Ainda estou mergulhada na egrégora de espiritualidade, de proteção e de amor vivida no Levantamento das Bandeiras: Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e Santa Ifigênia, na noite de sábado, 12.09.2026, na Igrejinha do Rosário, bem como na continuidade, no Domingo, nas festividades do V Encontro de Congadeiros, no município de São José da Varginha...
De fato, foi possível sentir os versos da canção dos Congadeiros: "A Senhora do Rosário foi quem me trouxe aqui..."
Nem a fotografia, nem a filmagem, nem as palavras demonstram o vivido, o sentido e o experienciado ali...
Um contraste entre a grandiosidade, a magnitude do momento com tanta singeleza e humildade...
Assim como o Evangelista Lucas, há tempos, apregoou: Ele olhou para a humildade de sua serva...
Do Alto - envolta - no seu Rosário, na Igrejinha, Ela, também, olhava para a humildade daquele povo vindo de diferentes regiões de Minas, um "quase Mago do Congado” ... Todos reverenciando aquele momento, inspirando-nos na perseverança, na fé e na tradição...
Percebia-se o encanto, o respeito, a religiosidade, o zelo, o cuidado, o desejo de continuidade das festas, na ornamentação de cada Santo - cuidadosamente - preparada...
Ouvindo o som forte dos tambores, no átrio da ermida, já na chegada, o encontro com o Sagrado: a oportunidade solene de ver transportada a âmbula cheia de hóstias da Igrejinha para a Mina de Padre Libério...
O cortejo dos três santos feito por pessoas de diferentes idades - elegantemente - vestidas para a ocasião de festa, de gala do Congado, com cuidado e zelo, demostrando quem são os verdadeiros guardiães da religiosidade, da história, das memórias e de toda a nossa ancestralidade...
Naqueles instantes, os registros imagéticos feitos sob a ótica de Márcio Simeone, acadêmico da ALPM - Academia de Letras de Pará de Minas, imortalizaram-se... Captura de diversas cenas não suscetíveis a outros olhares...
As famílias festeiras, recriando a tradição de José Alexandre da Cruz e de Maria Geralda da Cruz, de mais de 50 anos: recepção das guardas visitantes, para café, almoço e repouso em seus lares...
É inesquecível a saudação da Guarda ao entrar na casa e entoar os cantos de chegada, ao redor da mesa, antes e após a refeição e também aquele de despedida...
O olhar de nossa anfitriã - Mariinha do Quiel - era tão vibrante e caloroso quanto o forno de barro - onde eram preparadas as gostosuras, desde as três horas da madrugada, para servir comida fresca, da melhor qualidade, temperada com bastante bom humor, amizade e carinho...
Na hora do almoço, toda a Guarda de Congo Marinheiro de Pará de Minas - MG atenta ao apito do capitão, iniciava ou findava a sua cantoria ao som dos tenazes tambores...
No meio dela, Isis, uma das mais jovens, tocava o seu instrumento com bastante atenção e alegria...
De certa forma, conservo um coração guardião...
Guardo, no meu peito, saudades de um tempo - no qual não vivi - mas que está vivo dentro de mim, por meio das histórias que, desde a minha infância, ouço contar pelos pais e irmãos mais velhos e amigos que ainda vivem em São José da Varginha/MG.
A minha família: José Alexandre da Cruz, Maria Geralda da Cruz e meus irmãos, todos católicos, cristãos fervorosos e praticantes, moravam ao lado da Igrejinha do Rosário, a mesma que permanece até hoje ali, cheia de histórias, o mesmo Rosário feito -verdadeiramente – de rosas...
Casa santa e mesa farta! Era sagrado o acolhimento dos congadeiros para as refeições em nosso doce e terno lar!
O arroz, o feijão, a salada crua, as verduras cozidas, as frutas, a macarronada com frango, o pernil traseiro assado, com gordurinha, temperado, marinado na gamela: todo furadinho para entrar bastante alho e limão, um pouco de sal e pimentinha... a sobremesa, aquele cafezinho com a rapadura picada para coroar tudo...
“A comida não cheirava... Perfumava a Igreja Nova” ... Bairro onde localizava e localiza a Igrejinha do Rosário...
Assim tenho registrado ao ouvir relatos de memórias afetivas e gustativas contados por aqueles que conviveram com eles...
Meu pai e minha mãe - já habitantes da Pátria Celeste - preparavam tudo, tudo com o máximo de Respeito, de entusiasmo e de carinho...
E de forma muito inspiradora...
Talvez, como forma de preservar um pouco das inúmeras histórias de amor incondicional, de doação - de suas atuações como cidadãos de bem e de homenageá-los - é que, naquela cidade, no Bairro São Francisco, está presente e imortalizado o nome dele em uma daquelas vias:
Rua José Alexandre da Cruz.
Ele permanece vivo na memória e no coração de um povo: quantos ensinamentos, tantas alegrias...
Quanta saudade brotou na minha alma, ou mesmo, na minha imaginação, ao reavivar essas memórias do Congado ali e ao visitar aquela pequenina rua... ao ser fotografada ao lado de uma singela placa, a qual contém o nome de uma personalidade que tem grande importância para mim e para todos nós, especialmente, para os antigos moradores da região, que sempre tem um " causo" dele para nos contar enquanto legado.
Foi emocionante ver a repetição da história, quando o Padre citou as sete famílias que receberiam as guardas visitantes em seus lares...
Além do receptivo na Mina...
Foi acolhedor o sorriso da Alcione, viúva do Congadeiro Bolão, da Mariinha do Quiel, a presença, na cozinha, do Aniceto e Celinha e de tantos outros colaboradores da fé...
Neste V Encontro de Congadeiros de São José da Varginha, no meio de várias pessoas presentes, Padre Geraldo Gabriel - grande entusiasta da Festividade e das celebrações - colocou, no altar, o nome de pessoas significativas que deixaram registradas as suas marcas no Congado: Bolão, Congadeiro de São José da Varginha, do querido Mestre do Congado Senhor Zé Penha e outros... Ressaltando a importância e lacuna do Mestre Zé Penha, além de tantos outros grandes nomes... Congadeiros que mantiveram e transmitiram a tradição e que - certamente - devem estar fazendo a Festa do Rosário em territórios celestiais...
No ar, uma pergunta fluía...
Muitos capitães já faleceram e quem será capaz de levar adiante esta Bandeira, de geração em geração?
A Assembleia ficou em silêncio e introspectiva...
Naqueles momentos de convivência, senti um amor tão grande - mas tão grande - por todos dali, pelos seus antecessores e também por tantas pessoas de outras localidades, mesmo sem, diretamente, conhecê-las e as quais admiro por meio da expressão delas de fé, simplicidade, religiosidade, tradição, acolhimento, generosidade, espírito comunitário...
Uma forte conexão com o passado, com o Divino, com a Senhora do Rosário, porém ao mesmo tempo - num paradoxo - uma certa ansiedade em relação ao futuro dessas festividades e celebrações...
Mas...
Ouvia-se uma voz...
Era a voz infantil do capitão mirim, despertando-nos: uma centelha de esperança, uma vez que ele já traz, nos ombros, a potência de todo um legado e, no coração, a vontade de fazer renascer, no coração dos outros, todo o somatório coletivo de energias das nossas crenças, de nosso conhecimento e o desejo de nossos antepassados em relação à manutenção e salvaguarda da tradição...
As festividades e as palavras do sacerdote - protagonista dos festejos da Igrejinha do Rosário, do Congado e Reinados: Padre Geraldo Gabriel de Bessa, movidas pela tradição e pelo Sagrado, aguçou, em muitos, a responsabilidade e a vontade de levar adiante esse laborioso ideal...
De forma especial - a exemplo dos antigos Sinos da Igrejinha, a sinergia espiritual a congregar mais pessoas, numa perfeita corrente do bem, para abraçarmos a causa...
Aqui hoje, finalmente, num contraponto, ao mesmo tempo, sinto que tudo isso tem uma expressão de resistência e resiliência - em sua própria força motriz - ao longo dos anos, o que nos permite acreditar na sucessão, a exemplo da nossa ancestralidade, uma vez que existe um viés Divino permeando tudo...
Ainda que o tenha - por outro lado - não podemos perder o trem dessa história...
Devemos ser sujeitos dela, com a parte que nos couber nela, para mantê-la viva, por meio da fé, da força, da memória, da tradição, da cultura e da religiosidade...
Sigamos unidos!
Cidadãos, poder público e guardas de Congado com gestão compartilhada do futuro desses relevantes eventos e encontros culturais, festas e celebrações religiosas...
Dando-nos a certeza de que - realmente - a Senhora do Rosário foi quem nos trouxe aqui e até aqui. Dessa forma, Ela norteará e nos auxiliará nos próximos passos para manutenção dos importantes patrimônios - materiais e imateriais - religiosos regionais: Igrejinha do Rosário e Festa do Reinado, do Congado, por toda a nossa existência, com certeza!
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Fotos de Márcio Simeone (a foto do capitão mirim foi extraída do vídeo de transmissão da Missa pela Rádio Santa Cruz de Pará de Minas)










Padre, tenho um grande carinho pela Igreja do Rosário. Acho uma igreja aconchegante, e quando a visito, sinto ali muito bem pela sua simplicidade, principalmente por lembrar da minha infancia, já que passava alguns dias de férias na fazenda dos meus avós, próxima a esta Igreja. Minha avó Lifonsina participava muito como uma devota de Nossa Senhora do Rosário.
ResponderExcluirA simplicidade e devoção que ali vimos não tem como nos emocionar. Foi uma bela festa! Uma união dos congadeiros maravilhosa, não podemos deixar adormecer, parabéns a todos que ajudaram nessa grande festa. Nossa Senhora do Rosário abençoe todos vcs.🙏🙏🙏
ResponderExcluirQue saudades. dessa festividade,.Quantas saudades.!!!!!
ResponderExcluirMaravilhoso relato. Estive lá uma única vez, mas me encantei com o lugar.
ResponderExcluirQue emocionante.
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