6 de março de 2025

Quarta edição do projeto "Lugar de Fala e Representatividade" será realizada na sede da Academia de Letras de Pará de Minas


No dia 11 de março, às 19:30h, a Academia de Letras de Pará de Minas recebe a 4ª edição do projeto "Lugar de Fala e Representatividade", promovido pelo Grupo Reflexivamente.

Nesta edição, o evento propõe um diálogo sobre a produção literária feminina no passado e na contemporaneidade, celebrando os 250 anos de Jane Austen. A programação conta com uma mesa-redonda com as escritoras Terezinha Pereira, Idelvais Alves e Elma Leite, além da participação especial de Alexandra Maria. Para enriquecer ainda mais o encontro, as apresentações artísticas ficam por conta do grupo Cantadeiras do Engenho e da contadora de histórias Marcilene Tavares.

 

 

Coordenado pela psicóloga Naliene Clemente, o Reflexivamente é um grupo de estudos sobre gênero e questões que envolvem o universo da mulher. Seu propósito é fortalecer o poder de ação, voz e participação das mulheres, promovendo espaços de fala e eventos voltados à temática do feminino.

 A Academia de Letras de Pará de Minas, como espaço de valorização da cultura e da literatura, tem a alegria de apoiar essa iniciativa, reafirmando seu compromisso com a promoção do conhecimento e da diversidade.

O evento é gratuito, na Sede da ALPM à Rua Benedito Valadares, 183 – Centro, Pará de Minas.

 

Transcendência

Conceição Cruz
Cadeira n.º 4
 
 
 

 

Presença Amiga

capaz de calar a dor d’alma,

de suscitar respostas no silêncio,

a reconectar-nos ao Verdadeiro Amor e àquele

de quem já vive em outro mundo!

 

Carregada de abraço

- aconchegante tal qual o seu útero -

cheia de ternura, sem palavras, 

forte pela doçura dos suspiros.

 

Presença que nos eleva aos Céus

e nos faz adormecer

com a certeza da existência

dos Anjos também aqui na Terra.

 

Tão serena, apta a

reconstruir o nosso silencioso coração ...

 

Tão marcante a valer por tantas

e tantas outras   eternizadas

no lado esquerdo do peito.

 

Não traz nem ouro

nem prata!


 

Apenas

um abraço!

 

Onde os nossos corações,

fisicamente, próximos

comungam da mesma emoção!

 

Presença amiga

a nos amparar na via crucis,

a trazer a certeza: mais que os anos

 - e dentre deles - valem mesmo os acolhedores minutos

 eternizados nas frações de cada instante!

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AGRADECIMENTO

Neste momento de transcendência, agradecemos todas as manifestações de tantos corações amigos!

Benditos sejam os amigos!

Benditas sejam as famílias!

Benditos sejam os tons mágicos 

de laranja que,

independente dos fatos

- alegres ou tristes -

trazem-nos de novo

à vida!

A VIDA É UM ESTADO DE IMPERMANÊNCIA!

E ponto final.

Avante!

Conceição Cruz e Família


 


2 de março de 2025

Carnaval ou carnavais?

Geraldo Phonteboa
Cadeira n.º 14


Os carnavais de outros tempos possuíam as marcas e os jeitos de seu próprio tempo. Como eu não sou mais das folias de momo de hoje, – embora  cheio de saudade dos blocos das décadas de 1980,  trago na memória os blocos onde já brinquei meus carnavais: Os “Cuecões”, os “Castores”, o “Sai da reta”, a “Banda suja” e o tradicional “Pau de Gaiola” (que ainda hoje, faz a festa do Momo do povão itaunense), do “Bloco do Eu sozinho”, de Newton Regal...

Hoje tenho o meu samba marcado por outras cadências: a cadência de um pagode de saudosa memória. Assim como os primeiros trios-elétricos que disputou a atenção dos carnavais itaunenses, na década de 1990, como “All face” que, pouco a pouco, foi esvaziando as escolas de samba desta terrinha (o Zulu, o Império da Vila, a Unidos da Ponte...), outros grupos foram surgindo em cada carnaval, velhas guardas foram aparecendo nos carnavais itaunense, alguns apareciam em um ano, e depois sumiam nos intervalos de um ano para o outro. E assim o carnaval foi se reinventando...  E, como tudo na vida, ganhou novas configurações, novos centros de atenção, novos modos de se fazer e refazer...

E é neste “ritmo da saudade”, “neste pagode da memória” que trago para você, caro leitor, um relato trágico e de humor sofisticado de um escritor das antigas, Péricles Gomide Júnior, o nosso “Pancrácio Fidelis”. Sua crônica, publicada no ano de 1952, no jornal “Fôlha do Oeste”, revela características do carnaval daquele tempo. Claro que é apenas um relato, que deve ser sempre permeado pela crítica, pela ironia e pelo humor, próprio deste contador de histórias que foi “Pancrácio Fidelis”. Apreciem!   

O carnaval que passou

(“Fôlha do Oeste de 20-3-952)

O carnaval foi abafante, apesar do desânimo do povo, nas vésperas. Houve, na descrição do Orlando, muita animação, muta fantasia bonita, muito entusiasmo, muto pescoção, muto lança-perfume, muta pancadaria, muito confeti.

Gente boa, como o Chichico Saldanha e outros do mesmo time, passaram a noite na fila do Automóvel Clube, para assegurar as mesas para os festejos de Mômo.

O itaúnense é, indubitàvelmente, o único no gênero: passar a noite acordado, para garantir quatro noites sem dormir!

Houve alguns sururus, pescoçõezinhos meio avultados, o que não constituiu novidade, uma vez que nos anos anteriores, também o pau comeu.

Geralmente, em todas as outras cidades do Brasil, na quarta-feira de cinzas, os foliões dão o balanço: – “Perdi meu relógio”, – “Perdi minha abotoadura de ouro” – “Perdi minha carteira ...”

O balanço do itaúnense, como não podia deixar de ser, é inteiramente diferente: - “Perdi dois dentes. Um, eu sei que engoli, mas e o outro?” – “Entortei meu rôte...” – “deslocaram meu queixo...” – “Me acertaram todos os dois olhos...” etc. etc.

Ainda, no terceiro dia de carnaval, no Automóvel Clube, quando o tempo fechou, um senhor já entrado em anos, ao ver seu parente nas garras de outro, resolveu entrar na briga. Arregaçou as mangas, encheu o peito e entrou. Entrou de cara num punho fechado e retrocedeu cuspindo dentes, saliva, praga e nome feio. A turma do “deixa disso” arrelhou o bicho e o levou para baixo. Lá, o velhinho virou onça: – “ Me larguem! Isso não pode ficar assim! Preciso voltar lá em cima imediatamente! Me solta!” E fazia tremendos esforços para se desvencilhar.

– “O senhor já brigou muito hoje, chega. Não volta lá mais não; fique calmo, sossegue; o senhor não pode brigar mais!”

– “Eu não quero brigar mais não!” – berrou ele com toda a força dos seus pulmões – “Quero é ir buscar minha dentadura, antes que eles pisem nela!”.

 

GOMIDE JÚNIOR, Péricles. Crônicas e Narrativas de Pancrácio Fidelis. Gráfica Santa Maria: Belo Horizonte, 1961, p. 75-76.


 

 

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Imagem: original de www.freepik.com

1 de março de 2025

O carnaval, na terra dos palhaços

Márcio Simeone
Cadeira n.º 8



Grande foi a minha emoção de chegar à terra dos palhaços. Um lugar feliz e movimentado. Tudo era espetacular, ou melhor, qualquer coisa se transformava imediatamente em espetáculo. Muito embora houvesse poucas surpresas, porque quase tudo era previsível, todos reagiam como se observassem o que se passava pela primeira vez. Uma constante algaravia sonora de tambores, tarois, cornetas e apitos, entremeada por risadas menos ou mais agudas. Era uma diversão ilimitada.

As pessoas eram dotadas de grande agilidade corporal e caiam ao chão sem parar, levantando-se lépidas e fagueiras. Zombavam umas das outras, mas sem deixar ressentimentos. No máximo reagiam com bofetões rocambolescos que arrancavam gargalhadas - e logo se reconciliavam.

Todo mundo estava preocupado em se mostrar. Assim, a vida nas ruas era bem intensa. Havia uma profusão de cores, também, com pouco espaço para os tons pastéis, menos ainda para os de cinza.  Todos os gestos eram largos e incontidos, bem como a falação, numa alegre cacofonia. A princípio classifiquei esses comportamentos como exagerados. Mas logo os associei aos exageros da minha própria terra, talvez até menos alegres do que esses, decidindo-me, então, a focalizar nos detalhes mais peculiares.

As crianças são barulhentas e suas brincadeiras desajeitadas. Adolescentes sempre exibem algum adorno que os diferenciem dos adultos e das crianças. Suas brincadeiras e jogos costumam, no entanto, ser mais agressivos, quem sabe testando os limites de suas interações e a paciência e o aparente bom humor dos pais. Pude ver uma juventude inquieta, mas sem interrogações quanto ao futuro como as que observo na minha terra. Afinal, se dão conta de que querem ser como os pais e todos riem juntos do seu destino comum.

Passado algum tempo, fiquei decididamente confuso. Já não conseguia definir o que era toda aquela alegria e agitação, se uma felicidade genuína, fartamente evidenciada, ou só uma representação de forma a manter essa aparência. Cheguei mesmo a pensar que toda essa demonstração seria dirigida só a mim, encenada para o meu olhar estrangeiro, já que, entre os nativos, deviam saber bem melhor o que lhes passava no fundo da própria alma.

Conheci os estudiosos da universidade local. Ao primeiro contato, não me pareceram levar a sério a produção de conhecimento. Ou, pelo menos, não tanto quanto eu, que me dedico à ciência com toda devoção. Não estudavam a sociedade, então não se arriscavam a explicar por que aquela terra era assim configurada. Gostavam de teorizar sobre os objetos. Mas nunca colocavam em questão seu próprio comportamento, motivo pelo qual a psicologia nunca prosperara. Pensando bem, acho que vi ali mais arte que ciência. Seja como for, lá se encontravam os que eram considerados os mais sábios, não necessariamente os mais engraçados. Imaginei que, com o passar do tempo, talvez eu pudesse realmente comprovar uma hipótese de que naquela academia estavam alguns dos mais rabugentos dentre aquela gente.

Procurei pelos antropólogos e descobri, espantado, que só havia um. Ele fez questão de me conhecer e o encontro foi agradavelmente patético. Não me fez perguntas, só me perscrutou dos pés à cabeça, me dava leves tapinhas e me olhava fixamente para me fazer rir. Toda sua curiosidade parecia focalizar-se na forma de me surpreender e divertir. Anotava com rabiscos ininteligíveis numa grande lousa. Às vezes parava num gesto meio cômico de pensador e tornava a me investigar, tirando imaginariamente as minhas medidas. Não me foi útil em informações.

A economia, obviamente, girava em torno da indústria do entretenimento. A agricultura estava limitada, em parte pela tradição, em parte pelo clima, ao plantio de milho - exclusivamente para a produção de pipoca. Mas também prosperava a indústria do vestuário, sendo referência não em luxo, mas em extravagância. A grande dificuldade estava em disciplinar a mão de obra.

A propósito do governo, nele está há bom tempo instalado um palhaço bem velho, que já perdeu muito de sua flexibilidade e agilidade. Mas o seu grande prestígio é o que faz com que todos se lembrem das regras básicas da palhaçaria. Talvez eu tenha compreendido que, no meio da agitação e da velocidade daquele cotidiano ele represente outra relação com o tempo (e com a gravidade). Percebi que ele andava sempre mais lento que os demais. Governava com um conselho de anciãos, o que me fez entender a regra política fundamental do lugar. Fiquei admirado pelo fato de que eles tinham realmente tempo para ouvir, o que era raro nas conversações - ordinárias ou não, do povo em geral - onde se falava de tudo e de todos, mas nenhum assunto era concluído. Ademais, não precisavam se exibir tanto a esta altura, já que passaram a vida naquele jogo de apresentações e representações que fazem o espetáculo constante e com requisitos de risos e aplausos.

Curioso, fiquei até o carnaval. E foi surpreendente, alimentando ainda mais em mim a sensação de ver minha própria terra invertida num espelho convexo. Ao contrário de tudo o que havia conhecido até então, foi nesta ocasião que pude ver toda gente sair às ruas sem o colorido e sem o alarido habituais. Andavam devagar, cumprimentavam-se com mesuras e reverências contidas e quase solenes, saindo em longos cortejos meio sonolentos. Estampavam seus rostos com uma expressão melancólica.

Em minha leitura, permitiam-se em breves dias o que lhes era reprimido e vedado ao longo do ano. Mas essa explicação não me satisfez e fiquei a recalcular muitas hipóteses. Ainda que jamais a confirme, a minha predileta dita que é ali, neste intervalo, que pulsa a verdadeira vida e o verdadeiro caráter dessa gente, uma pausa na permanente representação compulsória. A menos que tudo seja apenas fantasia e alegoria, o que me confunde e me joga no terreno das ilusões. 

Enquanto estava absorto nestes pensamentos, caiu em minhas mãos o jornal do dia. Fui surpreendido por um artigo escrito pelo antropólogo local, sobre os eventos carnavalescos, mostrando uma veia filosófica inesperada. Dentre outras coisas, dizia ele: "nossa gente não saberia o que é a alegria sem a tristeza; uma alegria radical só se cumpre em relação às mais profundas tristezas, mas temos que lembrar que nem uma nem outra definem o nosso ser. Elas são tão somente possibilidades". E foi o que aprendi.


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