Angela Xavier
Cadeira n.º 1
O que é o tempo? Será o passado mais velho que o presente e este maior que o futuro? Em que instante vivemos nós? O que é o agora?
Vejo minha avó Aureslina, alta, bem magrinha, sua saia comprida cobre as pernas até os pés. A roupa escura de viúva eterna, os cabelos longos, enrolados e presos na nuca por grandes grampos, o rosto limpo! Nada de batom, lápis, creme, base, sombras... sempre ao natural como o tempo a fez. Os pés enfiados nos chinelos macios protegendo os joanetes, seu andar vagaroso percorre a casa enorme, agora vazia. Onde estará ela hoje? Onde fica o passado?
Vou lá! Vejo-me menina no quintal imenso de sua casa em meio às bananeiras, mangueiras, abacateiros, laranjeiras, limoeiros – e galinhas! Isto é real? Ou este lugar só existe em minha memória? Não importa. Agora estou lá. Percorro o pomar enorme e farto. Paro diante da parreira de uvas. Está carregada! Nada mudou naquele quintal. Até os cachos de uvas estão envoltos em sacos de panos brancos, protegidos de insetos e pássaros, quiçá de gambás. Resguardados para os netos. Enfio os dedos na abertura de um dos sacos, como fazia na infância, e destaco uma uva. É moscatel. Está rosada de tão madura. Apanho mais duas e levo as três à boca de uma vez só para “saborear com todas as papilas gustativas” como ensinava meu tio Alberto. Minha avó está na janela e espia com satisfação. Nada diz.
Continuo minha caminhada pelo quintal onde tantas vezes brinquei e tantos frutos comi. Diante do pé de jabuticaba, carregadinho, não resisto. Subo, escolho um galho para sentar de onde possa alcançar as frutas maiores e mais doces. As bitelas, como dizíamos. Lá no alto, diante de um galho carregadinho agi como quando criança: abracei o tronco e chupei as frutas sem arrancá-las do galho. Era como se fosse um beijo de amor. As cascas vazias continuavam nos galhos enganando quem as visse de baixo; parecia estar o galho cheio de frutas maduras.
O balanço feito de corda de bacalhau ainda estava lá. Balancei alto e vi, do outro lado do muro, minha outra avó podando suas roseiras, enquanto meu avô pintava o retrato de um bispo.
Continuo descendo até o velho pé de manga pequi. Colho no chão aquele fruto amarelo com pintinhas pretas e como com prazer. Seu delicioso sabor é o mesmo de minha infância. As bananeiras de todas as espécies arrematam o pomar. O muro divide a propriedade com a linha férrea. Um trem passa apitando e as pessoas acenam para mim das janelas. Talvez estejam indo para Bom Despacho. Aceno de volta saudosa destas viagens.
Deixo para trás aquele paraíso e entro na casa pela porta da cozinha. O fogão a lenha está aceso e a Rosa cozinha. O cheiro de sua comida despertou minha fome. Ela cozinha abóbora moranga e prepara o molho de caldo de feijão para temperá-la. Reparei bem como ela faz para aprender. Na infância, só degustei. Agora eu teria a chance de aprender sua receita famosa que tornava todos os legumes deliciosos.
Ela coloca alho picadinho numa cumbuca, uma pitada de sal, salsa, cebolinha e gotas de limão. Depois joga, por cima, um pouco de gordura de porco fervendo. A mistura chia desprendendo um cheiro delicioso. Com uma concha, ela coloca o caldo de feijão sobre a mistura. Em seguida, despeja o molho sobre a abóbora cozida. Eu já estou com água na boca.
Nesta hora a Rosa percebe a minha presença, sorri meiga, me abraça e diz: “ Buniteza”. A Rosa vive com minha avó desde que ela se casou. Negra, cheinha sem ser gorda, usa sempre um pano na cabeça por cima dos cabelos trançados em quadradinhos. Seu vestido de saia reta vai até os pés e é de tecido de algodão, xadrez, discreto. Usa chinelos de couro. Cozinha em panelas de ferro, a colher de cabo comprido com que mexe a comida é também de ferro e está gasta pelo uso. Atrás da porta tem uma cabaça dependurada por um barbante em um prego. Serve para lavar o arroz. Debaixo do armário há uma bacia cheia de bolas de sabão preto feito com cinza e enroladas em folhas de bananeira. É com este sabão que se lavam as vasilhas da cozinha e as roupas da casa. O piso da cozinha, do banheiro e da copa é de ladrilho hidráulico. É bonito com desenhos em verde e vermelho sobre fundo branco.
Enquanto espero a comida ficar pronta, dou um pulo no quarto da vovó Lilina. Lá está sua cama patente de solteira, a cômoda com o despertador em cima além de pequenas imagens de Nossa Senhora e de santos. Os números e ponteiros do relógio, assim como os santinhos, brilham com luz esverdeada no escuro. Sempre gostei de ver isso. Só não poderia dormir perto daquele despertador com um tique-taque tão barulhento.
Vovó me recebe com seu sorriso tímido. Abre uma gaveta da cômoda e tira um santinho. É um comprovante de que me incluiu num movimento de proteção do Sagrado Coração de Jesus. Ela havia garantido uma vela acesa em minha intenção, permanentemente. Fiquei feliz ao pensar que aquela vela acesa me protegeria de todo o mal. E minha avó também. Olhava para mim com a satisfação de uma benfeitora estampada no rosto. Agradeci. Tomei-lhe a bênção. Ela nada respondeu como sempre fazia. Não se sentia digna de abençoar em nome de Deus. O quarto rescendia a naftalina. Ela tinha seus preciosos guardados protegidos dos insetos. Eram seus véus. Dezenas deles. Desde o primeiro que ela ganhou em sua 1ª Comunhão o último. Os primeiros eram brancos, véus de mulher virgem. Depois de casadas, as mulheres usavam véus pretos. E eram de seda fina, de rendas, belos trabalhos.
Saímos do quarto. Ela com seus passinhos curtos arrastando os chinelos, eu com minhas botinas pesadas. Sentamos na mesa grande da copa. Mesa que nos tempos de seu pai, o coronel Zeca da Varginha, nunca comiam menos de quinze pessoas. A Rosa comia na cozinha sozinha, costume mantido dos velhos tempos da escravatura. Vovó comia pouco, como um passarinho. Era frágil como uma criança e era a Rosa quem cuidava dela. A Rosa sabia tudo da vida. Era a dona da casa. Meiga, amorosa, paciente. A família de minha avó era a sua família.
Depois de comer aquela comida simples e saborosa, a Rosa chegou com a tigela de louça branca com seu famoso doce de leite em ponto de colher com tiras de casca de limão. Hum! Poder saborear novamente este doce! Ninguém jamais conseguiu fazer igual.
A sala grande da casa é a sala de visitas. É a entrada da casa e fica logo depois de uma pequena varanda separada do passeio por um portão de ferro desenhado com formas elegantes. Quatro janelas enormes dão frente para a rua São José. A rua é calçada com paralelepípedos, pedras cortadas e ajustadas umas às outras. O movimento não é tão intenso e barulhento como no presente. Poucos carros circulam, Chevrolet, dauphine, combis, alguns poucos caminhões. Muitas bicicletas, cavalos e até carros de bois. Debruço na janela junto com a Rosa que passa o braço pela minha cintura aconchegando. Uma boiada vem passando. Um boi tem cangalha porque é bravo ou foge. Três vaqueiros controlam o gado. Ôôô! É o aboio que se ouve.
A sala é assoalhada com belas tábuas de madeira em duas cores entre o claro e o preto. Uma mobília de palhinha tem um canapé, duas cadeiras de braços e quatro simples. Na parede duas tábuas encimadas por pequenos pedestais pretos pintados em dourado com chinesices. Forrinhos de frivolité e jarros com flores estão colocados nas tábuas de baixo e santinhos nas de cima.
O quarto grande que dá para a sala já foi quarto do Luiz da Maria Paiva do Juca do Zeca, sobrinho de minha avó. Outro quarto, pequeno, dá para a sala. Era lá que meu pai usava como comitê político. Ali armazenava o material de propaganda política de seu primo Ovídio Xavier de Abreu, candidato a deputado federal. Mais tarde aquele quarto se transformou na farmacinha dos pobres onde meu pai aviava as receitas de quem não tinha dinheiro para comprar os remédios. Seu irmão Edward, médico, lhe fornecia amostras grátis e também o orientava com as receitas.
O sino da Matriz de Nossa Senhora da Piedade toca para o Te Deum. São 18 horas. As pessoas não se mexem nem se falam enquanto o sino não badala pela segunda vez, encerando a cerimônia. Costume antigo preservado.
Saio pela rua São José. Vejo com saudade uma cidade que já não existe: ao lado da casa da vovó, a alfaiataria do Chico onde o João da Bé parava para um bom papo, sempre de cócoras enrolando seu cigarro de palha. Depois a casa da tia Mariquinha, a casa do Zé Juca que veio de Maravilhas com sua grande família. A casa de esquina é da família do Arnaldo Moreira, dentista. Estou na esquina da rua Escandalosa assim conhecida por ser uma rua aberta da noite para o dia em um quintal particular. Coisas de cidade do interior. Do outro lado do passeio fica a casa do Sr Jesus Alexandre cuja filha Carmita se casou com meu tio Alberto. Após vem a residência da família de Jacinto Mendonça com seu enorme quintal. Em frente estão as casas do Nem Vilaça, do Dr Ives, a casa dos Tibite e na esquina a casa do tio Tavinho com seu pé de caju que dava água na boca de quem passava pela rua. Já estou no jardim onde ficam os prédios do Fórum, da prefeitura e da Câmara além do Grupo Novo. Lembro do meu pai, Zezinho Xavier, sempre ás voltas com a política.
Termino meu passeio. As recordações são muitas e já não cabem no meu peito. A memória traz consigo emoções, cheiros e sabores. Ao voltar ao presente tudo mudou. Um sentimento de solidão me atravessa provocado pela vivência momentânea de um tempo que já não há. Onde fica o passado?
Percebo finalmente que o presente contém o passado e que também o futuro, está contido no presente.
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Imagem: Criada por IA generativa
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