domingo, 12 de abril de 2020

Lemexe e Melexe: a Lesma e o Caracol

Conceição Cruz

Cadeira n.º 4






Há muitos e muitos anos, existia uma lesminha que morava no interior de Minas. Seu nome era muito especial: Lemexe.



Seus passos eram sempre lentos: tinha, ao invés do famoso rei na barriga, os pés na barriga. Seu movimento era quase imperceptível e as crianças exclamavam:



- Uai! A lesma! Ela mexe!



E assim ficou Lemexe!



Era uma época de muitas frutas, de folhas verdes,  legumes e de água!



Lemexe tinha o hábito de marcar o lugar por onde ia, para sempre, voltar pelo mesmo caminho.



Um dia, ao acordar, qual não  foi a sua surpresa: a área verde fora toda devastada para dar lugar aos pastos!



-Cadê a hortinha verde? Meu Deus! Cadê as frutas?



Ela subiu até a vidraça e viu no noticiário: sua prima, que morava longe, media mais de um metro e pesava mais de quinze quilos!

Era,  orgulhosamente, exibida nas mãos do biólogo.



Em outra reportagem, vê a imagem de outra lesma com a casa nas costas! Era chamada de caracol.



- Que  interessante! Pensa.



-Opa! Como ela fez isto? Um dia, vou deixar de ser uma sem-teto e também carregarei a minha casa nas costas! Exclama!



A vidraça estava muito escorregadia e Lemexe caiu dentro da caixa de papelão!



Lá dentro estava escuro.



Ela ajeitou as antenas para ver melhor e nada  viu.

Resolveu repousar.



De repente, a caixa começou a se mover e foi colocada dentro de um avião.



Depois de horas e horas de voo, o avião parou na França para descarregar as caixas de açaí.



Lemexe estava agora na cozinha do restaurante, em Paris!



Ela viu os talheres de prata e os pratos, onde seriam servidos os famosos “escargots”.



Ela viu uma enorme concha e resolveu entrar, para saber como era dentro dela.



- Olá! Casa ocupada!



Disse Melexe, um caracol, em irrepreensível francês!



- Perdão! Desculpe-me! Disse ela, em bom português!



Melexe, que há tempos vivia ali, naquele restaurante internacional, também falava português. Eles começam a conversar.



No Brasil, as lesmas não têm teto e, geralmente, não servem de alimento.



Na França, os caracóis têm suas próprias casas e são servidos nos mais caros restaurantes! Pensou Lemexe.



A cozinheira, muito atarefada, havia perdido seus óculos! Pegou a concha de Melexe.



Ele disse:



- Rápido! Esconda-se, Lemexe!



Lemexe, com a viagem, ficou muito magrinha; ela se escondeu atrás das antenas de Melexe, mas as antenas dele e dela  ficaram de fora!



A cozinheira viu as oito antenas, pensou  que se tratava de um único e robusto animal: separou a concha, pois parecia um exemplar totalmente diferente! Ou seria alimento transgênico?



Com muito cuidado, colocou a concha em uma caixa.



Na dúvida, descartou todos os escargots para evitar contaminação no restaurante natural!



Foi uma festança!

Melexe e Lemexe tornaram-se herois!



Casaram-se.



Lemexe agora vivia em Paris e falava francês.

Depois de muito tempo, resolveram aumentar a família: tiveram quase meio milhão  de filhotes, numa só temporada!



E com tanta algazarra de filhotes, ninguém mais dormia naquela casa! Ou melhor, naquela concha!

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Imagem: https://publicdomainvectors.org/pt/vetorial-gratis/Projeto-caracol-simples/69821.html



10 comentários:

  1. Como você consegue enxergar coisas tão simples, quase inúteis ao nossos olhos, em uma grande história?
    Quanta sensibilidade!
    Parabéns!

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  2. Amei a sua história. Parabéns!

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  3. Estória bem criada, de leitura fácil e que mexe com nossa imaginação.

    Parabéns

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  4. Eu viajei na imaginação...Lembre-se das minhas aulas de canto, no ensino fundamental...Dona Zelinha cantando: " lá vem o caracol, andando bem devagar, carrega a casa nas costas, menina por quê? Ele não quer se molhar..." E hoje eu aprendi que é ele parente da lesma, talvez seja por isso que a canção dizia...Andando bemmm devagar...kkk. Amei essa viagem na minha infância...

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  5. Adorei.
    Você e excelente me fez viajar no tempo.

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  6. Quanta reflexão!
    Historia para gente grande tb!
    Como não pensar nos sem teto, nas diferenças culturais, na biologia, na ecologia?
    Parabéns!

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  7. Muito Bom.. Parabéns Academia de letras de Para de minas pela publicação...

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  8. Parabéns me fez recordar minha infância quando eu e meus irmãos perceguia lesmas e fazia corrida com elas.

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  9. Sou da comunidade indígena kaxixó.Martinho Campos MG,como foi falado em umcomentário assima lembrei de quando era criança eu e meus irmãos perceguiamos os rastros das lesmas e caracol colocavamos dentro de um círculo para ver quem saía do círculo primeiro ganhava.

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  10. Que historinha divertida, Conceição! Amei!! Bjs, Regina Maria

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