Tempos atrás, li numa pichação de muro do Rio de Janeiro que “você olha da direita pra esquerda e o Estado te esmaga de cima pra baixo”. A lembrança veio diante de um episódio curioso: em tempos de polarização, quando o nós contra eles parecia insuperável, deputados federais de esquerda e de direita, que se atacam semanalmente no Congresso, uniram forças para aprovar, com urgência, a PEC da Blindagem.
Urgência de quê? Urgência para quem?
A PEC da Blindagem não discute o aumento da faixa de isenção do imposto de renda, a revisão da escala 6x1, nem novos investimentos em saúde ou educação. Nada disso. A pressa foi para aprovar regras que dificultam que parlamentares federais respondam por crimes, condicionando a atuação da Justiça à autorização da própria Casa Legislativa.
Como disse o Prof. Mario Spangenberg, decano da Faculdad de Derecho y Artes Liberales do Uruguay, “se você tem um direito e os demais não, então você não tem um direito, mas um privilégio”.
Parece que alguns dos nossos “representantes” trabalham intensamente, mas não para o interesse dos seus representados – mas para os seus fins particulares. Foucault, no conjunto de textos Um diálogo sobre o poder e outras conversas, já advertia que o poder é exercido às custas do povo e que quem o exerce sempre encontra brechas para violar as regras que ele mesmo cria. A PEC da Blindagem é um exemplo dessa lógica.
Como professor, sigo acreditando na educação como instrumento de transformação. E não tenho dúvidas de que, quando estimula o pensamento crítico, ela nos impulsiona a buscar soluções para reduzir privilégios e ampliar direitos, pois, como na frase atribuída a Paulo Freire, “o sistema não teme o pobre que passa fome, teme o pobre que sabe pensar”.
É justamente o pensamento crítico que deve orientar nossas escolhas. Quem se indigna com as desigualdades sociais, com o racismo, com as múltiplas formas de discriminação e com o excesso de privilégios dos privilegiados, nas próximas eleições, precisará refletir sobre quem deve ocupar o papel de representante.
Acredito que é nosso dever fazer da sociedade um lugar mais justo para se viver e conviver. E penso que a educação é o caminho. Recorrendo mais uma vez a Paulo Freire, dou eco à máxima de que “A educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas. E as pessoas transformam o mundo”.
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