19 de dezembro de 2025

Noite da Purificação: o Natal na visão de uma certa gotinha d'água

Conceição Cruz
Cadeira n.º 4



Em uma paragem distante, bem no deserto - entre a África e a Ásia - havia um poço de águas amargas[1]...

Uma gotinha estava lá há séculos: ela não sabia o motivo pelo qual ela e seu grupo de amigos foram parar bem ali, agarrados às pedras, cheios de amargura, no mais profundo daquele lugar.

A todo custo, evitavam a Luz[2], egoisticamente recobertos por uma carapaça de minerais, mantendo o sabor amargo e desagradável ao paladar humano.

Por vezes, ouvia dizer que as águas mais leves, mais rentes à superfície - aquelas mais próximas à Luz - elevavam-se com maior facilidade...

Da sua posição, não percebia claridade alguma e mais e mais fechava-se naquele local de trevas. Acostumada a viver ali, presa – vez por outra - ficava absorta, meditando sobre a natureza da realidade e as perspectivas de passado e de futuro...

No seu interior, ela sabia de sua importância para a vida...

Porém, chamava-lhe a atenção o papel das águas destruidoras, como ocorrera no dilúvio...

Havia uma contradição ferrenha entre aquele instante - de estar no fundo, ensimesmada em seu egoísmo, pois ninguém tiraria um pingo dali para beber - e de sua essência renovadora como fonte de vida...

Nada de novo acontecia: o líquido não se renovava.  Vivia em verdadeira estagnação...

Não sabemos “por qual carga d’água”, nasceu em seu âmago o desejo de transformar-se, de cumprir o seu verdadeiro papel, de ser fonte de vidas e de Vida!

Diante de tanta mesmice e de falta de novidades, caiu em um sono profundo... Sonhou com o Messias e fatos futuros ligados às águas: em sonho, teve a visão do Batismo d’Ele no Rio Jordão e da cura do cego, juntando argila e água, devolvendo-lhe a visão. Vislumbrou também quando Ele caminhou sobre as águas, acalmou a tempestade... A pesca milagrosa além de tantos outros milagres... Milagres. Muitos milagres!

Numa noite, voltou a sonhar com aquele Ser de tamanho imensurável, fazendo vibrar todos os seus átomos... Um mundo de Luz e Paz!

As outras partículas à sua volta não admitiam a possibilidade de um mundo cheio de claridade...

Sempre que ela sonhava com o Mestre, mais e mais crescia o seu desejo de se libertar.

Intimamente, na busca por respostas, compreendeu que era importante vivenciar os diferentes ciclos de sua evolução...

Mas como mudar? Mudar-se? Como sair daquele estado?

Por meio da interpretação de seus sonhos, reconheceu-se e também vislumbrou outras possibilidades... Porém, não compreendia a voz do Grande Silêncio e desiludiu-se... Ao desiludir-se, tornou-se mais leve, leve, leve...

Certo dia, despertou sentindo-se cheia de docilidade, a qual repercutia em todo o ambiente. Algo diferente havia acontecido: aquele mundinho foi tocado por um elemento de um outro reino - por uma árvore[3] - a qual ingressou nas entranhas daquele abismo, trazendo-lhe a graça de tornar tudo mais dócil e mais doce...

Ela nem bem havia sentido direito aquele novo estado, buscando entender a importância da conexão íntima e expansão da consciência, já estava lá no alto, na superfície: evaporou-se formando nuvens, iniciando um ciclo de mansidão de subir aos Céus e de descer à Terra...

Nessas idas e vindas, lapidou-se, deliciou-se em servir, em ser útil a todos os Reinos, fazendo disso a Razão de sua existência, aumentando ainda mais o seu entusiasmo a caminho da iluminação.

Em uma bela noite, observou no Céu um sereno clarão que irradiava por toda a Terra...

Lembrou-se da época das sombras: percebeu um friozinho em seu ventre...

De forma compulsiva, começou a chorar: gigantesca era a sua emoção...

Naquela Noite Feliz, a gotinha e suas lágrimas, quando perceberam, já haviam descido em um suave sereno e já estavam em uma bacia de argila, lá na gruta de Belém entre os animais: era Natal!

Embebidas em um tecido suave, banharam com ternura o corpinho daquela Criança que acabara de nascer...

Naquele momento, ela sentiu uma intensa purificação, alinhada à uma vontade férrea de seguir as mensagens recebidas em seus sonhos, comprometendo-se a cumprir o ideal que trazia dentro de seu ser[i].

No mundo atual, aquela gotinha - despida de todo e qualquer egoísmo - vibrando amor - trabalha no meio dos homens, contribuindo para o redespertar da alma e do coração deles, ajudando a fomentar a ideia de um Grande Propósito: ser fonte de Vida e de vidas para a família, para a sociedade, para o planeta e para todo o Universo...



[1] Êxodo 15:23 - Então chegaram a Mara, mas não puderam beber das águas²³ de lá porque eram amargas. Esta é a razão porque o lugar chama-se Mara.

[2] Acredita-se que ela esteve presente no momento da origem, quando “o Espírito pairava sobre as águas”, antes mesmo da criação da Luz, imersa em profundas trevas...

[3] Imagine uma multidão de israelitas caminhando por 3 dias no deserto e ao chegar em um oásis, encontrar água salobra, amarga? Moisés, à frente, ouviu as reclamações, pediu instrução divina e foi orientado a jogar  uma árvore na água. Ele, de forma dócil, ou seja, submissa ao plano divino, jogou o lenho e a água tornou-se doce.  Para saber mais, veja na Bíblia Êxodo 15:23-25. 


[i] Será que, desde aqueles dias, ela passou a testemunhar os ensinamentos Crísticos, participando de eventos marcantes? A chamada de seus discípulos, a noite de lava pés, as lições às margens do mar da Galileia e tantos outros fatos?

Quem sabe, no último instante, quando do peito do Messias brotaram sangue e água, tocado por uma lança - ela estava dentro dele e saiu?

E, dias após, vivificou-se no Mestre Ressuscitado, quando Ele comeu peixe assado - animal que vive na água - com seus discípulos?

Sabemos que o Mestre, verdadeiramente, ressuscitou.

E aquela gotinha?

Qual homem sabe dizer sobre o paradeiro dela, agora, cumprindo os seus ciclos entre nós?

Talvez aquele que, espiritualizado e ansioso por purificação, busque a Fonte de Água de Vida Eterna?

Seguramente, esse homem plenificado, essa nova criatura - junto “Àquele que Vive” - a encontrará.

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Imagem: criada por IA generativa 

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 Amados leitores,

Aproveito o momento para agradecer a cada um o tempo dedicado à leitura.
Agradeço-lhes também as mensagens e as críticas amigas emitidas durante a nossa jornada, especialmente, no ano de 2025, que muito contribuíram para as nossas reflexões e alegria.
Desejo-lhes um Santo Natal e um 2026 repleto de bênçãos.
Forte e fraternal abraço,

Conceição Cruz.


18 de dezembro de 2025

Verbum Nascitur

Márcio Simeone
Cadeira n.º 8


Havia, em lugar distante, uma palavra pronta para nascer. Sem idioma, tom ou cor, pura, simples, de fácil pronúncia, pronta a ser sentida, ouvida e interpretada, vinda de grande e profética inspiração. Já sonhava incorporar-se a um extenso, caótico e confuso vocabulário, desejosa de atrair e reunir para si o que de melhor houvesse nos dicionários, dando-lhes uma ordem reveladora e potencialmente transformadora – doce e suave utopia. Gestada na dor, na pobreza e no fundo das contradições deste mundo, iria em pouco nascer consciente e propositada, sabedora de que a palavra mais bela não é necessariamente a mais sonora, nem a mais poética: é a mais justa. Esta é aquela que cabe – que tem as dimensões exatas para a sua missão principal: o diálogo e o entendimento. Queria surgir em paz e sem glórias, exato oposto daquelas que irrompiam com estrondo e disputavam lugar e poderes de significação, para que dela dessem conta aos poucos e lograsse se incorporar na gramática da ação cotidiana, dissolvendo-se mansa e humildemente em toda a natureza. Uma palavra sempre é prenunciada por outras, por isso, todas podem ser proféticas. Esta, prestes a ganhar a luz, queria ser anúncio, sinal de fé e de esperança na linguagem e naquilo que existe além, no vasto universo do sentido. Em breve, cada fonema, cada sílaba que a compõe, estará, então, disponível para pronúncia, participando da eterna batalha entre o dito e o entendido. Lutará para ser percebida, sujeitando-se aos erros e incompreensões, assim está escrito. Mas algo, numa noite remota, já dizia que aquele simples vocábulo ganharia corpo e vozes, seria grifado e sublinhado, ressurgido sempre nas expectativas de graça e infinitude.

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Imagem: criada por IA generativa

 


 

Posse acadêmica e homenagem especial

 

Fátima Peres, a segunda da esquerda para a direita,  tomando posse na Academia de Letras, História e Genealogia da Inconfidência Mineira.

A Academia de Letras, História e Genealogia da Inconfidência Mineira realizou, no dia 13 de dezembro de 2025, a solenidade de posse da 4ª Turma Acadêmica, em cerimônia realizada no Palácio da Grande Loja Maçônica de Minas Gerais. Ao todo, 11 novos acadêmicos foram empossados, celebrando o fortalecimento da cultura, da história e da genealogia mineiras.

Entre os empossados, destaca-se a acadêmica da Academia de Letras de Pará de Minas (ALPM), Maria de Fátima Moreira Peres, que passou a integrar a Academia de Letras, História e Genealogia da Inconfidência Mineira como fundadora e titular da cadeira nº 99, cujo patrono é o jornalista Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho. Na ALPM, Fátima Peres ocupa a cadeira nº 15, que tem como patrono Vinícius de Moraes.


Na mesma ocasião, a cerimônia também foi marcada por uma justa e emocionante homenagem a mulheres que se destacam por sua atuação na sociedade. A presidente da Academia de Letras de Pará de Minas, Carmélia Cândida, foi reconhecida como “Mulher Notável”, tendo seu currículo apresentado ao público e sendo agraciada com o Diploma de Honra ao Mérito Inconfidente Hypólita Jacintha Teixeira de Mello – Mulher Notável de Minas Gerais. Por impossibilidade de comparecimento, Carmélia Cândida foi representada na solenidade pela acadêmica Maria de Fátima Moreira Peres, que recebeu a homenagem em seu nome.

A Academia de Letras, História e Genealogia da Inconfidência Mineira, fundada em 8 de outubro de 2023, é uma instituição cívica, cultural, educacional e filantrópica, criada pela Ordem dos Cavaleiros da Inconfidência Mineira, com raízes históricas ligadas às antigas tradições de Vila Rica e ao movimento que marcou a história do Brasil: a Inconfidência Mineira. 

17 de dezembro de 2025

Anunciação

Lígia Muniz
Cadeira n.º 13


Um anjo desceu do céu.
Gabriel!

Visitou, de Deus, a alegria.
Maria!

Do sim, desce a vida,
nasce a luz.
Jesus!

 

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16 de dezembro de 2025

Nem sempre tudo vai bem

Paulo Roberto dos Santos
Cadeira n.º 17

Música e letra do acadêmico Paulo Roberto dos Santos e Mano Men:

 

 

5 de dezembro de 2025

Explosão e caos

Márcio Simeone
Cadeira n.º 8
 

Com o ar denso e úmido, o sol cede lugar aos aguaceiros. Meu dezembro é dos fins de tarde tempestuosos, aos quais o calor do dia quase não cede. O frio está só nas representações exógenas de neve polar e de um velho embrulhado em roupa vermelha, quente como a visão intempestiva de uma lareira acesa. Minha infância vivia este mês com entusiasmo, um período de intensa ebulição. De súbito, toda gente se põe a correr pra todo lado, as ruas se enchem, ficam mais iluminadas e explode o consumo. Essa detonação aniquila qualquer pretensão de tranquilidade, a culminar com o som dos foguetórios da virada do calendário. É o colapso barulhento do ano envelhecido e a  inauguração estrondosa de um novo, promissor, onde agitamos nossos corpos numa overdose festiva. Também um tempo que evoca esquecidas solidariedades, por um espírito que nos comove, como se o mês, na lembrança cristã, nos despertasse um enorme desejo de sermos um, em atenção e presença. Com tudo isso, nos traz, em paradoxo, a consciência de tudo o que é abundante e de tudo o que nos falta. Assim, ele se faz alegre e triste em simultâneo. Meu dezembro tem gosto de sorvete de limão.

 

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Imagem: criada por IA generativa