A Câmara Municipal de Pará de Minas aprovou, na reunião do último dia 5 de maio, moção de aplausos à Academia de Letras de Pará de Minas pela realização da sua 1.ª Festa Literária. O evento ocorreu de 7 a 10 de abril, com o tema "Quando a literatura te abraça". A proposição da Vereadora Irene Melo Franco destacou não apenas o sucesso do evento, mas a sua contribuição na valorização dos escritores locais e na democratização da leitura, pela realização de atividades voltadas a estudantes da rede pública e apoio ao fortalecimento dos clubes de leitura da cidade. A moção também ressaltou a importância da ALPM na promoção da diversidade e da identidade local e seu papel na preservação do patrimônio imaterial e histórico do município, considerando a Festa Literária um marco na política cultural de Pará de Minas.
12 de maio de 2026
11 de maio de 2026
E assim tivemos mais um “Dia das Mães”
Maria de Fátima Moreira Peres
Depois de uma semana cheia de compromissos, dormindo sempre depois da meia-noite e um domingo do Dia das Mães, cheio de emoções, enfim o descanso merecido. Após o almoço, deitei-me na cama, coloquei o fone de ouvido para não incomodar ninguém e comecei a ouvir música clássica para relaxar.
Pensei comigo: “não é fácil ser mãe, ainda mais, hoje em dia.” Quanta coisa se faz em apenas 24 horas! Poderia enumerá-las aqui, mas até isso já me deixa cansada. Mas ainda é pouco. Quantas mães estão por aí com uma penca de filhos, sem ter onde morar direito, largando os filhos sozinhos para buscar ajuda e um pouco de alimento para colocar na boca de cada um.
Mães solo, mães desempregadas, mães com problemas de saúde, mães de todos os tipos que só querem um pouco de tranquilidade para cuidarem de si próprias. Não tem nada de charmoso o Dia das Mães. Um presentinho aqui, um outro ali e parece que, num passe de mágica, tudo se transforma e o cansaço vai embora, a dor some, a tristeza fica no passado.
Mas não é bem assim. Continua-se cansada, exaurida e com uma vontade enorme de estar num lugar onde você se sinta leve, sem pensar em nada, a não ser, olhar para o céu e apreciar o fim de tarde, tomando sorvete de doce de leite.
Mas isso não existe. Quando se tem filhos, carregamos em nosso peito, uma profusão de sentimentos de amor, temos a necessidade de estarmos juntos e fazer o melhor, para que o dia seja o mais alegre e divertido possível. E, que bom, quando vemos nossos filhos contentes ao nosso redor, de volta ao nosso lar. Esse é o presente que qualquer mãe deseja. Receber o carinho, o afeto e o melhor abraço do mundo.
Dia das Mães, como dizem por aí é, enfim, todos os dias do ano, de uma vida. Ter um filho, ou uma filha é a certeza de que você passou pela vida, tornou-se imortal, deixou a sua melhor parte para que te represente neste planeta. Não preciso do Dia das Mães para saber que assim sou. Meu amor é maior do que qualquer comemoração. Ele é todo dia, para a vida toda.
E ainda que não se lembrem de mim, não importa. Pois, o que vale é o sentimento que trago em meu coração, fruto do que eles me proporcionam a cada instante de suas vidas, vivos. E que sigam vivos e amando seus filhos também. Só assim saberão que viver é amar incondicionalmente aquele pedacinho de você.
______________________________________________
Imagem: de freepik
8 de maio de 2026
O doce de figo e Canudos
Cadeira n.º 1
Em nossa casa plantamos um pé de figo e cuidamos com carinho até que um dia nos surpreendeu com os primeiros frutos. Eram 11 figos e já estavam no ponto para fazer um doce em calda, especialidade que aprendi com minha mãe. Então colhi os figos, raspei e dei a primeira fervura. Tem que ser no tacho de cobre para manter o verde. E o tacho tem que ser areado com sal e limão para tirar o zinabre. Com a primeira fervura ele fica feio, amarronzado, mas eu não me preocupei, pois sei que é assim mesmo. Meu marido acompanhava tudo porque adora este doce e não via a hora de saboreá-lo. No dia seguinte o mesmo ritual: arear o tacho e dar a segunda fervura. Os figos começaram a esverdear. Mais um dia de descanso e foi feita a terceira fervura quando os figos ficaram bem verdinhos e cozidos. Era só esperar esfriar e colocar na calda. Decidi terminar o doce neste mesmo dia.
Nossa cozinha era grande e aberta, separada da casa e tinha um fogão a lenha. Coloquei os figos na calda e fui ver televisão enquanto tomava uma sopa. Lembrei que era quarta feira e estava passando Canudos no cinema e era o último dia! Como professora de História, eu estava estudando o período do coronelismo com os alunos e já havia lido Euclides da Cunha. Eu não podia deixar de ver o filme! Levantei-me de um salto, troquei de roupa e escrevi um bilhete: - Fui ver Canudos.
Como estaria representada na tela aquela epopeia do povo miserável seguidor de Antônio Conselheiro, o profeta que pregava pelas ruas: “O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”? Empolgada com a perspectiva de ver o filme sai quase correndo, pois já estava passando da hora.
Cinema lotado, consegui entrar e logo o filme começou. Bons atores, trilha sonora de qualidade, emocionante! O filme mostrava as injustiças contra o povo simples do campo e as ideias do profeta de construir uma cidade que fosse de todos, onde todos mandavam e ninguém poderia obrigá-los a nada. Marieta Severo representava uma família que deixou seu casebre para trás e seguiu Antônio Conselheiro.
Houve uma cena, quando a atriz picava uma moranga na panela, que me deu um lampejo de lembrança: - o meu doce de figo havia ficado no fogo! Levantei-me de um salto e fui até a portaria do cinema. Pedi ao responsável para dar um telefonema urgente. Em minha casa ninguém atendeu. Liguei para a vizinha: - Sandra, aqui é a Angela! Ela não me deixou falar mais nada. - Você é louca! Deixou uma panela no fogo. Saia uma fumaça branca até o céu. A gente chamou o Corpo de Bombeiros, mas eles demoraram. Então o meu marido e um amigo pularam o muro e desligaram o fogo. A panela estava preta. A diretora do colégio, aqui ao lado, também saiu pulando muros até chegar à sua cozinha, mas nós já havíamos resolvido tudo. – Ah! Muito obrigada! Disse aliviada e voltei para continuar a ver o filme.
Ao chegar em casa esperava um discurso sobre a minha irresponsabilidade, o perigo de incêndio, o doce perdido! Mas estavam todos vendo TV na maior tranquilidade. Cheguei devagar sondando a situação.
– Oi, tudo bem? – Tudo bem! Responderam. Fui até a cozinha para ver o estrago. Nada! Saí ao quintal e lá estava o tacho estava encostado na parede tendo uma grossa crosta preta por dentro. Voltei.
- Pois é, o doce queimou! Não deu para aproveitar nada.
- Isto acontece! Foi a resposta que recebi, para minha surpresa.
Alívio. Dias depois consegui figos e fiz um tacho cheio de doce de figo. Finalmente!
__________________________________
Imagem: Criada por IA generativa
7 de maio de 2026
Autores de livros de Pará de Minas poderão participar do estande da ALPM na Paraliteratura
A Academia de Letras de Pará de Minas participará, de 14 a 17 de maio, da Paraliteratura, Feira de Incentivo à Leitura, evento já tradicional do calendário da cidade que é promovido pela Secretaria Municipal de Cultura e Comunicação Institucional. A ALPM contará com um estande para exposição e venda de livros e convida outros autores da cidade a participar. Os interessados deverão entregar os livros até as 16h do dia 11 de maio (segunda-feira), no Museu Histórico de Pará de Minas. As orientações são as seguintes:
Os horários de funcionamento, na Praça Torquato de Almeida, são os seguintes:
* sábado: 8h às 14h
* domingo: 9h às 13h
1 de maio de 2026
O repouso dos dias
Das primaveras do outro hemisfério emerge maio, o mês da fertilidade, da abundância e do crescimento, tipicamente primaveril, que na minha aldeia, no sul, se inverte. Vive-se uma contração quase silenciosa da natureza, um tempo de respiro onde o calor se esvai, às vezes apressado por frentes polares e no qual os dias repousam. A natureza fica pensativa, o entardecer enrubescido chega mais cedo do que eu mesmo gostaria, decretando a noite antes que tenha terminado as tarefas do dia e esgotado todas as expectativas e promessas. Neste momento somos nós um solo que descansa e se prepara para novo plantio; ao menos assim trazemos à lembrança a deusa que lhe dá o nome, da fertilidade e da projeção da energia vital e nos preparamos para as agitações festivas do início do inverno. Meu maio não é de Maia, mas de Maria. Mês de mães e coroações, tempo de consagrar-se. É o mês das lutas do trabalho.
Do tempo da minha infância ele é o das caminhadas para a aula bem cedo, na manhã fria, com minha respiração a soprar fumaça, do corpo com mais preguiça de acordar e a mente a esperar novidades, das abluções em água pouco amistosa. Também quando começavam as inspeções de mãe e pai se vamos cobertos e devidamente agasalhados. Era a hora em que mantas e cobertores se redescobriam funcionais; no qual as roupas mais grossas despertavam da sua sonolência e lentamente fugiam do armário em busca de sol e na expectativa de alguma elegância. De longe, trago à lembrança minhas mãos a segurar uma caneca aconchegante de chocolate quente, aquela que seria, doravante, grande e valorosa companheira para enfrentar este e os próximos meses, mente e corpo agraciados com ternura e calor.
_____________________________________
Imagem: Criada por IA generativa
30 de abril de 2026
A velha Matriz
Angela Xavier
Cadeira n.º 1
Todas as cidades têm seu começo. E é sempre uma rua comprida, chamada Direita, que vai dar na Igreja Matriz. Nesta rua está o comércio, ali estão os bancos, os bares e o footing nas noites de sábado. Ali desfilam os grupos de congado e os blocos de carnaval. É por onde passam as procissões, os cortejos fúnebres e as paradas do Dia da Pátria. Dela nascem outras ruas no crescimento das cidades.
É grande privilégio e símbolo de poder ter uma casa ou um ponto comercial na rua Direita. Sendo assim ela se encomprida sempre.
Em Pará de Minas não foi diferente.
A sua primeira Matriz foi dedicada a Nossa Senhora da Piedade, sua padroeira. Era, em seus primórdios, uma igreja barroca, da qual conheço a fachada por um quadro pintado por meu avô, Alfredo Leite Praça. O quadro é comemorativo do seu centenário e traz as datas: 1846 – 1946. Na reforma da igreja, acontecida em 1918, um pintor italiano Angelo Pagnacoo, deixou sua arte.
Defronte à Matriz havia um jardim florido e um enorme coqueiro. Assim como todos os meus conterrâneos, nela fui batizada, assistia às missas dominicais e participava junto com todas as meninas de então, das coroações a Nossa Senhora da Piedade que aconteciam nos finais de semana do mês de maio.
A Matriz era o centro da vida da cidade. No início do século XX o sino era badalado quando havia uma missa, um evento religioso ou mesmo uma emergência. Tem um fato pitoresco acontecido com meu avô Alfredo. O sino tocou já altas horas da noite. Conforme o costume, os homens saíram para ver o que estava acontecendo. Entraram na igreja munidos de velas e pedaços de paus, os corações batendo forte de medo. Percorreram todos os cômodos da igreja sem ver nada de anormal. Passando pela sacristia viram os panos que serviam de cenários nas representações de cenas bíblicas. Meu avô bateu neles com o cabo do seu guarda-chuva para mostrar que ali não havia ninguém. Enfim, saíram sem entender por que o sino havia badalado. Estavam confabulando na rua, quando viram uma das janelas da igreja se abrir. Se aproximaram receosos e viram ali o Roberto Doido, um tipo popular da cidade, que lhes disse: -“Sou eu, Jesus Cristo e estou na minha casa".
Nas grandes festas religiosas como a Semana Santa, um palanque era montado defronte à Matriz para a encenação de episódios bíblicos, costume que seguiu até os anos 60. Era necessário um espaço maior para o grande público que afluía de todos os distritos e bairros da cidade.
Me lembro de um tempo em que, menina ainda, via a chegada de caminhões abarrotados trazendo os moradores da zona rural para participar dos festejos religiosos. Eram homens, mulheres e crianças, com suas roupas domingueiras enchendo a grande praça para assistir as encenações e, em seguida, acompanhar a procissão que percorria as ruas principais.
A Matriz fazia parte da vida de todos, do nascimento à morte. Nos momentos dos festejos e dos sofrimentos. Era a alma e a história da cidade.
No mês de maio aconteciam as coroações a Nossa Senhora da Piedade. Os ensaios começavam um mês antes e aconteciam em casas de família. Me lembro de ensaiar na casa de meu bisavô, Juca Ferreira com minha tia-avó Gení, de voz linda e afinadíssima. Também ensaiamos na casa de Anita Sales que nos acompanhava ao piano na sala imensa de piso de madeira lavada que existia na praça defronte a Matriz.
Um costume único acontecia na hora do Te Deum, sempre ao anoitecer. O sino da igreja tocava e todos os que estavam caminhando pela rua Direita paravam. Imóveis e em silêncio, esperavam o segundo badalo, quando continuavam a caminhar. Este costume pegava de surpresa qualquer visitantes desavisado.
Nossa Matriz, um dia, foi considerada ultrapassada e com perigo de desabar sobre os fiéis. Não havia solução! Era preciso derrubá-la! Uma nova seria construída!
Da janela do sobrado onde viviam meus pais, na rua São José, eu via o guindaste com uma bola de ferro enorme batendo nas paredes da velha Matriz que se recusava a cair. Assim, aos poucos, aquela colossal e emblemática construção, caiu por terra.
Hoje a Matriz não existe mais no plano físico, mas ficou na memória de quantos a conheceram, com todos os seus detalhes, pela importância que teve nos momentos marcantes de suas vidas. Seus vestígios estão preservados no Museu Histórico de Pará de Minas e em algumas capelas da cidade.
Na minha memória e todos os paraminenses que viram nossa Matriz de pé, ela ainda está lá, intacta, carregando parte de nossa história e da de nossos ancestrais.
29 de abril de 2026
Identidade, coletividade e escuta: roda de conversa mobiliza reflexões na Academia de Letras
Falar sobre identidade preta é reconhecer que há uma história de apagamentos — mas, sobretudo, afirmar que há um movimento em curso: coletivo, vivo e em construção. Foi nesse horizonte que a Academia de Letras de Pará de Minas acolheu a roda de conversa “Identidade preta e o exercício da coletividade”, realizada pelo Grupo Reflexivamente, reunindo diferentes vozes em um espaço de escuta, partilha e reflexão.
Conduzido pela assistente social Alexandra Maria da Silva Santos, o encontro abordou os atravessamentos de raça, gênero e classe na contemporaneidade, articulando experiências individuais a processos históricos ainda presentes na sociedade brasileira. Durante a roda, Alexandra destacou a importância do letramento racial e do conhecimento como ferramentas fundamentais para a compreensão do espaço ocupado pela população negra, reforçando o caráter processual e coletivo dessa construção: “Hoje nós vivemos um momento de construção dessa identidade através do corpo, da música, do conhecimento e do letramento racial. Essa construção não se faz sozinha; nós nos construímos através da coletividade. Eu construo a minha identidade enquanto uma mulher preta convivendo com outras pessoas pretas, através da troca e de reconhecer tudo que a população negra fez e ainda faz no nosso país (...) Estamos nos construindo lentamente, em passos pequenos, mas tem acontecido".
A atividade foi ampliada pela apresentação do grupo Cantadeiras de Engenho, que trouxe à cena a força da cultura popular e da memória coletiva por meio do canto, e pela participação da artista Cris Poesia, que, entre música e palavra, reforçou a dimensão sensível e política da expressão artística.
Para Naliene Gonçalves, coordenadora do Grupo Reflexivamente, iniciativas como essa são fundamentais para o fortalecimento do diálogo e da consciência coletiva no município. Mais do que um encontro pontual, a iniciativa reafirma a importância de espaços institucionais abertos ao diálogo e à diversidade de vozes.
Ao apoiar a realização da atividade, a Academia de Letras de Pará de Minas fortalece seu compromisso com a democratização do acesso à cultura e ao conhecimento, consolidando-se como um espaço que acolhe grupos, coletivos e pautas fundamentais para a construção social contemporânea.

.png)


.png)



