1 de março de 2026

Livrai-nos do mal, amém!

Francisco Vilas Boas
Cadeira n.º 20
 

Tempos atrás, li numa pichação de muro do Rio de Janeiro que “você olha da direita pra esquerda e o Estado te esmaga de cima pra baixo”. A lembrança veio diante de um episódio curioso: em tempos de polarização, quando o nós contra eles parecia insuperável, deputados federais de esquerda e de direita, que se atacam semanalmente no Congresso, uniram forças para aprovar, com urgência, a PEC da Blindagem.
Urgência de quê? Urgência para quem?
 

A PEC da Blindagem não discute o aumento da faixa de isenção do imposto de renda, a revisão da escala 6x1, nem novos investimentos em saúde ou educação. Nada disso. A pressa foi para aprovar regras que dificultam que parlamentares federais respondam por crimes, condicionando a atuação da Justiça à autorização da própria Casa Legislativa.
 

Como disse o Prof. Mario Spangenberg, decano da Faculdad de Derecho y Artes Liberales do Uruguay, “se você tem um direito e os demais não, então você não tem um direito, mas um privilégio”.
 

Parece que alguns dos nossos “representantes” trabalham intensamente, mas não para o interesse dos seus representados – mas para os seus fins particulares. Foucault, no conjunto de textos Um diálogo sobre o poder e outras conversas, já advertia que o poder é exercido às custas do povo e que quem o exerce sempre encontra brechas para violar as regras que ele mesmo cria. A PEC da Blindagem é um exemplo dessa lógica.
 

Como professor, sigo acreditando na educação como instrumento de transformação. E não tenho dúvidas de que, quando estimula o pensamento crítico, ela nos impulsiona a buscar soluções para reduzir privilégios e ampliar direitos, pois, como na frase atribuída a Paulo Freire, “o sistema não teme o pobre que passa fome, teme o pobre que sabe pensar”. 
 

É justamente o pensamento crítico que deve orientar nossas escolhas. Quem se indigna com as desigualdades sociais, com o racismo, com as múltiplas formas de discriminação e com o excesso de privilégios dos privilegiados, nas próximas eleições, precisará refletir sobre quem deve ocupar o papel de representante.
 

Acredito que é nosso dever fazer da sociedade um lugar mais justo para se viver e conviver. E penso que a educação é o caminho. Recorrendo mais uma vez a Paulo Freire, dou eco à máxima de que “A educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas. E as pessoas transformam o mundo”.

______________________________________________

Imagem: de https://www.pngegg.com/es/png-ztgci - (para uso não comercial) 

26 de fevereiro de 2026

A sós com Lígia Muniz


A escritora Lígia Muniz, ocupante da cadeira n.º 13 da Academia de Letras de Pará de Minas, lançará no dia 6 de março de 2026, às 19 horas, o livro de poemas "A sós com palavras" (Ed. Mosaico). A noite de autógrafos será na sede da ALPM (Rua Benedito Valadares, 183, Centro Literário Pedro Nestor).

O livro, com coordenação editorial do acadêmico José Roberto Pereira e prefácio do também acadêmico Paulo Roberto dos Santos, apresenta poemas escolhidos que foram escritos em diferentes épocas da trajetória da escritora.

No vídeo feito pela ALPM, com produção e edição do acadêmico Márcio Simeone, Lígia fala sobre a publicação e também um pouco sobre si mesma e sua vida literária. 

 

25 de fevereiro de 2026

Palhaço

Geraldo Phonteboa
Cadeira n.º 14




Não quero ser nada mais na vida,
pois sou palhaço.
Meu viver é aprender a rir de mim mesmo.
Não quero mudar o mundo,
quero apenas rir do meu mundo.

E se você sentir vontade de rir do meu mundo
pode ficar à vontade...
afinal, sou palhaço...

 

_____________________________

Imagem: Designed By pngtree (https://pt.pngtree.com/freepng/vintage-circus-clown-watercolor-portrait-on-white-background_23223810.html?sol=downref&id=bef)

18 de fevereiro de 2026

O carnaval, na terra dos mágicos

Márcio Simeone
Cadeira n.º 8
 
  

  
Movido pela minha insaciável curiosidade antropológica, cheguei desta vez à terra dos mágicos. Fui com grande expectativa, pois sempre admirei os talentos da prestidigitação e do ilusionismo, ainda que não me fosse dado conhecer as manhas e truques dessa gente. Meu objetivo era mais simplório, o de ver como viviam. Isso não se revelou tarefa fácil, de vez que tudo - ou quase tudo - ali é imprevisível. Ou melhor, as coisas não saem exatamente como se espera. Para quem observa, é mais comum se confundir. Percebi que eles não só se enganam como se deixam enganar à mesma medida e talvez seja esse o segredo e o equilíbrio. Vivem sabendo, desde sempre, que tudo é ilusão. O que os move é o desejo de surpreender, mais e mais.

Todas as pessoas usam cartolas, independentemente de gênero. A cartola, a propósito, é um item tão essencial da indumentária e da vida prática que a sua indústria tem altos subsídios do governo. A passagem para a vida adulta requer maior esmero nos trajes e na postura. Sempre a rigor. É uma sociedade que ainda conserva traços de machismo, reservando papeis auxiliares às mulheres - me disseram que isso está mudando rapidamente; contudo, as estatísticas mostram que a elas segue cabendo o risco maior de serem efetivamente serradas ao meio ou desaparecerem definitivamente. Apreciam muito o cinema, principalmente pelos efeitos especiais. Promovem até um festival específico para laurear os mais extraordinários. Notei certa rivalidade com a terra dos palhaços. Os mágicos se consideram mais sérios, mais disciplinados, mais elegantes e até mais civilizados.

Percebi que o grande desafio nesta terra é a educação das crianças. Inocentes, elas se deixam enganar com facilidade, mas são proibidas de iludir os adultos. No máximo podem fantasiar nas brincadeiras entre si. Assim, costumam ser sinceras. Com o passar dos anos, isso vai se perdendo. A juventude, naquele lugar, vive hoje sua rebeldia recusando-se a usar os trajes convencionais, tomando para si a liberdade de vestirem-se à paisana. Muitas das jovens mulheres já se destacam por alcançarem os níveis mais altos do ilusionismo e, dentre elas, algumas serram homens ao meio com o vigor do gesto reparatório - que transformam em influência midiática e denúncia de séculos de opressão.

Na economia, destacam-se a cunicultura e a colombicultura, exclusivas para o mercado doméstico. Moda e vestuário são importantes, mas, cada vez mais, são produtos de exportação. No comércio exterior, aliás, eles detêm o monopólio de produção de varinhas, dado o impenetrável segredo industrial de sua fabricação. No meio acadêmico, o principal destaque é o das ciências econômicas. Eles a consideram o expoente máximo do que chamam de "conhecimento ilusionista". Ao lado dela, as ciências contábeis prosperam, com foco no que denominam "contabilidade criativa" e, é claro, as ciências da comunicação, como área emergente. Muitos profissionais dessas áreas encontram vasto campo no mercado de trabalho doméstico, mas também no exterior!

A habilidade mais apreciada em termos pessoais, que é indício da evolução mental e espiritual, é a levitação. Como esta é para poucos, costuma formar comunidades mais fechadas. Em termos coletivos e profissionais, é a invisibilidade. A recente introdução de mídias sociais, pervasivas e ubíquas, tem desafiado, porém, essa habilidade, colocando em risco a própria estrutura do tecido social.

O governo é eleito democraticamente, mas se reveza no poder somente uma elite, reconhecida principalmente por suas capacidades de fazer desaparecer qualquer coisa - o que é o cerne do exercício político local e, de outro lado, de entreter a população, fazendo aparecer subitamente os mais diversos e inusitados objetos com discursos entusiasmados. Os políticos também simulam ferrenhas disputas e levantam todo o tempo polêmicas fúteis e/ou falsas, o que também diverte o público e o mantém engajado em diversos assuntos sem importância. Atualmente, no entanto, uma severa crise climática que prejudica as duas principais produções do país, de coelhos e pombos, à qual se juntam os questionamentos sociais cada vez maiores sobre a crueldade contra os animais, têm desafiado essa ordem de coisas e mobilizado segmentos da população a realizar inéditos questionamentos políticos e econômicos.

Esperei pelo carnaval, embora ninguém tenha me convidado. Fiquei a observar toda a movimentação pública, crendo que algo de verdadeiro se revela na natureza das pessoas neste intervalo festivo. Assim é que se permitem neste período livrar-se dos trajes convencionais. Os mais ousados reduzem as vestimentas ao mínimo. O mínimo aqui é o necessário para executar pelo menos algumas mágicas. Sabemos que, na falta de mangas e cartolas, é bom ter acessórios que possam escamotear objetos e despistar os olhares dos outros. Mas há quem prefira se esconder atrás de máscaras e fantasias variadas. É no carnaval que as crianças são, elas próprias, pombos e coelhos.
 
Essa gente tem formas curiosas de brincar. Normalmente são pessoas circunspectas e concentradas, mas durante os festejos zombam de seus próprios truques e até deixam que alguns deles, mais simples, se revelem. Fazem propositalmente performances fracassadas. Nada disso importa muito, porque no meio da diversão e da música, tudo é absorvido numa atmosfera artificial, regada a vinhos, que, ao fim de intensos dias, se resume numa sensação de ilusão coletiva e se dissolve em ressaca, onde tudo é convenientemente esquecido. Foi com uma sensação estranha que de lá voltei, parece que metade de mim ficou lá. Ou terei sonhado?
 
_______________________________________ 
Imagem de vectorgraphit no Freepik

 



 

2 de fevereiro de 2026

Fugaz e radiante

Márcio Simeone
Cadeira n.º 8
 

Meu fevereiro é incompleto, variável e fugaz. Também exuberante: o verão já está maduro, a alegria é radiante e solar e os corpos dançantes e livres. Mistura de cores e ritmos em cordões que arrastam pequenas ou grandes multidões: samba, marchinhas, axé, maracatu, frevo e hoje muito além. É uma transição entre a diversão e o trabalho que, periodicamente, expande seu caráter levemente preguiçoso por mais um dia. Em algum momento, irá decretar o começo do novo ano, em definitivo, muito embora isso possa ser às vezes protelado para além de sua fronteira. Cumpre, assim, a memória ancestral de quando era o último mês do ano. Não é hora de grandes decisões, mas de elaborações. A quaresmeira prepara suas flores e nós, a quaresma. Meu fevereiro da infância tem as expectativas do início das aulas, ensaiando o ano num ritmo lento, no aprendizado ainda sem pressões e com o cheiro e a perfeição dos cadernos novos. Para mim, a organização ideal para o ano, embora pouco durável. É o tempo de liberdade e rebeldia aquarianas e da chegada da sensibilidade e empatia piscianas - de Urano e Saturno a Netuno e Júpiter no comando da ordem celeste.  Em fevereiro se entra com suor para sair de ressaca.

___________________________________

Imagem: criada por IA generativa 

26 de janeiro de 2026

Batalha do Bariri ocupa a sede da Academia de Letras de Pará de Minas em edição especial

A sede da Academia de Letras de Pará de Minas recebeu, na tarde do dia 25 de janeiro de 2026, uma edição da Batalha do Bariri, importante movimento cultural que reafirma a força do hip hop e da rima improvisada como linguagem artística, política e social.
 

Tradicionalmente realizada no Parque do Bariri, a edição aconteceu excepcionalmente na sede da Academia, em razão da possibilidade de chuva, evidenciando o compromisso da instituição com o acolhimento e o fortalecimento das manifestações culturais contemporâneas, especialmente aquelas ligadas à cultura urbana e periférica.
 

As batalhas de rima são encontros nos quais MCs se enfrentam em duelos de improviso, utilizando criatividade, ritmo, poesia e crítica social como ferramentas de expressão. Em Pará de Minas, a Batalha do Bariri representa um recomeço: a retomada de uma cena cultural que já existiu na cidade, reunindo integrantes remanescentes de batalhas anteriores e uma nova geração que ocupa os espaços públicos com arte, voz e identidade.



Liderada por Cris Poesia, a Batalha do Bariri reúne MCs, artistas independentes, espectadores e, sobretudo, a juventude preta e periférica, consolidando-se como um espaço de pertencimento, convivência, escuta e construção coletiva. Mais do que uma competição, o movimento se firma como um território de troca e fortalecimento cultural.
 

Os encontros acontecem quinzenalmente, aos finais de semana, no bairro Bariri, e têm atraído um público cada vez maior, inclusive pessoas vindas de cidades da região, como Nova Serrana e Itaúna, ampliando a circulação cultural e o intercâmbio entre artistas do rap regional.
 

A Batalha do Bariri reafirma que a cultura segue viva, pulsante e necessária, criando redes, ocupando territórios e dando continuidade a uma história que se recusa a ser silenciada.
Saibam mais sobre projeto em: @batalha_do_bariri

19 de janeiro de 2026

Patuá: um show na ALPM


O músico e compositor Ricardo Rodrigues fará no dia 1.º de fevereiro, às 10 da manhã, um show na sede da Academia de Letras de Pará de Minas (Centro Literário Pedro Nestor), em apresentação solo (violão e voz). "Patuá - uma obra cancioneira" tem repertório inteiramente autoral e reúne seis canções inéditas, compostas entre 2017 e 2025, além de quatro canções dos álbuns Tons (2008), Terra, Baú e Verso (2016) e das Canções (2025). As canções se organizam como um pequeno cesto — um patuá — onde memória, delicadeza e tempo se entrelaçam. O espetáculo será realizado para uma plateia de apenas 30 pessoas, no espaço da Academia, reforçando o caráter singular da apresentação.

 

Ricardo Rodrigues é músico, compositor e instrutor de yoga. Graduado em violão pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e pela Bituca – Universidade Popular de Música, desenvolve um trabalho autoral marcado pela delicadeza poética e pela escuta como experiência estética.

Data: 1º de fevereiro de 2026 (domingo)
Horário: 10h
Local: Academia de Letras de Pará de Minas – ALPM
Rua Benedito Valadares, nº 183, 2º andar – Centro
Centro Literário Pedro Nestor
Classificação: 12 anos
Ingresso: R$ 30,00 

Apoio cultural da ALPM.

Informações e ingressos - clique aqui