6 de janeiro de 2026

Noite de Reis, os Magos!

Conceição Cruz
Cadeira n.º 4


A transição entre os anos, sempre, teve um ar - ternamente - Divino e místico...

Existia um ritual, antes mesmo de dezembro chegar...

Mamãe plantava uma porção de grãos de arroz, uns sessenta dias antes, para nascerem verdinhos, decorando o caminho do Presépio para Gaspar, Belchior e Baltasar...

Enquanto germinavam, ela falava a respeito dos Magos e contava inúmeras histórias que levavam a gente para outros Reinos que não pertenciam, com certeza, a este mundo...

A preparação, a expectativa da chegada do Menino-Deus, a alegria da família toda reunida...

Natal com algazarra de crianças e o encontro de diferentes gerações, parentes e amigos...

A decoração, o Presépio - cuidadosa e afetuosamente preparados pelas mãos maternas e infantis - davam mais vida e calor aos nossos Natais até a chegada dos Reis...

Assim, a tradição familiar de celebrar o momento da Natividade, avivava os nossos corações, desde muito antes do último mês do ano, estendendo-se por um bom período no ano seguinte...

Os nossos Natais se delongavam até o dia de Nossa Senhora da Luz, ou das Candeias, dia 2 de fevereiro.

Nessa data, a nossa Matriarca relembrava a saída da Virgem Maria da gruta de Belém e a apresentação do Menino Jesus no templo.

Só depois dessa noite, é que o Presépio era desfeito e guardado para a montagem no próximo ano...

Vale ressaltar que, 6 de janeiro - também - era uma data festejada e celebrada, por ser marcante e muito especial: o Dia de Reis...

No meu pensamento pueril, eu fitava o céu, tentando me inspirar ou até aprender com ele um pouco daquilo que os Magos vivenciaram: conhecimento, ciência, sabedoria e fé: reconhecer e seguir a Verdade Absoluta, acima de tudo!

Há mais de dois mil anos, por estudo e observação chegaram à gruta de Belém, ao Ser que mudaria toda a história da humanidade...

Com coragem celestial, viajaram dias e noites pelos desertos guiados por um sinal celeste...

Na montagem do Presépio, Mamãe sempre os colocava à entrada da gruta, sinalizando que chegaram após o nascimento do Rei Maior...

E eu ficava pensativa, visto que, há tempos, eles já pressentiram a chegada da Luz...

Na nossa casa, era um misto do imaginário, da magia, das tradições e do Divino...

No espírito das tradições, as orações e o momento da simpatia das romãs: esse, com certeza, era um instante de fé, de meditação e de descontração: os agradecimentos pelas dádivas recebidas e o ato de colocar o coração à disposição para aceitar os Planos Divinos e o propósito de colaborar com Ele...

O terço, a ladainha, os incensos, os presentes, a dramatização do Presépio Vivo - a procissão de chegada dos Magos - juntamente com o ouro da bênção e da folia de Reis, em família...

Depois, a mesa farta: a comida, o chá, o café e o desejo de voltar no ano seguinte...

Tudo ficava eternizado dentro da gente, recriando saberes, criando memórias afetivas e fortalecimento de vínculos familiares e sociais...

Enquanto os anos transcorriam, ficava imaginando as adversidades vencidas pelos Magos ao cruzarem os desertos exteriores e interiores...

Imaginava também a importância da intuição, dos estudos, de definir objetivo, da entrega total a um Propósito Maior, de se permitir ir ao encontro d’Aquele que, desde o início, vive no âmago de cada um de nós...

Quantos caminhos a percorrer para vivenciar o Verdadeiro Caminho?

O meu questionamento não era o “porquê” teria sido dessa forma - ideia remissiva ao passado - e sim, “para quê” - remetendo ao futuro...

Ficava explorando, mentalmente, o mundo das possibilidades quanto à existência - ou não - do acaso e da relevância do esforço constante, do trabalho interno e externo, do sacrifício, da dedicação, da fé, da confiança, da perseverança, da alegria e da recompensa...

Do entusiasmo de dar o primeiro passo, ou tantos quantos forem necessários em direção à realização dos sonhos até a consecução deles...

Aquela minha mente de criança, de outrora, seguia assim e ainda prossegue viagem a transcender - a exemplo dos Magos - pelos desertos e territórios da alma...

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Imagem: by pngtree.com 


  


13 comentários:

  1. Conceição, mais uma maravilha de texto que - com a sua sensibilidade filosófica e poética- consegue avivar grandes viagens e memórias afetivas por meio da Magia e Realeza de sua Literatura eternizada por meio dos Magos. Parabéns mais uma vez! Você traz um brilho diferente - a exemplo Estrela da Belém, seguida pelos Magos - para este Blog e para Nossa Academia de Letras e de Divinópolis.

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  2. E de uma sensibilidade e poesia magistral!

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  3. Conceição, mais uma maravilha de texto que - com a sua sensibilidade filosófica e poética - consegue avivar grandes viagens e memórias afetivas ...

    Por meio da Magia e Realeza de sua Literatura singular, eterniiza os Magos, em nossas mentes, ressignificando seus caminhos e ensinamentos...
    Parabéns mais uma vez!

    Você traz um brilho diferente, a exemplo da Estrela de Belém para os Magos, você traz para este Blog e as Academias de Letras das quais pertence: de Pará de Minas e de Divinópolis.
    Orgulho das duas cidades do Centro- Oeste Mineiro!


    Parabéns !



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  4. Que delícia de texto Cunhada, admiro a magia que vc coloca em cada palavra, a gente consegue sentir e ouvir os sons dos mágicos Natais da casa da Dona Gê.

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  5. Parabéns!!! Um texto lindo!

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  6. Conceição Cruz você sempre consegue falar através das palavras. Tem muitas memórias, histórias, lembranças, emoções e espiritualidade neste seu texto. Gratidão por partilhar ❤️

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    1. Maravilha de texto, prosa poética de qualidade. As luzes e as vivências de Natal e Ano Novo (re)brilham a vida, a fé e a esperança. A sua poesia, Conceição, é o fio condutor de tamanha Beleza!
      Afonso de Castro Gonçalves.
      Maravilhas Flor das Gerais.

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  7. Difícil encontrar palavras pra descrever a maravilha, o encantamento que esse texto me trouxe. Muito obrigada e parabéns 🌹
    Vilma (Amor Verde)

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  8. Parabéns Conceição ! Com sua sensibilidade vc consegue com que a gente viage neste texto e que sds me deu da D. Gê. Vc é fantástica!!!!

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  9. Que delícia ler o seu texto. Remeteu-me à infância. Não tão farta, mas tão significativa quanto. Tomo a liberdade de acrescentar o meu chinelinho havaiana posto ao lado de outros sete, dentre irmãs e irmãos, que aguardava ansioso o presentinho de Natal que, embora simples, nunca faltava. Era a minha mãe se desdobrando para ver a alegria no rosto de suas muitas crianças. Obrigada, Conceição, por compartilhar sua experiência conosco. Adorei. 🥰

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