Naquele lugar estavam cansados da guerra e ansiavam pela paz. Mas a memória do que era a paz havia se perdido entre muitas gerações obrigadas a tantas batalhas travadas no fio da espada e nas longas tempestades de ódio. Só conheciam a trégua, uma vírgula que se coloca num aposto como falsa calmaria. Naquela cidade restava apenas um ancião que, de fato, vivera em tempos pacíficos. Quando tentava descrever aos mais jovens o que vivenciara, suas palavras soavam como lenda de um mundo que há tempos tinha sido perdido e esquecido, como uma mitologia. Muitos o achavam mentiroso, outros preferiam zombar dele, incrédulos, e outras ainda o diziam louco, mas, mesmo assim, ele falava de noites tranquilas, manhãs sem sobressaltos, corpos sem cicatrizes, sem o choro dolorido por muitas vidas perdidas em lutas insanas e inúteis que não eram suas. Sua palavra era, então, estranha, como também ele próprio era, exótico em meio aos conflitos. Não falava a linguagem endurecida daqueles dias de combate quase sem pausas. Mas era nos momentos de trégua, em forçosa quietude, que tudo ficava vazio e ele mais apreciava contar suas histórias antigas. Com paciência e à seu modo construía, sobre os escombros da discórdia e as ruínas das cruentas campanhas, a esperança de que pelo menos o cansaço fosse maior que o ódio.
Houve um dia em que apenas um jovem o tomou a sério. Já havia vestido a armadura com garra e fervor, sofrido as dores da derrota e da prisão e tinha o olhar marcado pelo sangue derramado em sua cidade. Onde esperava glória e nobreza, havia então recebido apenas o horror frio que a ele gritava até em sonhos. Acreditava que a paz não se conquista nem possui, não se negocia, não sobrevém ao cansaço, mas se constrói pelo bem, de dentro para fora. Apenas se acolhe como dom e graça e, numa grande fraternidade, se alarga, se estende. Pensando assim, passou à ação e ousou despojar-se e trazer para aqueles dias tormentosos a linguagem viva e adverbial extraída da memória daquele velho irmão, humilde, paciente e amoroso. Essa linguagem, de fato, era a única capaz de estabelecer uma comunicação com todas as criaturas. Assim ele se fez vivo entre elas - por mais de 800 anos.
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No Ano Jubilar Franciscano - 2026, à memória sempre viva do "Poverello di Assisi".
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Parbéns, Márcio. Em tempos sombrios, Francisco foi um farol que ainda nos ilumina.
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