Márcio Simeone
Cadeira n.º 8
Movido pela minha insaciável curiosidade antropológica,
cheguei desta vez à terra dos mágicos. Fui com grande expectativa, pois
sempre admirei os talentos da prestidigitação e do ilusionismo, ainda
que não me fosse dado conhecer as manhas e truques dessa gente. Meu
objetivo era mais simplório, o de ver como viviam. Isso não se revelou
tarefa fácil, de vez que tudo - ou quase tudo - ali é imprevisível. Ou
melhor, as coisas não saem exatamente como se espera. Para quem observa,
é mais comum se confundir. Percebi que eles não só se enganam como se
deixam enganar à mesma medida e talvez seja esse o segredo e o
equilíbrio. Vivem sabendo, desde sempre, que tudo é ilusão. O que os
move é o desejo de surpreender, mais e mais.
Todas
as pessoas usam cartolas, independentemente de gênero. A cartola, a
propósito, é um item tão essencial da indumentária e da vida prática que
a sua indústria tem altos subsídios do governo. A passagem para a vida
adulta requer maior esmero nos trajes e na postura. Sempre a rigor. É
uma sociedade que ainda conserva traços de machismo, reservando papeis
auxiliares às mulheres - me disseram que isso está mudando rapidamente;
contudo, as estatísticas mostram que a elas segue cabendo o risco maior
de serem efetivamente serradas ao meio ou desaparecerem definitivamente.
Apreciam muito o cinema, principalmente pelos efeitos especiais.
Promovem até um festival específico para laurear os mais
extraordinários. Notei certa rivalidade com a terra dos palhaços. Os
mágicos se consideram mais sérios, mais disciplinados, mais elegantes e
até mais civilizados.
Percebi que o grande
desafio nesta terra é a educação das crianças. Inocentes, elas se deixam
enganar com facilidade, mas são proibidas de iludir os adultos. No
máximo podem fantasiar nas brincadeiras entre si. Assim, costumam ser
sinceras. Com o passar dos anos, isso vai se perdendo. A juventude,
naquele lugar, vive hoje sua rebeldia recusando-se a usar os trajes
convencionais, tomando para si a liberdade de vestirem-se à paisana.
Muitas das jovens mulheres já se destacam por alcançarem os níveis mais
altos do ilusionismo e, dentre elas, algumas serram homens ao meio com o
vigor do gesto reparatório - que transformam em influência midiática e
denúncia de séculos de opressão.
Na economia,
destacam-se a cunicultura e a colombicultura, exclusivas para o mercado
doméstico. Moda e vestuário são importantes, mas, cada vez mais, são
produtos de exportação. No comércio exterior, aliás, eles detêm o
monopólio de produção de varinhas, dado o impenetrável segredo
industrial de sua fabricação. No meio acadêmico, o principal destaque é o
das ciências econômicas. Eles a consideram o expoente máximo do que
chamam de "conhecimento ilusionista". Ao lado dela, as ciências
contábeis prosperam, com foco no que denominam "contabilidade criativa"
e, é claro, as ciências da comunicação, como área emergente. Muitos
profissionais dessas áreas encontram vasto campo no mercado de trabalho
doméstico, mas também no exterior!
A habilidade
mais apreciada em termos pessoais, que é indício da evolução mental e
espiritual, é a levitação. Como esta é para poucos, costuma formar
comunidades mais fechadas. Em termos coletivos e profissionais, é a
invisibilidade. A recente introdução de mídias sociais, pervasivas e
ubíquas, tem desafiado, porém, essa habilidade, colocando em risco a
própria estrutura do tecido social.
O governo é
eleito democraticamente, mas se reveza no poder somente uma elite,
reconhecida principalmente por suas capacidades de fazer desaparecer
qualquer coisa - o que é o cerne do exercício político local e, de outro
lado, de entreter a população, fazendo aparecer subitamente os mais
diversos e inusitados objetos com discursos entusiasmados. Os políticos
também simulam ferrenhas disputas e levantam todo o tempo polêmicas
fúteis e/ou falsas, o que também diverte o público e o mantém engajado
em diversos assuntos sem importância. Atualmente, no entanto, uma severa
crise climática que prejudica as duas principais produções do país, de
coelhos e pombos, à qual se juntam os questionamentos sociais cada vez
maiores sobre a crueldade contra os animais, têm desafiado essa ordem de
coisas e mobilizado segmentos da população a realizar inéditos
questionamentos políticos e econômicos.
Esperei
pelo carnaval, embora ninguém tenha me convidado. Fiquei a observar
toda a movimentação pública, crendo que algo de verdadeiro se revela na natureza das pessoas neste intervalo festivo. Assim é que se permitem neste período livrar-se dos
trajes convencionais. Os mais ousados reduzem as vestimentas ao mínimo. O
mínimo aqui é o necessário para executar pelo menos algumas mágicas.
Sabemos que, na falta de mangas e cartolas, é bom ter acessórios que
possam escamotear objetos e despistar os olhares dos outros. Mas há quem
prefira se esconder atrás de máscaras e fantasias variadas. É no
carnaval que as crianças são, elas próprias, pombos e coelhos.
Essa
gente tem formas curiosas de brincar. Normalmente são pessoas
circunspectas e concentradas, mas durante os festejos zombam de seus
próprios truques e até deixam que alguns deles, mais simples, se
revelem. Fazem propositalmente performances fracassadas. Nada disso
importa muito, porque no meio da diversão e da música, tudo é absorvido
numa atmosfera artificial, regada a vinhos, que, ao fim de intensos
dias, se resume numa sensação de ilusão coletiva e se dissolve em
ressaca, onde tudo é convenientemente esquecido. Foi com uma sensação
estranha que de lá voltei, parece que metade de mim ficou lá. Ou terei
sonhado?
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Imagem de vectorgraphit no Freepik

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