17 de setembro de 2026

Igrejinha do Rosário

Conceição Cruz
Cadeira n.º 4

  

Ainda estou mergulhada na egrégora de espiritualidade, de proteção e de amor vivida no Levantamento das Bandeiras: Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Ifigênia, na noite de sábado, 12.09.2026, na Igrejinha do Rosário, bem como na continuidade, no Domingo, nas festividades do V Encontro de Congadeiros, no município de São José da Varginha...

De fato, foi possível sentir os versos da canção dos Congadeiros: "A Senhora do Rosário foi quem me trouxe aqui..."

Nem a fotografia, nem a filmagem, nem as palavras demonstram o vivido, o sentido e o experienciado ali...

Um contraste entre a grandiosidade, a magnitude do momento com tanta singeleza e humildade...

Assim como o Evangelista Lucas, há tempos, apregoou: Ele olhou para a humildade de sua serva...

Do Alto - envolta - no seu Rosário, na Igrejinha, Ela, também, olhava para a humildade daquele povo vindo de diferentes regiões de Minas, um "quase Mago do Congado” ...  Todos reverenciando aquele momento, inspirando-nos na perseverança, na fé e na tradição...

Percebia-se o encanto, o respeito, a religiosidade, o zelo, o cuidado, o desejo de continuidade das festas, na ornamentação de cada Santo - cuidadosamente - preparada...

Ouvindo o som forte dos tambores, no átrio da ermida, já na chegada, o encontro com o Sagrado: a oportunidade solene de ver transportada a âmbula cheia de hóstias da Igrejinha para a Mina de Padre Libério...

O cortejo dos três santos feito por pessoas de diferentes idades - elegantemente - vestidas para a ocasião de festa, de gala do Congado, com cuidado e zelo, demostrando quem são os verdadeiros guardiães da religiosidade, da história, das memórias e de toda a nossa ancestralidade...

Naqueles instantes, os registros imagéticos feitos sob a ótica de Márcio Simeone, acadêmico da ALPM - Academia de Letras de Pará de Minas, imortalizaram-se... Captura de diversas cenas não suscetíveis a outros olhares...

As famílias festeiras, recriando a tradição de José Alexandre da Cruz e de Maria Geralda da Cruz, de mais de 50 anos: recepção das guardas visitantes, para café, almoço e repouso em seus lares... 

É inesquecível a saudação da Guarda ao entrar na casa e entoar os cantos de chegada, ao redor da mesa, antes e após a refeição e também aquele de despedida...

O olhar de nossa anfitriã - Mariinha do Quiel - era tão vibrante e caloroso quanto o forno de barro - onde eram preparadas as gostosuras, desde as três horas da madrugada, para servir comida fresca, da melhor qualidade, temperada com bastante bom humor, amizade e carinho...

Na hora do almoço, toda a Guarda de Congo Marinheiro de Pará de Minas - MG atenta ao apito do capitão, iniciava ou findava a sua cantoria ao som dos tenazes tambores... 

No meio dela, Isis, uma das mais jovens, tocava o seu instrumento com bastante atenção e alegria...

De certa forma, conservo um coração guardião...

Guardo, no meu peito, saudades de um tempo - no qual não vivi - mas que está vivo dentro de mim, por meio das histórias que, desde a minha infância, ouço contar pelos pais e irmãos mais velhos e amigos que ainda vivem em São José da Varginha/MG.

A minha família: José Alexandre da Cruz, Maria Geralda da Cruz e meus irmãos, todos católicos, cristãos fervorosos e praticantes, moravam ao lado da Igrejinha do Rosário, a mesma que permanece até hoje ali, cheia de histórias, o mesmo Rosário feito -verdadeiramente – de rosas...

Casa santa e mesa farta! Era sagrado o acolhimento dos congadeiros para as refeições em nosso doce e terno lar!

O arroz, o feijão, a salada crua, as verduras cozidas, as frutas, a macarronada com frango, o pernil traseiro assado, com gordurinha, temperado, marinado na gamela: todo furadinho para entrar bastante alho e limão, um pouco de sal e pimentinha... a sobremesa, aquele cafezinho com a rapadura picada para coroar tudo...

“A comida não cheirava... Perfumava a Igreja Nova” ...  Bairro onde localizava e localiza a Igrejinha do Rosário...

Assim tenho registrado ao ouvir relatos de memórias afetivas e gustativas contados por aqueles que conviveram com eles...

Meu pai e minha mãe - já habitantes da Pátria Celeste - preparavam tudo, tudo com o máximo de Respeito, de entusiasmo e de carinho... 

E de forma muito inspiradora...

Talvez, como forma de preservar um pouco das inúmeras histórias de amor incondicional, de doação - de suas atuações como cidadãos de bem e de homenageá-los - é que, naquela cidade, no Bairro São Francisco, está presente e imortalizado o nome dele em uma daquelas vias:

Rua José Alexandre da Cruz.

Ele permanece vivo na memória e no coração de um povo: quantos ensinamentos, tantas alegrias...

Quanta saudade brotou na minha alma, ou mesmo, na minha imaginação, ao reavivar essas memórias do Congado ali e ao visitar aquela pequenina rua... ao ser fotografada ao lado de uma singela placa, a qual contém o nome de uma personalidade que tem grande importância para mim e para todos nós, especialmente, para os antigos moradores da região, que sempre tem um " causo" dele para nos contar enquanto legado.

Foi emocionante ver a repetição da história, quando o Padre citou as sete famílias que receberiam as guardas visitantes em seus lares...

Além do receptivo na Mina...

Foi acolhedor o sorriso da Alcione, viúva do Congadeiro Bolão, da Mariinha do Quiel, a presença, na cozinha, do Aniceto e Celinha e de tantos outros colaboradores da fé...

Neste V Encontro de Congadeiros de São José da Varginha, no meio de várias pessoas presentes,  Padre Geraldo Gabriel - grande entusiasta da Festividade e das celebrações - colocou, no altar, o nome de pessoas significativas que deixaram registradas as suas marcas no Congado: Bolão, Congadeiro de São José da Varginha, do querido Mestre do Congado Senhor Zé Penha e outros... Ressaltando a importância e lacuna do Mestre Zé Penha, além de tantos outros grandes nomes... Congadeiros que mantiveram e transmitiram a tradição e que - certamente -  devem estar fazendo a Festa do Rosário em territórios celestiais...

No ar, uma pergunta fluía...
Muitos capitães já faleceram e quem será capaz de levar adiante esta Bandeira, de geração em geração?

A Assembleia ficou em silêncio e introspectiva...

Naqueles momentos de convivência, senti um amor tão grande - mas tão grande - por todos dali, pelos seus antecessores e também por tantas pessoas de outras localidades, mesmo sem, diretamente, conhecê-las e as quais admiro por meio da expressão delas de fé, simplicidade, religiosidade, tradição, acolhimento, generosidade, espírito comunitário...

Uma forte conexão com o passado, com o Divino, com a Senhora do Rosário, porém ao mesmo tempo - num paradoxo - uma certa ansiedade em relação ao futuro dessas festividades e celebrações...

Mas...

Ouvia-se uma voz...

Era a voz infantil do capitão mirim, despertando-nos: uma centelha de esperança, uma vez que ele já traz, nos ombros, a potência de todo um legado e, no coração, a vontade de fazer renascer, no coração dos outros, todo o somatório coletivo de energias das nossas crenças, de nosso conhecimento e o desejo de nossos antepassados em relação à manutenção e salvaguarda da tradição...

As festividades e as palavras do sacerdote - protagonista dos festejos da Igrejinha do Rosário, do Congado e Reinados: Padre Geraldo Gabriel de Bessa, movidas pela tradição e pelo Sagrado, aguçou, em muitos, a responsabilidade e a vontade de levar adiante esse laborioso ideal... 

De forma especial - a exemplo dos antigos Sinos da Igrejinha, a sinergia espiritual a congregar mais pessoas, numa perfeita corrente do bem, para abraçarmos a causa...

Aqui hoje, finalmente, num contraponto, ao mesmo tempo, sinto que tudo isso tem uma expressão de resistência e resiliência - em sua própria força motriz - ao longo dos anos, o que nos permite acreditar na sucessão, a exemplo da nossa ancestralidade, uma vez que existe um viés Divino permeando tudo...

Ainda que o tenha - por outro lado - não podemos perder o trem dessa história... 

Devemos ser sujeitos dela, com a parte que nos couber nela, para mantê-la viva, por meio da fé, da força, da memória, da tradição, da cultura e da religiosidade...

Sigamos unidos!

Cidadãos, poder público e guardas de Congado com gestão compartilhada do futuro desses relevantes eventos e encontros culturais, festas e celebrações religiosas... 

Dando-nos a certeza de que - realmente - a Senhora do Rosário foi quem nos trouxe aqui e até aqui. Dessa forma, Ela norteará e nos auxiliará nos próximos passos para manutenção dos importantes patrimônios - materiais e imateriais - religiosos regionais: Igrejinha do Rosário e Festa do Reinado, do Congado, por toda a nossa existência, com certeza! 

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Fotos de Márcio Simeone (a foto do capitão mirim foi extraída do vídeo de transmissão da Missa pela Rádio Santa Cruz de Pará de Minas)



28 de agosto de 2026

Karine Xavier compartilha trajetória e inspira jovens leitores em encontro na Academia de Letras de Pará de Minas

Por Mirtes Pereira

Fotografia: Maurício Azevedo

Autora conversou com estudantes da Escola Estadual Torquato de Almeida sobre literatura, sonhos e sua própria história; alunos receberam exemplares de “Um Lugar Que É Meu — Entonces, una sonrisa basta!”


A literatura ganhou rosto, voz e histórias reais para um grupo de estudantes de Pará de Minas nesta quarta-feira, 26 de agosto. A escritora Karine Xavier Faria Gabriel participou de um encontro na Academia de Letras de Pará de Minas, onde conversou com alunos da quinta série da Escola Estadual Torquato de Almeida sobre sua trajetória, o processo de escrita e as experiências que deram origem ao livro “Um Lugar Que É Meu — Entonces, una sonrisa basta!”.

Mais do que apresentar a obra, Karine teve a oportunidade de contar pessoalmente aos jovens parte da história registrada em suas páginas. Da infância no distrito de Carioca, em Pará de Minas, às experiências no teatro, passando pela formação profissional e à constituição da família, a autora mostrou aos estudantes como diferentes capítulos de uma vida podem se transformar em literatura.

Para Karine, estar diante de crianças que estão construindo a própria relação com os livros tornou o encontro ainda mais significativo. “Foi um momento muito gratificante. Estou imensamente feliz por estar na Academia de Letras falando para crianças e, especialmente, falando do meu livro e da minha história. Poder contar sobre aquela criança da idade deles, que saiu de Carioca, estudou, fez teatro, foi atriz, casou, teve filhos e construiu uma trajetória é muito especial para mim”, afirma Karine Xavier.

Ao final da atividade, todos os estudantes participantes receberam um exemplar de “Um Lugar Que É Meu — Entonces, una sonrisa basta!”, ampliando para além do encontro a possibilidade de contato com a história apresentada pela escritora.

           Uma história que encontrou espaço na literatura

A primeira incursão de Karine no universo literário nasceu a partir de conversas com o escritor José Roberto Pereira, membro da Academia de Letras de Pará de Minas. Foi durante encontros no Laboratório do Ser, oficina conduzida por José Roberto, que ela percebeu que suas experiências poderiam ganhar forma e chegar a outras pessoas por meio da escrita. “Um Lugar Que É Meu — Entonces, una sonrisa basta!” percorre uma trajetória que tem como ponto de partida uma vida simples, mas vivida de forma plena. “Eu estava conversando com o Zé Roberto e contando um pouco da minha história quando ele me chamou para o Laboratório do Ser. Foi ali que descobri que tinha uma história para contar e começamos a escrever. O livro fala de uma trajetória de desafios e oportunidades. É uma vida simples, mas vivida com muita intensidade”, conta Karine.

José Roberto acompanhou de perto esse processo e destacou justamente a capacidade da história de Karine de dialogar com pessoas que podem se reconhecer em partes de sua caminhada. “Eu fiquei fascinado porque ela tinha o que dizer, tinha o que registrar. A história dela pode servir de incentivo a tantas outras meninas e meninos que, como ela, cresceram em área rural, foram cuidadas pelos avós e pela família e viveram intensamente cada fase da vida. Esse tipo de literatura autobiográfica causa impacto porque mostra que a vida é feita de momentos alegres, superações, conquistas e também de aprendizados”, ressalta José Roberto Pereira.

Segundo ele, a receptividade à obra também tem demonstrado esse alcance. O livro já chegou à segunda impressão, depois da distribuição dos exemplares da primeira tiragem.

           Quando conhecer a autora muda a experiência da leitura

Um dos diferenciais do encontro foi permitir que os alunos ultrapassassem as páginas e conhecessem quem está por trás delas. Para os estudantes, ouvir a história diretamente de Karine aproximou o universo da literatura da própria realidade.

A aluna Lavínia Nogueira, que representou a Escola Estadual Torquato de Almeida, destacou justamente essa experiência. “Foi muito bom. O livro é muito bonito, parece ser muito interessante, e foi muito legal conhecer a autora e conhecer a história dela. Foi a primeira vez que entrei na Academia de Letras”, conta Lavínia Nogueira.

A proposta faz parte do trabalho da Academia de Letras de Pará de Minas de aproximar escritores da comunidade, estimular novos leitores e mostrar às crianças e aos adolescentes que a escrita também pode nascer das experiências, memórias e perspectivas de pessoas próximas a eles.

“Esses bate-papos e essas trocas de saberes incentivam as crianças não só à leitura, mas também a se aventurarem no processo da escrita. A Academia de Letras tem uma função muito importante nesse sentido”, destaca José Roberto.

 


           Incentivo para uma nova geração de leitores

A relação com o público infantil tem significado especial para Karine. Além da experiência como escritora, sua formação em Psicologia também influencia a maneira como observa pessoas, relações e histórias. “Eu gosto muito de escrever para o público infantil. Adoro trabalhar com crianças e falar para crianças. É um público muito especial para mim”, afirma.

Durante a conversa, ela também deixou aos estudantes uma mensagem que considera essencial em um momento no qual livros disputam espaço com telas, redes sociais e outras formas de entretenimento. “O recado que deixo para as crianças e também para os adultos é incentivar a leitura e a escrita, mesmo com toda a tecnologia que temos hoje. É muito importante saber ler, escrever e continuar desenvolvendo essas habilidades”, reforça Karine.

Para José Roberto, esse contato com os livros traz reflexos que vão muito além da formação acadêmica. “Quem lê regularmente consegue lidar melhor com seus conflitos, conviver melhor com o outro e ter um desempenho mais assertivo em sua jornada. A leitura também representa qualidade de vida, porque pode proporcionar relaxamento, lazer e benefícios que reverberam não apenas em quem lê, mas nas pessoas ao seu redor”, afirma.

 

Nova obra já está a caminho

O encontro também antecipou uma novidade da trajetória literária de Karine Xavier. Depois de “Um Lugar Que É Meu — Entonces, una sonrisa basta!”, a autora já concluiu seu segundo livro, desta vez direcionado especialmente ao público infantojuvenil.

A obra, intitulada “Pepê não disse adeus!”, já foi encaminhada à editora e está em processo de preparação para publicação.

O novo projeto reforça uma relação com a literatura que começou a partir da própria história, mas que agora ganha novos caminhos e públicos.

 

Sobre Karine Xavier

Karine Xavier Faria Gabriel é psicóloga, tecnóloga em Segurança do Trabalho, empresária e sócia-proprietária da Agroger e do Centro do Saber, além de atuar como diretora assistente da Associação Empresarial de Pará de Minas (Ascipam) e integrar a diretoria da Ascipam Mulher.

Ao longo de sua trajetória profissional, já publicou diversos artigos ligados às suas áreas de atuação. “Um Lugar Que É Meu — Entonces, una sonrisa basta!” marcou sua estreia no universo literário, reunindo memórias e experiências pessoais em uma narrativa autobiográfica construída a partir de diferentes momentos de sua vida.

Sua trajetória também reúne experiências no teatro e no trabalho voluntário com os Psi-Sorrisos, projeto de palhaçaria terapêutica (como os doutores palhaços) que unem a psicologia, a humanização da saúde e a arte do palhaço para levar alegria a ambientes. Além disso, ela tem uma atuação fortemente ligada à Psicologia, ao empreendedorismo, ao desenvolvimento de pessoas e às relações humanas.

Amazona apaixonada pelo hipismo e pelas pessoas, Karine também encontra no esporte um espaço de dedicação, conexão e, em especial, de superação — valores que atravessam diferentes momentos de sua trajetória pessoal e profissional.

Agora, com a preparação de “Pepê não disse adeus!”, Karine amplia sua caminhada como escritora e se aproxima ainda mais de um público pelo qual demonstra especial carinho: crianças e jovens.