Márcio Simeone
Cadeira n.º 8
Grande foi a minha emoção de
chegar à terra dos palhaços. Um lugar feliz e movimentado. Tudo era
espetacular, ou melhor, qualquer coisa se transformava imediatamente em
espetáculo. Muito embora houvesse poucas surpresas, porque quase tudo era
previsível, todos reagiam como se observassem o que se passava pela primeira
vez. Uma constante algaravia sonora de tambores, tarois, cornetas e apitos,
entremeada por risadas menos ou mais agudas. Era uma diversão ilimitada.
As pessoas eram dotadas de grande
agilidade corporal e caiam ao chão sem parar, levantando-se lépidas e
fagueiras. Zombavam umas das outras, mas sem deixar ressentimentos. No máximo
reagiam com bofetões rocambolescos que arrancavam gargalhadas - e logo se
reconciliavam.
Todo mundo estava preocupado em
se mostrar. Assim, a vida nas ruas era bem intensa. Havia uma profusão de
cores, também, com pouco espaço para os tons pastéis, menos ainda para os de
cinza. Todos os gestos eram largos e incontidos, bem como a falação, numa
alegre cacofonia. A princípio classifiquei esses comportamentos como
exagerados. Mas logo os associei aos exageros da minha própria terra, talvez
até menos alegres do que esses, decidindo-me, então, a focalizar nos detalhes
mais peculiares.
As crianças são barulhentas e
suas brincadeiras desajeitadas. Adolescentes sempre exibem algum adorno que os
diferenciem dos adultos e das crianças. Suas brincadeiras e jogos costumam, no
entanto, ser mais agressivos, quem sabe testando os limites de suas interações
e a paciência e o aparente bom humor dos pais. Pude ver uma juventude inquieta,
mas sem interrogações quanto ao futuro como as que observo na minha terra.
Afinal, se dão conta de que querem ser como os pais e todos riem juntos do seu
destino comum.
Passado algum tempo, fiquei
decididamente confuso. Já não conseguia definir o que era toda aquela alegria e
agitação, se uma felicidade genuína, fartamente evidenciada, ou só uma
representação de forma a manter essa aparência. Cheguei mesmo a pensar que toda
essa demonstração seria dirigida só a mim, encenada para o meu olhar
estrangeiro, já que, entre os nativos, deviam saber bem melhor o que lhes
passava no fundo da própria alma.
Conheci os estudiosos da
universidade local. Ao primeiro contato, não me pareceram levar a sério a
produção de conhecimento. Ou, pelo menos, não tanto quanto eu, que me dedico à
ciência com toda devoção. Não estudavam a sociedade, então não se arriscavam a
explicar por que aquela terra era assim configurada. Gostavam de teorizar sobre
os objetos. Mas nunca colocavam em questão seu próprio comportamento, motivo
pelo qual a psicologia nunca prosperara. Pensando bem, acho que vi ali mais
arte que ciência. Seja como for, lá se encontravam os que eram considerados os
mais sábios, não necessariamente os mais engraçados. Imaginei que, com o passar
do tempo, talvez eu pudesse realmente comprovar uma hipótese de que naquela
academia estavam alguns dos mais rabugentos dentre aquela gente.
Procurei pelos antropólogos e
descobri, espantado, que só havia um. Ele fez questão de me conhecer e o
encontro foi agradavelmente patético. Não me fez perguntas, só me perscrutou
dos pés à cabeça, me dava leves tapinhas e me olhava fixamente para me fazer
rir. Toda sua curiosidade parecia focalizar-se na forma de me surpreender e
divertir. Anotava com rabiscos ininteligíveis numa grande lousa. Às vezes
parava num gesto meio cômico de pensador e tornava a me investigar, tirando
imaginariamente as minhas medidas. Não me foi útil em informações.
A economia, obviamente, girava em
torno da indústria do entretenimento. A agricultura estava limitada, em parte
pela tradição, em parte pelo clima, ao plantio de milho - exclusivamente para a
produção de pipoca. Mas também prosperava a indústria do vestuário, sendo
referência não em luxo, mas em extravagância. A grande dificuldade estava em
disciplinar a mão de obra.
A propósito do governo, nele está
há bom tempo instalado um palhaço bem velho, que já perdeu muito de sua
flexibilidade e agilidade. Mas o seu grande prestígio é o que faz com que todos
se lembrem das regras básicas da palhaçaria. Talvez eu tenha compreendido que,
no meio da agitação e da velocidade daquele cotidiano ele represente outra
relação com o tempo (e com a gravidade). Percebi que ele andava sempre mais
lento que os demais. Governava com um conselho de anciãos, o que me fez
entender a regra política fundamental do lugar. Fiquei admirado pelo fato de
que eles tinham realmente tempo para ouvir, o que era raro nas conversações -
ordinárias ou não, do povo em geral - onde se falava de tudo e de todos, mas
nenhum assunto era concluído. Ademais, não precisavam se exibir tanto a esta
altura, já que passaram a vida naquele jogo de apresentações e representações
que fazem o espetáculo constante e com requisitos de risos e aplausos.
Curioso, fiquei até o carnaval. E
foi surpreendente, alimentando ainda mais em mim a sensação de ver minha
própria terra invertida num espelho convexo. Ao contrário de tudo o que havia
conhecido até então, foi nesta ocasião que pude ver toda gente sair às ruas sem
o colorido e sem o alarido habituais. Andavam devagar, cumprimentavam-se com
mesuras e reverências contidas e quase solenes, saindo em longos cortejos meio
sonolentos. Estampavam seus rostos com uma expressão melancólica.
Em minha
leitura, permitiam-se em breves dias o que lhes era reprimido e vedado ao longo
do ano. Mas essa explicação não me satisfez e fiquei a recalcular muitas
hipóteses. Ainda que jamais a confirme, a minha predileta dita que é ali, neste
intervalo, que pulsa a verdadeira vida e o verdadeiro caráter dessa gente, uma
pausa na permanente representação compulsória. A menos que tudo seja apenas
fantasia e alegoria, o que me confunde e me joga no terreno das
ilusões.
Enquanto estava absorto nestes
pensamentos, caiu em minhas mãos o jornal do dia. Fui surpreendido por um artigo
escrito pelo antropólogo local, sobre os eventos carnavalescos, mostrando uma
veia filosófica inesperada. Dentre outras coisas, dizia ele: "nossa gente
não saberia o que é a alegria sem a tristeza; uma alegria radical só se cumpre
em relação às mais profundas tristezas, mas temos que lembrar que nem uma nem outra definem o nosso ser. Elas são tão
somente possibilidades". E foi o que aprendi.
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