Conceição Cruz
Cadeira n.º 4
A
transição entre os anos, sempre, teve um ar - ternamente - Divino e místico...Existia
um ritual, antes mesmo de dezembro chegar...
Mamãe
plantava uma porção de grãos de arroz, uns sessenta dias antes, para nascerem
verdinhos, decorando o caminho do Presépio para Gaspar, Belchior e Baltasar...
Enquanto
germinavam, ela falava a respeito dos Magos e contava inúmeras histórias que
levavam a gente para outros Reinos que não pertenciam, com certeza, a este
mundo...
A
preparação, a expectativa da chegada do Menino-Deus, a alegria da família toda
reunida...
Natal
com algazarra de crianças e o encontro de diferentes gerações, parentes e
amigos...
A
decoração, o Presépio - cuidadosa e afetuosamente preparados pelas mãos
maternas e infantis - davam mais vida e calor aos nossos Natais até a chegada
dos Reis...
Assim,
a tradição familiar de celebrar o momento da Natividade, avivava os nossos
corações, desde muito antes do último mês do ano, estendendo-se por um bom
período no ano seguinte...
Os
nossos Natais se delongavam até o dia de Nossa Senhora da Luz, ou das Candeias,
dia 2 de fevereiro.
Nessa
data, a nossa Matriarca relembrava a saída da Virgem Maria da gruta de Belém e
a apresentação do Menino Jesus no templo.
Só
depois dessa noite, é que o Presépio era desfeito e guardado para a montagem no
próximo ano...
Vale
ressaltar que, 6 de janeiro - também - era uma data festejada e celebrada, por
ser marcante e muito especial: o Dia de Reis...
No
meu pensamento pueril, eu fitava o céu, tentando me inspirar ou até aprender
com ele um pouco daquilo que os Magos vivenciaram: conhecimento, ciência,
sabedoria e fé: reconhecer e seguir a Verdade Absoluta, acima de tudo!
Há
mais de dois mil anos, por estudo e observação chegaram à gruta de Belém, ao
Ser que mudaria toda a história da humanidade...
Com
coragem celestial, viajaram dias e noites pelos desertos guiados por um sinal
celeste...
Na
montagem do Presépio, Mamãe sempre os colocava à entrada da gruta, sinalizando
que chegaram após o nascimento do Rei Maior...
E
eu ficava pensativa, visto que, há tempos, eles já pressentiram a chegada da
Luz...
Na
nossa casa, era um misto do imaginário, da magia, das tradições e do Divino...
No
espírito das tradições, as orações e o momento da simpatia das romãs: esse, com
certeza, era um instante de fé, de meditação e de descontração: os
agradecimentos pelas dádivas recebidas e o ato de colocar o coração à
disposição para aceitar os Planos Divinos e o propósito de colaborar com Ele...
O
terço, a ladainha, os incensos, os presentes, a dramatização do Presépio Vivo -
a procissão de chegada dos Magos - juntamente com o ouro da bênção e da folia
de Reis, em família...
Depois,
a mesa farta: a comida, o chá, o café e o desejo de voltar no ano seguinte...
Tudo
ficava eternizado dentro da gente, recriando saberes, criando memórias afetivas
e fortalecimento de vínculos familiares e sociais...
Enquanto
os anos transcorriam, ficava imaginando as adversidades vencidas pelos Magos ao
cruzarem os desertos exteriores e interiores...
Imaginava
também a importância da intuição, dos estudos, de definir objetivo, da entrega
total a um Propósito Maior, de se permitir ir ao encontro d’Aquele que, desde o
início, vive no âmago de cada um de nós...
Quantos
caminhos a percorrer para vivenciar o Verdadeiro Caminho?
O
meu questionamento não era o “porquê” teria sido dessa forma - ideia remissiva
ao passado - e sim, “para quê” - remetendo ao futuro...
Ficava
explorando, mentalmente, o mundo das possibilidades quanto à existência - ou
não - do acaso e da relevância do esforço constante, do trabalho interno e
externo, do sacrifício, da dedicação, da fé, da confiança, da perseverança, da
alegria e da recompensa...
Do
entusiasmo de dar o primeiro passo, ou tantos quantos forem necessários em
direção à realização dos sonhos até a consecução deles...
Aquela
minha mente de criança, de outrora, seguia assim e ainda prossegue viagem a
transcender - a exemplo dos Magos - pelos desertos e territórios da alma...
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