as plantas, como criaturas criadas por Deus e respeito todas as formas de vida. Respeito e amo com dedicação. Se não vejo o calango sair debaixo do zinco, eu me preocupo em saber se houve alguma coisa com ele. Minha netinha me acompanha nessas coisas. Falo com ela que a casinha do calango é a telha de zinco. Não sei se ela entende. Mas interage comigo com grande interesse. Quando vê os farelos de bolo, os miolos de pão, ela me diz, com a expressividade das crianças que ainda não falam, que precisamos levar para os bichinhos.

Gosto muito desses seres que habitam o meu quintal e dos que me visitam diariamente. Sei que o interesse deles é o alimento que eu os dou. Que importância tem isso se o meu interesse é vê-los felizes por perto?

O silêncio absoluto dessas manhãs de feriado chuvoso convida a uma introspecção. Começo a entrar no clima e me coloco diante do computador.

Às vezes acho que sou um pouco estranha... Minha filha sempre diz que nós não habitamos este mundo. Fico rindo dela e digo:

— Como não habitamos, se estamos aqui?

Ela diz com ar de cumplicidade:

— A senhora sabe o que estou querendo dizer!

Sei mesmo! Talvez seja a originalidade da nossa forma de agir e enxergar as coisas que nos tornam assim, meio flutuantes no mundo.

Minha netinha escuta a conversa e aponta para o seu próprio peito. Eu digo:

— Você vai ser assim também?

E parece que ela entende porque resmunga de um jeito que interpreto que seja um sim e mostra as formigas. Abaixa-se ao chão para vê-las de perto. Aponta para outra que está carregando alguma coisa. Eu falo:

— Ela está levando comidinha para os filhinhos.

Ela faz um gesto com a mão, como se levasse alimento à boca. Fico rindo e digo:

— É isso mesmo, os filhinhos dela vão papar tudo!

E o feriado chuvoso vai passando cheio de pinguinhos de chuva, caindo devagarinho neste mundo quase escondido, mas que respira junto de mim...


segunda-feira, 1 de março de 2021

Véus

Conceição Cruz
Cadeira n.º 4




Cadê a nuvem
que estava aqui?
Foi prá lá.

Cadê a nuvem que 
estava lá?
Deixou de
andar ao léu!

Cadê a água na terra?
Foi para o mar fazer
escarcéu!

Brincou, brincou e se
evaporou!

Cadê o vapor?
O vento levou! 

Levou para onde?
Para o céu?

Cadê a nuvem do céu?
Sumiu.
Alguém a viu?

Ah, mundo!
Eta, mundo!

Redesenha, a seu modo,
até o céu...

No planeta azul, 
a questão das águas
será mais um dos capítulos
de um (des) humano
escarcéu? 

Ou será que os 
homens já se reconhecem
- irmãos -
sem os costumeiros 
véus?

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