18 de fevereiro de 2026

O carnaval, na terra dos mágicos

Márcio Simeone
Cadeira n.º 8
 
  

  
Movido pela minha insaciável curiosidade antropológica, cheguei desta vez à terra dos mágicos. Fui com grande expectativa, pois sempre admirei os talentos da prestidigitação e do ilusionismo, ainda que não me fosse dado conhecer as manhas e truques dessa gente. Meu objetivo era mais simplório, o de ver como viviam. Isso não se revelou tarefa fácil, de vez que tudo - ou quase tudo - ali é imprevisível. Ou melhor, as coisas não saem exatamente como se espera. Para quem observa, é mais comum se confundir. Percebi que eles não só se enganam como se deixam enganar à mesma medida e talvez seja esse o segredo e o equilíbrio. Vivem sabendo, desde sempre, que tudo é ilusão. O que os move é o desejo de surpreender, mais e mais.

Todas as pessoas usam cartolas, independentemente de gênero. A cartola, a propósito, é um item tão essencial da indumentária e da vida prática que a sua indústria tem altos subsídios do governo. A passagem para a vida adulta requer maior esmero nos trajes e na postura. Sempre a rigor. É uma sociedade que ainda conserva traços de machismo, reservando papeis auxiliares às mulheres - me disseram que isso está mudando rapidamente; contudo, as estatísticas mostram que a elas segue cabendo o risco maior de serem efetivamente serradas ao meio ou desaparecerem definitivamente. Apreciam muito o cinema, principalmente pelos efeitos especiais. Promovem até um festival específico para laurear os mais extraordinários. Notei certa rivalidade com a terra dos palhaços. Os mágicos se consideram mais sérios, mais disciplinados, mais elegantes e até mais civilizados.

Percebi que o grande desafio nesta terra é a educação das crianças. Inocentes, elas se deixam enganar com facilidade, mas são proibidas de iludir os adultos. No máximo podem fantasiar nas brincadeiras entre si. Assim, costumam ser sinceras. Com o passar dos anos, isso vai se perdendo. A juventude, naquele lugar, vive hoje sua rebeldia recusando-se a usar os trajes convencionais, tomando para si a liberdade de vestirem-se à paisana. Muitas das jovens mulheres já se destacam por alcançarem os níveis mais altos do ilusionismo e, dentre elas, algumas serram homens ao meio com o vigor do gesto reparatório - que transformam em influência midiática e denúncia de séculos de opressão.

Na economia, destacam-se a cunicultura e a colombicultura, exclusivas para o mercado doméstico. Moda e vestuário são importantes, mas, cada vez mais, são produtos de exportação. No comércio exterior, aliás, eles detêm o monopólio de produção de varinhas, dado o impenetrável segredo industrial de sua fabricação. No meio acadêmico, o principal destaque é o das ciências econômicas. Eles a consideram o expoente máximo do que chamam de "conhecimento ilusionista". Ao lado dela, as ciências contábeis prosperam, com foco no que denominam "contabilidade criativa" e, é claro, as ciências da comunicação, como área emergente. Muitos profissionais dessas áreas encontram vasto campo no mercado de trabalho doméstico, mas também no exterior!

A habilidade mais apreciada em termos pessoais, que é indício da evolução mental e espiritual, é a levitação. Como esta é para poucos, costuma formar comunidades mais fechadas. Em termos coletivos e profissionais, é a invisibilidade. A recente introdução de mídias sociais, pervasivas e ubíquas, tem desafiado, porém, essa habilidade, colocando em risco a própria estrutura do tecido social.

O governo é eleito democraticamente, mas se reveza no poder somente uma elite, reconhecida principalmente por suas capacidades de fazer desaparecer qualquer coisa - o que é o cerne do exercício político local e, de outro lado, de entreter a população, fazendo aparecer subitamente os mais diversos e inusitados objetos com discursos entusiasmados. Os políticos também simulam ferrenhas disputas e levantam todo o tempo polêmicas fúteis e/ou falsas, o que também diverte o público e o mantém engajado em diversos assuntos sem importância. Atualmente, no entanto, uma severa crise climática que prejudica as duas principais produções do país, de coelhos e pombos, à qual se juntam os questionamentos sociais cada vez maiores sobre a crueldade contra os animais, têm desafiado essa ordem de coisas e mobilizado segmentos da população a realizar inéditos questionamentos políticos e econômicos.

Esperei pelo carnaval, embora ninguém tenha me convidado. Fiquei a observar toda a movimentação pública, crendo que algo de verdadeiro se revela na natureza das pessoas neste intervalo festivo. Assim é que se permitem neste período livrar-se dos trajes convencionais. Os mais ousados reduzem as vestimentas ao mínimo. O mínimo aqui é o necessário para executar pelo menos algumas mágicas. Sabemos que, na falta de mangas e cartolas, é bom ter acessórios que possam escamotear objetos e despistar os olhares dos outros. Mas há quem prefira se esconder atrás de máscaras e fantasias variadas. É no carnaval que as crianças são, elas próprias, pombos e coelhos.
 
Essa gente tem formas curiosas de brincar. Normalmente são pessoas circunspectas e concentradas, mas durante os festejos zombam de seus próprios truques e até deixam que alguns deles, mais simples, se revelem. Fazem propositalmente performances fracassadas. Nada disso importa muito, porque no meio da diversão e da música, tudo é absorvido numa atmosfera artificial, regada a vinhos, que, ao fim de intensos dias, se resume numa sensação de ilusão coletiva e se dissolve em ressaca, onde tudo é convenientemente esquecido. Foi com uma sensação estranha que de lá voltei, parece que metade de mim ficou lá. Ou terei sonhado?
 
_______________________________________ 
Imagem de vectorgraphit no Freepik

 



 

2 de fevereiro de 2026

Fugaz e radiante

Márcio Simeone
Cadeira n.º 8
 

Meu fevereiro é incompleto, variável e fugaz. Também exuberante: o verão já está maduro, a alegria é radiante e solar e os corpos dançantes e livres. Mistura de cores e ritmos em cordões que arrastam pequenas ou grandes multidões: samba, marchinhas, axé, maracatu, frevo e hoje muito além. É uma transição entre a diversão e o trabalho que, periodicamente, expande seu caráter levemente preguiçoso por mais um dia. Em algum momento, irá decretar o começo do novo ano, em definitivo, muito embora isso possa ser às vezes protelado para além de sua fronteira. Cumpre, assim, a memória ancestral de quando era o último mês do ano. Não é hora de grandes decisões, mas de elaborações. A quaresmeira prepara suas flores e nós, a quaresma. Meu fevereiro da infância tem as expectativas do início das aulas, ensaiando o ano num ritmo lento, no aprendizado ainda sem pressões e com o cheiro e a perfeição dos cadernos novos. Para mim, a organização ideal para o ano, embora pouco durável. É o tempo de liberdade e rebeldia aquarianas e da chegada da sensibilidade e empatia piscianas - de Urano e Saturno a Netuno e Júpiter no comando da ordem celeste.  Em fevereiro se entra com suor para sair de ressaca.

___________________________________

Imagem: criada por IA generativa 

26 de janeiro de 2026

Batalha do Bariri ocupa a sede da Academia de Letras de Pará de Minas em edição especial

A sede da Academia de Letras de Pará de Minas recebeu, na tarde do dia 25 de janeiro de 2026, uma edição da Batalha do Bariri, importante movimento cultural que reafirma a força do hip hop e da rima improvisada como linguagem artística, política e social.
 

Tradicionalmente realizada no Parque do Bariri, a edição aconteceu excepcionalmente na sede da Academia, em razão da possibilidade de chuva, evidenciando o compromisso da instituição com o acolhimento e o fortalecimento das manifestações culturais contemporâneas, especialmente aquelas ligadas à cultura urbana e periférica.
 

As batalhas de rima são encontros nos quais MCs se enfrentam em duelos de improviso, utilizando criatividade, ritmo, poesia e crítica social como ferramentas de expressão. Em Pará de Minas, a Batalha do Bariri representa um recomeço: a retomada de uma cena cultural que já existiu na cidade, reunindo integrantes remanescentes de batalhas anteriores e uma nova geração que ocupa os espaços públicos com arte, voz e identidade.



Liderada por Cris Poesia, a Batalha do Bariri reúne MCs, artistas independentes, espectadores e, sobretudo, a juventude preta e periférica, consolidando-se como um espaço de pertencimento, convivência, escuta e construção coletiva. Mais do que uma competição, o movimento se firma como um território de troca e fortalecimento cultural.
 

Os encontros acontecem quinzenalmente, aos finais de semana, no bairro Bariri, e têm atraído um público cada vez maior, inclusive pessoas vindas de cidades da região, como Nova Serrana e Itaúna, ampliando a circulação cultural e o intercâmbio entre artistas do rap regional.
 

A Batalha do Bariri reafirma que a cultura segue viva, pulsante e necessária, criando redes, ocupando territórios e dando continuidade a uma história que se recusa a ser silenciada.
Saibam mais sobre projeto em: @batalha_do_bariri

19 de janeiro de 2026

Patuá: um show na ALPM


O músico e compositor Ricardo Rodrigues fará no dia 1.º de fevereiro, às 10 da manhã, um show na sede da Academia de Letras de Pará de Minas (Centro Literário Pedro Nestor), em apresentação solo (violão e voz). "Patuá - uma obra cancioneira" tem repertório inteiramente autoral e reúne seis canções inéditas, compostas entre 2017 e 2025, além de quatro canções dos álbuns Tons (2008), Terra, Baú e Verso (2016) e das Canções (2025). As canções se organizam como um pequeno cesto — um patuá — onde memória, delicadeza e tempo se entrelaçam. O espetáculo será realizado para uma plateia de apenas 30 pessoas, no espaço da Academia, reforçando o caráter singular da apresentação.

 

Ricardo Rodrigues é músico, compositor e instrutor de yoga. Graduado em violão pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e pela Bituca – Universidade Popular de Música, desenvolve um trabalho autoral marcado pela delicadeza poética e pela escuta como experiência estética.

Data: 1º de fevereiro de 2026 (domingo)
Horário: 10h
Local: Academia de Letras de Pará de Minas – ALPM
Rua Benedito Valadares, nº 183, 2º andar – Centro
Centro Literário Pedro Nestor
Classificação: 12 anos
Ingresso: R$ 30,00 

Apoio cultural da ALPM.

Informações e ingressos - clique aqui

 

14 de janeiro de 2026

Segredos

Paulo Roberto dos Santos
Cadeira n.º 17

Música e letra do acadêmico Paulo Roberto dos Santos e Mano Men:

 



6 de janeiro de 2026

Noite de Reis, os Magos!

Conceição Cruz
Cadeira n.º 4


A transição entre os anos, sempre, teve um ar - ternamente - Divino e místico...

Existia um ritual, antes mesmo de dezembro chegar...

Mamãe plantava uma porção de grãos de arroz, uns sessenta dias antes, para nascerem verdinhos, decorando o caminho do Presépio para Gaspar, Belchior e Baltasar...

Enquanto germinavam, ela falava a respeito dos Magos e contava inúmeras histórias que levavam a gente para outros Reinos que não pertenciam, com certeza, a este mundo...

A preparação, a expectativa da chegada do Menino-Deus, a alegria da família toda reunida...

Natal com algazarra de crianças e o encontro de diferentes gerações, parentes e amigos...

A decoração, o Presépio - cuidadosa e afetuosamente preparados pelas mãos maternas e infantis - davam mais vida e calor aos nossos Natais até a chegada dos Reis...

Assim, a tradição familiar de celebrar o momento da Natividade, avivava os nossos corações, desde muito antes do último mês do ano, estendendo-se por um bom período no ano seguinte...

Os nossos Natais se delongavam até o dia de Nossa Senhora da Luz, ou das Candeias, dia 2 de fevereiro.

Nessa data, a nossa Matriarca relembrava a saída da Virgem Maria da gruta de Belém e a apresentação do Menino Jesus no templo.

Só depois dessa noite, é que o Presépio era desfeito e guardado para a montagem no próximo ano...

Vale ressaltar que, 6 de janeiro - também - era uma data festejada e celebrada, por ser marcante e muito especial: o Dia de Reis...

No meu pensamento pueril, eu fitava o céu, tentando me inspirar ou até aprender com ele um pouco daquilo que os Magos vivenciaram: conhecimento, ciência, sabedoria e fé: reconhecer e seguir a Verdade Absoluta, acima de tudo!

Há mais de dois mil anos, por estudo e observação chegaram à gruta de Belém, ao Ser que mudaria toda a história da humanidade...

Com coragem celestial, viajaram dias e noites pelos desertos guiados por um sinal celeste...

Na montagem do Presépio, Mamãe sempre os colocava à entrada da gruta, sinalizando que chegaram após o nascimento do Rei Maior...

E eu ficava pensativa, visto que, há tempos, eles já pressentiram a chegada da Luz...

Na nossa casa, era um misto do imaginário, da magia, das tradições e do Divino...

No espírito das tradições, as orações e o momento da simpatia das romãs: esse, com certeza, era um instante de fé, de meditação e de descontração: os agradecimentos pelas dádivas recebidas e o ato de colocar o coração à disposição para aceitar os Planos Divinos e o propósito de colaborar com Ele...

O terço, a ladainha, os incensos, os presentes, a dramatização do Presépio Vivo - a procissão de chegada dos Magos - juntamente com o ouro da bênção e da folia de Reis, em família...

Depois, a mesa farta: a comida, o chá, o café e o desejo de voltar no ano seguinte...

Tudo ficava eternizado dentro da gente, recriando saberes, criando memórias afetivas e fortalecimento de vínculos familiares e sociais...

Enquanto os anos transcorriam, ficava imaginando as adversidades vencidas pelos Magos ao cruzarem os desertos exteriores e interiores...

Imaginava também a importância da intuição, dos estudos, de definir objetivo, da entrega total a um Propósito Maior, de se permitir ir ao encontro d’Aquele que, desde o início, vive no âmago de cada um de nós...

Quantos caminhos a percorrer para vivenciar o Verdadeiro Caminho?

O meu questionamento não era o “porquê” teria sido dessa forma - ideia remissiva ao passado - e sim, “para quê” - remetendo ao futuro...

Ficava explorando, mentalmente, o mundo das possibilidades quanto à existência - ou não - do acaso e da relevância do esforço constante, do trabalho interno e externo, do sacrifício, da dedicação, da fé, da confiança, da perseverança, da alegria e da recompensa...

Do entusiasmo de dar o primeiro passo, ou tantos quantos forem necessários em direção à realização dos sonhos até a consecução deles...

Aquela minha mente de criança, de outrora, seguia assim e ainda prossegue viagem a transcender - a exemplo dos Magos - pelos desertos e territórios da alma...

___________________________________________

Imagem: by pngtree.com 


  


5 de janeiro de 2026

A jornada do sábio do Oriente

Márcio Simeone
Cadeira n.º 8
 

Naquele dia, em meu reino distante no Oriente, vi brilhar no céu intensa luz, estrela incomum. Tinha em mim desde sempre o desejo de buscar o sagrado, de achar um lugar de devoção para sair, peregrino, em viagem de silenciosa oração, no íntimo diálogo com o universo. Aquele brilho inusitado me atraía, motivando meus pés a se moverem na direção apontada. Sabia ser a indicação precisa para salvar minha alma tão inquieta - a jornada do destino a me conectar ao grande mistério revelado naquela luz, profetizada, muito esperada. Sabia que não seria o único, mas gostaria de ser dos primeiros. Sem saber ao certo o que encontraria, cabia levar comigo, além das provisões de viagem, alguma oferenda significativa. Sem muito pensar, tomei do incenso que tinha, aquele que acendia a minha espiritualidade - e me pus em marcha. Ao atravessar as montanhas e desertos, senti que levava também meus sonhos e que era impulsionado pela promessa de novos tempos. Era o bastante para aplacar a dureza do caminho, transformando-a numa travessia mística. Outros convergiram àquele ponto iluminado, de distintos reinos, também distantes, de outras línguas e culturas, no mesmo gesto de delicadeza e generosidade. Percebemos, então, que o que buscávamos em comum estava ali, num cenário de de grande simplicidade, mas de infinita grandeza; de luminosidade própria, potente e intensa a atrair ainda mais, capaz de tornar as gentes todas peregrinas para um caminho maior. A própria luz habitou em mim e nos companheiros que ali se juntaram, fazendo-nos sentir entre a terra e o céu, simbolizando uma missão que se cumpriria na junção da realeza à divindade e à mortalidade em sacrifício redentor. Retornamos, humildes e felizes, aos nossos reinos, convertidos em metáfora da jornada libertadora do Messias, a ser escrita no Evangelho. Vivo até hoje nesta eterna caminhada na direção do presépio e do Reino que não é deste mundo.

_____________________________

Imagem: criada por IA generativa