8 de maio de 2026

O doce de figo e Canudos

Angela Xavier
Cadeira n.º 1

Em nossa casa plantamos um pé de figo e cuidamos com carinho até que um dia nos surpreendeu com os primeiros frutos. Eram 11 figos e já estavam no ponto para fazer um doce em calda, especialidade que aprendi com minha mãe.  Então colhi os figos, raspei e dei a primeira fervura. Tem que ser no tacho de cobre para manter o verde. E o tacho tem que ser areado com sal e limão para tirar o zinabre. Com a primeira fervura ele fica feio, amarronzado, mas eu não me preocupei, pois sei que é assim mesmo. Meu marido acompanhava tudo porque adora este doce e não via a hora de saboreá-lo. No dia seguinte o mesmo ritual: arear o tacho e dar a segunda fervura. Os figos começaram a esverdear. Mais um dia de descanso e foi feita a terceira fervura quando os figos ficaram bem verdinhos e cozidos. Era só esperar esfriar e colocar na calda. Decidi terminar o doce neste mesmo dia.

Nossa cozinha era grande e aberta, separada da casa e tinha um fogão a lenha. Coloquei os figos na calda e fui ver televisão enquanto tomava uma sopa. Lembrei que era quarta feira e estava passando Canudos no cinema e era o último dia! Como professora de História, eu estava estudando o período do coronelismo com os alunos e já havia lido Euclides da Cunha. Eu não podia deixar de ver o filme! Levantei-me de um salto, troquei de roupa e escrevi um bilhete: - Fui ver Canudos.

Como estaria representada na tela aquela epopeia do povo miserável seguidor de Antônio Conselheiro, o profeta que pregava pelas ruas: “O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”? Empolgada com a perspectiva de ver o filme sai quase correndo, pois já estava passando da hora.

Cinema lotado, consegui entrar e logo o filme começou. Bons atores, trilha sonora de qualidade, emocionante! O filme mostrava as injustiças contra o povo simples do campo e as ideias do profeta de construir uma cidade que fosse de todos, onde todos mandavam e ninguém poderia obrigá-los a nada. Marieta Severo representava uma família que deixou seu casebre para trás e seguiu Antônio Conselheiro.

Houve uma cena, quando a atriz picava uma moranga na panela, que me deu um lampejo de lembrança: - o meu doce de figo havia ficado no fogo! Levantei-me de um salto e fui até a portaria do cinema. Pedi ao responsável para dar um telefonema urgente. Em minha casa ninguém atendeu. Liguei para a vizinha: - Sandra, aqui é a Angela! Ela não me deixou falar mais nada. - Você é louca! Deixou uma panela no fogo. Saia uma fumaça branca até o céu.  A gente chamou o Corpo de Bombeiros, mas eles demoraram. Então o meu marido e um amigo pularam o muro e desligaram o fogo. A panela estava preta. A diretora do colégio, aqui ao lado, também saiu pulando muros até chegar à sua cozinha, mas nós já havíamos resolvido tudo. – Ah! Muito obrigada! Disse aliviada e voltei para continuar a ver o filme.

Ao chegar em casa esperava um discurso sobre a minha irresponsabilidade, o perigo de incêndio, o doce perdido! Mas estavam todos vendo TV na maior tranquilidade. Cheguei devagar sondando a situação.

 – Oi, tudo bem? – Tudo bem! Responderam. Fui até a cozinha para ver o estrago. Nada! Saí ao quintal e lá estava o tacho estava encostado na parede tendo uma grossa crosta preta por dentro. Voltei.

- Pois é, o doce queimou! Não deu para aproveitar nada.

- Isto acontece! Foi a resposta que recebi, para minha surpresa.

Alívio. Dias depois consegui figos e fiz um tacho cheio de doce de figo. Finalmente!

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Imagem: Criada por IA generativa 


7 de maio de 2026

Autores de livros de Pará de Minas poderão participar do estande da ALPM na Paraliteratura

A Academia de Letras de Pará de Minas participará, de 14 a 17 de maio, da Paraliteratura, Feira de Incentivo à Leitura, evento já tradicional do calendário da cidade que é promovido pela Secretaria Municipal de Cultura e Comunicação Institucional. A ALPM contará com um estande para exposição e venda de livros e convida outros autores da cidade a participar. Os interessados deverão entregar os livros até as 16h do dia 11 de maio (segunda-feira), no Museu Histórico de Pará de Minas. As orientações são as seguintes:

 
 
Os livros somente poderão ser recebidos dentro do prazo estabelecido e acompanhados das informações solicitadas. Para auxiliar no custeio da pessoa que ficará responsável pelo estande na Feira, será cobrada uma contribuição de 10% sobre os livros vendidos.

Os horários de funcionamento, na Praça Torquato de Almeida, são os seguintes:

* quinta e sexta: 8h às 20h
* sábado: 8h às 14h
* domingo: 9h às 13h


 

 

1 de maio de 2026

O repouso dos dias

Márcio Simeone
Cadeira n.º 8


Das primaveras do outro hemisfério emerge maio, o mês da fertilidade, da abundância e do crescimento, tipicamente primaveril, que na minha aldeia, no sul, se inverte. Vive-se uma contração quase silenciosa da natureza, um tempo de respiro onde o calor se esvai, às vezes apressado por frentes polares e no qual os dias repousam. A natureza fica pensativa, o entardecer enrubescido chega mais cedo do que eu mesmo gostaria, decretando a noite antes que tenha terminado as tarefas do dia e esgotado todas as expectativas e promessas. Neste momento somos nós um solo que descansa e se prepara para novo plantio; ao menos assim trazemos à lembrança a deusa que lhe dá o nome, da fertilidade e da projeção da energia vital e nos preparamos para as agitações festivas do início do inverno. Meu maio não é de Maia, mas de Maria. Mês de mães e coroações, tempo de consagrar-se. É o mês das lutas do trabalho.

Do tempo da minha infância ele é o das caminhadas para a aula bem cedo, na manhã fria, com minha respiração a soprar fumaça, do corpo com mais preguiça de acordar e a mente a esperar novidades, das abluções em água pouco amistosa. Também quando começavam as inspeções de mãe e pai se vamos cobertos e devidamente agasalhados. Era a hora em que mantas e cobertores se redescobriam funcionais; no qual as roupas mais grossas despertavam da sua sonolência e lentamente fugiam do armário em busca de sol e na expectativa de alguma elegância. De longe, trago à lembrança minhas mãos a segurar uma caneca aconchegante de chocolate quente, aquela que seria, doravante, grande e valorosa companheira para enfrentar este e os próximos meses, mente e corpo agraciados com ternura e calor.

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Imagem: Criada por IA generativa 

30 de abril de 2026

A velha Matriz

Angela Xavier
Cadeira n.º 1

Matriz de N. S. da Piedade em 1935 (acervo MUSPAM)
 

Todas as cidades têm seu começo. E é sempre uma rua comprida, chamada Direita, que vai dar na Igreja Matriz. Nesta rua está o comércio, ali estão os bancos, os bares e o footing nas noites de sábado. Ali desfilam os grupos de congado e os blocos de carnaval. É por onde passam as procissões, os cortejos fúnebres e as paradas do Dia da Pátria. Dela nascem outras ruas no crescimento das cidades.

É grande privilégio e símbolo de poder ter uma casa ou um ponto comercial na rua Direita. Sendo assim ela se encomprida sempre.

Em Pará de Minas não foi diferente. 

A sua primeira Matriz foi dedicada a Nossa Senhora da Piedade, sua padroeira. Era, em seus primórdios, uma igreja barroca, da qual conheço a fachada por um quadro pintado por meu avô, Alfredo Leite Praça. O quadro é comemorativo do seu centenário e traz as datas: 1846 – 1946. Na reforma da igreja, acontecida em 1918, um pintor italiano Angelo Pagnacoo, deixou sua arte.

Defronte à Matriz havia um jardim florido e um enorme coqueiro. Assim como todos os meus conterrâneos, nela fui batizada, assistia às missas dominicais e participava junto com todas as meninas de então, das coroações a Nossa Senhora da Piedade que aconteciam nos finais de semana do mês de maio.

A Matriz era o centro da vida da cidade. No início do século XX o sino era badalado quando havia uma missa, um evento religioso ou mesmo uma emergência. Tem um fato pitoresco acontecido com meu avô Alfredo. O sino tocou já altas horas da noite. Conforme o costume, os homens saíram para ver o que estava acontecendo. Entraram na igreja munidos de velas e pedaços de paus, os corações batendo forte de medo. Percorreram todos os cômodos da igreja sem ver nada de anormal. Passando pela sacristia viram os panos que serviam de cenários nas representações de cenas bíblicas. Meu avô bateu neles com o cabo do seu guarda-chuva para mostrar que ali não havia ninguém. Enfim, saíram sem entender por que o sino havia badalado. Estavam confabulando na rua, quando viram uma das janelas da igreja se abrir. Se aproximaram receosos e viram ali o Roberto Doido, um tipo popular da cidade, que lhes disse: -“Sou eu,  Jesus Cristo e estou na minha casa".

Nas grandes festas religiosas como a Semana Santa, um palanque era montado defronte à Matriz para a encenação de episódios bíblicos, costume que seguiu até os anos 60.  Era necessário um espaço maior para o grande público que afluía de todos os distritos e bairros da cidade.

Me lembro de um tempo em que, menina ainda, via a chegada de caminhões abarrotados trazendo os moradores da zona rural para participar dos festejos religiosos. Eram homens, mulheres e crianças, com suas roupas domingueiras enchendo a grande praça para assistir as encenações e, em seguida, acompanhar a procissão que percorria as ruas principais.

A Matriz fazia parte da vida de todos, do nascimento à morte. Nos momentos dos festejos e dos sofrimentos. Era a alma e a história da cidade.

No mês de maio aconteciam as coroações a Nossa Senhora da Piedade. Os ensaios começavam um mês antes e aconteciam em casas de família. Me lembro de ensaiar na casa de meu bisavô, Juca Ferreira com minha tia-avó Gení, de voz linda e afinadíssima. Também ensaiamos na casa de Anita Sales que nos acompanhava ao piano na sala imensa de piso de madeira lavada que existia na praça defronte a Matriz.

Um costume único acontecia na hora do Te Deum, sempre ao anoitecer. O sino da igreja tocava e todos os que estavam caminhando pela rua Direita paravam. Imóveis e em silêncio, esperavam o segundo badalo, quando continuavam a caminhar. Este costume pegava de surpresa qualquer visitantes desavisado.

 

Demolição da velha Matriz (acervo MUSPAM)

Nossa Matriz, um dia, foi considerada ultrapassada e com perigo de desabar sobre os fiéis. Não havia solução! Era preciso derrubá-la! Uma nova seria construída!
Da janela do sobrado onde viviam meus pais, na rua São José, eu via o guindaste com uma bola de ferro enorme batendo nas paredes da velha Matriz que se recusava a cair. Assim, aos poucos, aquela colossal e emblemática construção, caiu por terra.

Hoje a Matriz não existe mais no plano físico, mas ficou na memória de quantos a conheceram, com todos os seus detalhes, pela importância que teve nos momentos marcantes de suas vidas. Seus vestígios estão preservados no Museu Histórico de Pará de Minas e em algumas capelas da cidade.

Na minha memória e todos os paraminenses que viram nossa Matriz de pé, ela ainda está lá, intacta, carregando parte de nossa história e da de nossos ancestrais.

29 de abril de 2026

Identidade, coletividade e escuta: roda de conversa mobiliza reflexões na Academia de Letras

Alexandra Santos puxando a conversa

Falar sobre identidade preta é reconhecer que há uma história de apagamentos — mas, sobretudo, afirmar que há um movimento em curso: coletivo, vivo e em construção. Foi nesse horizonte que a Academia de Letras de Pará de Minas acolheu a roda de conversa “Identidade preta e o exercício da coletividade”, realizada pelo Grupo Reflexivamente, reunindo diferentes vozes em um espaço de escuta, partilha e reflexão.

Conduzido pela assistente social Alexandra Maria da Silva Santos, o encontro abordou os atravessamentos de raça, gênero e classe na contemporaneidade, articulando experiências individuais a processos históricos ainda presentes na sociedade brasileira. Durante a roda, Alexandra destacou a importância do letramento racial e do conhecimento como ferramentas fundamentais para a compreensão do espaço ocupado pela população negra, reforçando o caráter processual e coletivo dessa construção: “Hoje nós vivemos um momento de construção dessa identidade através do corpo, da música, do conhecimento e do letramento racial. Essa construção não se faz sozinha; nós nos construímos através da coletividade. Eu construo a minha identidade enquanto uma mulher preta convivendo com outras pessoas pretas, através da troca e de reconhecer tudo que a população negra fez e ainda faz no nosso país (...) Estamos nos construindo lentamente, em passos pequenos, mas tem acontecido".

Apresentação do grupo Cantadeiras de Engenho 

A atividade foi ampliada pela apresentação do grupo Cantadeiras de Engenho, que trouxe à cena a força da cultura popular e da memória coletiva por meio do canto, e pela participação da artista Cris Poesia, que, entre música e palavra, reforçou a dimensão sensível e política da expressão artística.

Da esquerda para a direita: Naliene Gonçalves, coordenadora do Grupo Reflexivamente, Laís Fortunato, a palestrante Alexandra Maria da Silva Santos, Cris Poesia e as acadêmicas Conceição Cruz e Carmélia Cândida

Para Naliene Gonçalves, coordenadora do Grupo Reflexivamente, iniciativas como essa são fundamentais para o fortalecimento do diálogo e da consciência coletiva no município.  Mais do que um encontro pontual, a iniciativa reafirma a importância de espaços institucionais abertos ao diálogo e à diversidade de vozes. 
Ao apoiar a realização da atividade, a Academia de Letras de Pará de Minas fortalece seu compromisso com a democratização do acesso à cultura e ao conhecimento, consolidando-se como um espaço que acolhe grupos, coletivos e pautas fundamentais para a construção social contemporânea.

28 de abril de 2026

ALPM acolhe em sua sede palestra sobre identidade preta e coletividade


No dia 28 de abril de 2026, às 19h, a Academia de Letras de Pará de Minas abre suas portas para uma noite de reflexão e diálogo. A instituição recebe a palestra “Identidade Preta e o exercício da coletividade”, encontro voltado à análise crítica dos atravessamentos históricos que ainda moldam a sociedade contemporânea, abordando temas como raça, gênero e classe. Falará no evento a assistente social Alexandra Maria da Silva Santos.

A atividade é uma realização do Grupo Reflexivamente, iniciativa sediada em Pará de Minas, coordenada pela psicóloga Naliene Gonçalves Clemente. O grupo se dedica ao apoio psicológico e ao empoderamento feminino, unindo o acolhimento emocional ao desenvolvimento de uma consciência crítica sobre o papel da mulher na atualidade.

De acordo com a organização, o evento propõe um espaço de escuta e trocas sobre memória, identidade e construção coletiva, reforçando a importância do diálogo crítico e da valorização das múltiplas experiências sociais.

Ao oferecer apoio à iniciativa, a Academia de Letras de Pará de Minas reafirma seu compromisso com a democratização do acesso à cultura e ao conhecimento, consolidando-se como um espaço aberto a debates essenciais para a formação cidadã.

A palestra é aberta ao público, com entrada franca. A sede da ALPM está situada na Rua Benedito Valadares, 183 - 2.º andar (Centro Literário Pedro Nestor).

22 de abril de 2026

A República de Meireles - o autor Rodrigo Campos compartilha aqui a sua obra


Rodrigo Silva de Oliveira Campos, natural de Pará de Minas, apresentou o seu primeiro livro "A República de Meireles" na mesa "Caminhos da Palavra", realizada dentro da programação da 1.ª Festa Literária da Academia de Letras de Pará de Minas. A obra eterniza relatos ouvidos da população de Meireles, povoado na zona rural do município, resgatando mais de cem anos de sua história e mostrando seus desafios contemporâneos.

Além da versão impressa do livro, o autor agora o compartilha gratuitamente em meio digital neste site da ALPM, na Biblioteca Digital. Ao fazer isso, Rodrigo Campos encaminhou algumas palavras à ALPM, que são reproduzidas abaixo:

"Embora tenha sido minha a tarefa de reunir lembranças, escutar histórias e transformá-las em palavra escrita, a verdade mais funda é que esse livro pertence, em sua essência, à comunidade que lhe deu origem, às famílias, às vozes, às memórias e ao chão que o inspiraram.

Há, por isso, um simbolismo muito bonito em vê-lo chegar à Academia de Letras de Pará de Minas. De algum modo, é como se essa memória retornasse à casa da palavra, encontrando abrigo num lugar que sabe reconhecer o valor da cultura, da escuta e daquilo que o tempo não deveria apagar. Sendo Meireles filha afetiva de Pará de Minas, há nessa entrega algo de regresso, de devolução e de pertença.

Meu desejo é simples e sincero: que esta versão digital possa circular livremente, alcançar leitores, despertar lembranças, aquecer os que têm laços com essa história e, talvez, apresentar Meireles a quem ainda não a conhece. Que o livro siga seu caminho como seguem as boas prosas: de mão em mão, de olhar em olhar, de afeto em afeto".

Rodrigo Campos - abril de 2026



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