Lendo trechos de uma conversa datada
de 8 de abril de 1946 entre Leon Goldensohn, médico e psiquiatra, e Rudolf Höss
(ou Hoess), prisioneiro de guerra e ex-comandante de Auschwitz, impressionou-me
a resposta dada por Höss como justificativa para os atos praticados naquele
campo de extermínio. Disse ele a Goldensohn: “...quando Himmler nos dizia algo,
era tão correto e natural que obedecíamos cegamente.” Heinrich Himmler[1],
superior hierárquico de Höss, é considerado o idealizador da chamada solução
final para a questão judaica. Ele dizia que, se os alemães não exterminassem os
judeus naquele momento, logo seriam eles os exterminados pelos judeus. Essa
argumentação bastava para que seu subordinado, responsável pelo programa de
extermínio em Auschwitz, cumprisse suas ordens sem questionar.
A obediência cega de Höss lembrou-me
algo presenciado pelo João em 1980 ou 1981. Estávamos sob o governo do último
presidente da República do período militar[2]. Na época,
João e eu éramos namorados. Ele estava na escola de engenharia da UFMG, onde
estudava, quando viu um cartaz chamando para um encontro com Dom Hélder Câmara[3] na
Universidade Católica de Minas Gerais, atual PUC-Minas. Seria a oportunidade de
conhecer aquele grande arcebispo, pequeno só na estatura, amado por muitos e
odiado por outros tantos.
E foi-se o João, pegar o ônibus que
o levaria até o Coração Eucarístico, ansioso por escutar Dom Hélder no
auditório, conforme anunciado no cartaz. Lá chegando, para sua surpresa e
estranhamento, cadê Dom Hélder? Não estava no auditório. Corre daqui, corre
dali, João percebe uma movimentação de gente. Era um grupo de pessoas
conduzindo o arcebispo para algum lugar improvisado, aonde ele pudesse falar.
Ficara evidente que se tratava de um evento organizado apenas por integrantes
do Diretório Acadêmico, sem o apoio da instituição.
Encaminharam-se todos para um dos
amplos corredores do prédio mais antigo e ali se instalaram, o pontífice ao
centro, ladeado por alunos e alguns admiradores. O assunto não podia deixar de
ser outro senão a realidade sociopolítica do Brasil. E por conhecê-la bem, Dom
Hélder denunciava, corajosamente, as arbitrariedades do regime militar:
violação recorrente dos direitos humanos, perseguição política a opositores,
cerceamento da liberdade de expressão de estudantes, professores, jornalistas,
artistas, religiosos etc.
Bem se diz que profeta é quem
denuncia, mas também anuncia. Depois da denúncia, o anúncio solene: “Ninguém
deve obediência cega a ninguém!”. Imediatamente, um estudante interpela
o arcebispo: “Mas, senhor, nem a Deus?!”. A resposta vem categórica: “Nem a
Deus!”. Silêncio e espanto…ouvintes surpresos e suspensos, aguardando
uma explicação convincente para aquela declaração inesperada, saída da boca de
um sacerdote. E ele conclui: “Deus não quer obediência cega de ninguém!”
Para Dom Hélder, se Deus exigisse de
nós a obediência cega estaria impedindo o exercício de nossa liberdade, dom que
nos concedeu. E como exemplo de uma obediência
consciente, falou da atitude de Maria, que escutou o anúncio do anjo, mas
perguntou como tudo aconteceria, antes
de aceitar sua missão.
Isso me lembra a
etimologia do verbo obedecer, que
vem do latim, OB + AUDIRE, e
significa “escutar com atenção”.
Obedecer não significa atender a uma ordem de forma irrefletida, como muitos de
nós podem pensar. Pelo contrário, é atitude que requer uma escuta atenta como
pressuposto para uma livre e consciente adesão. Ao citar a obediência de Maria,
como exemplo para nós, Dom Hélder traz exatamente esse sentido original do
termo.
De minha parte, penso na obediência
cega como negação do amor de Deus. Não havendo liberdade para escutar,
questionar, discernir, decidir, agir/reagir e de responder (responsabilizar-se)
por suas escolhas, o ser humano jamais poderia expressar em si a imagem e a
semelhança de seu criador. Devotar obediência cega a Deus não é um gesto de
confiança nele, mas uma incompreensão de sua vontade. Se cremos que Deus é
Amor, como diz o apóstolo João em sua primeira carta (1 Jo 4, 8), a obediência a ele só
pode nascer da livre vontade do ser amado.
Jamais tive o prazer de ver e ouvir
Dom Hélder em carne, osso e espírito, mas sei de seus ensinamentos por meio de
livros, vídeos, áudios e fotografias. Eles me apresentaram um ser humano
íntegro, ético, de voz firme, discurso claro e gestos vigorosos. Lembro-me da
forte impressão que este encontro com Dom Hélder causou no João. Ele ficara
deverasmente extasiado com o que viu e ouviu e me deixara deverasmente
penalizada por não ter tido essa oportunidade.
Em
2015, o Dicastério para a Causa dos Santos da Santa Sé emitiu parecer favorável
para o início do processo de beatificação e canonização de Dom Hélder,
conferindo-lhe o título de “Servo de
Deus”, como é de praxe. No entanto, ao longo de sua vida, ele recebeu
outros tantos títulos. Foi chamado de “Irmão
dos pobres”, de “O Dom da paz” -
indicado ao Nobel da paz por mais de uma vez, não conquistou o prêmio por
intervenção de militares - e também de “Bispo Vermelho”. Este último lhe foi conferido por políticos e militares
descontentes com sua atuação incansável na defesa dos direitos humanos,
dentro e fora do país. Para estes, seguir o evangelho como Cristo propõe é se
declarar comunista.
Hoje se sabe que Dom Hélder fora
proibido, pelos sucessivos governos militares, até mesmo de frequentar as
universidades brasileiras. Por isso, talvez, o encontro com os alunos na
Católica não tivera o apoio da instituição. Era uma forma de tentar calar sua
voz que nunca se calou e que reverbera ainda hoje pelas vozes de muitos outros.
Para mim, Dom Hélder é fonte de
inspiração em tempos de tanta confusão e distorção dos valores humanos,
inclusive por parte de religiosos e leigos cristãos. O termo pontífice, uma
distinção conferida a bispos, arcebispos e cardeais, significa “Construtor de pontes” e é como eu chamaria aquele que construiu
pontes por sobre muros e trincheiras. O mandamento de Cristo, “amai-vos como eu vos amei”, era a sua
medida, e ele sabia que o caminho do amor só pode ser trilhado na liberdade,
assim como dizia Agostinho de Hipona: “ama
e faze o que quiseres!”
[1] Heinrich Himmler – 1900-1945 - líder nazista alemão sob a
autoridade apenas de Hitler, comandante das forças de elite (SS) e da polícia
secreta (Gestapo), coordenador das operações dos campos de
concentração/extermínio e responsável pela execução de milhões de prisioneiros.
[2] João Batista de Oliveira Figueiredo – 1918-1999 - militar e político brasileiro, o 30.º presidente do Brasil
(1979 a 1985) e o último presidente do período da ditadura militar.
[3] Dom Hélder Pessoa Câmara OFS – 1909-1999 - arcebispo emérito de
Olinda e do Recife, fundador da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
(CNBB), do Conselho
Episcopal Latino-Americano (Celam) e das Comunidades Eclesiais de Base
(Cebs).