Regina Marinho
Cadeira n.º 6
Uma vez, quando éramos bem
pequeninos, uma história linda nos foi contada. Desde então, a cada final de
ano, a mesma história se repetia, trazendo-nos sentimentos de alegria e desejo
de união e paz aos corações.
Crescemos ouvindo, vendo e
sentindo essa história tomar forma num canto da sala, onde mamãe criava uma
cena rupestre com papel, panos e saco de linhagem. Depois, ia posicionando
peças de gesso coloridas que representavam Maria, José, os pastores, as ovelhas,
o boi, o burrinho, o galo, o anjo e a estrela. Cada peça era cuidadosamente
colocada nesse cenário rudimentar.
Bem no topo da “montanha”, ficava
uma armação de madeira como fosse um estábulo. Os magos, que a tradição
religiosa chamou de reis e lhes deu os nomes Gaspar, Belchior e Baltazar, só
chegariam muitos dias depois do nascimento do menino. Por esse motivo, ficavam
no sopé do “monte”, para mostrar que ainda percorreriam um longo caminho. Meus
irmãos e eu íamos ajudando neste processo, pra que o presépio ficasse lindo de
viver!
Os demais personagens tinham
lugares definidos. Maria e José ficavam dentro do pequeno estábulo, ansiosos e
atentos à chegada do momento tão esperado. Junto deles, também ficavam o boi e
o burrinho, pois, segundo mamãe, o bafo quente destes animais é que aqueceu o
ambiente, trazendo calor para aquela noite fria, tão distante no tempo e no
espaço, mas tão viva dentro da gente.
No nascimento de Jesus, cada
personagem manifestou, à sua maneira, a alegria pela vinda do menino. Assim, o
anjo e o galo foram os primeiros a comunicarem a boa notícia. O anjo avisou aos
pastores da chegada do salvador prometido, e o galo, com seu canto vibrante e
potente, fez o anúncio às demais criaturas antes mesmo do dia clarear.
Aqui e ali, outras peças iam se
somando. Os pastores ficavam bem perto do estábulo, pois foram os primeiros a
chegar, conforme nos diz o relato bíblico. Levavam consigo algumas ovelhas: as
mais grandinhas podiam ficar um pouco distantes, pois já reconheciam seu pastor
e não corriam o risco de se desgarrarem, mas as novinhas, coitadinhas! eram
ainda muito ingênuas. Por isso, os pastores as levavam consigo, pra que se
familiarizassem com seu cheiro, atendessem a seu chamado e aprendessem a
segui-lo. Suspeito que esses venturosos pastores sabiam de algo importante
muito antes de nós: que aquele que nascia e vinha, em nome do Senhor, seria um
bom pastor. Ele chamaria suas ovelhas pelo nome, e elas reconheceriam sua voz e
seu cheiro. Se acaso umazinha que fosse se perdesse, ele a buscaria onde quer
que estivesse e haveria alegria genuína por este reencontro!
A estrela do oriente é também um
símbolo importante no presépio. Apareceu no céu, de onde os magos puderam
vê-la, cada qual na sua terra. Resplandecente, ela foi a mensageira celeste da
boa notícia para aqueles observadores do céu e seus sinais. Mas, diferentemente
dos pastores, que se reconheceram na simplicidade do recém-nascido, os magos
acreditavam que a estrela lhes revelava o nascimento do rei dos judeus. Mas
aquele pequenino, que depois encontraram envolto em faixas sobre uma
manjedoura, local onde se coloca o alimento dos animais no estábulo, seria bem
diferente das realezas terrenas. Chamaria a Deus de Pai e falaria de seu
reinado, no qual ninguém seria excluído. Essa estrela foi a guia dos magos até
a gruta de Belém.
Depois de montado o presépio, no
primeiro domingo do advento, apenas uma peça, a mais importante, a que expressa
o sentido de todo o cenário, ficava de fora: o menino na manjedoura. Quando
alguém manifestava estranhamento, mamãe explicava que o menino ainda não havia
nascido e só chegaria na noite do Natal. Dessa forma singela e mística, ela nos
introduzia no mistério da encarnação de um Deus que, por amor, se fez tão
pequenino, para carregar em si a humanidade inteira.
Feliz Natal!
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