21 de novembro de 2025

O sonho esculpido

Márcio Simeone
Cadeira n.º 8

Na solidão do meu ateliê, tenho diante de mim um bloco inerte de mármore. Como sempre faço, deixo primeiro que fale comigo. Fico a escutá-lo horas a fio, com paciência, e a admirar sua alva superfície, com veios de cinza que nela desenham com suavidade toda uma história da terra, as recordações pétreas das montanhas e, por que não dizer, das vagarosas mudanças geológicas através das muitas eras de formação. Uma bela rocha como esta, já tem valor por sua mera existência mineral e milenar, uma criatura ancestral que é obra-prima dos tempos. Foi arrancada do seio da terra. Já não é mais a própria pedra, mas matéria bruta deslocada, cortada e aparada, em busca de seu sentido. Agora fico ali, absorto e reverente, a buscar desvendar sua vontade e seu destino. Por vezes me demoro em compreender o que me mostra e o que me esconde, e em adivinhar o que nela está adormecido, mas espero o momento exato de revelação, que é aquele onde os desejos deste bloco, em sua singular beleza, se encontram com os meus. É a hora de uma mágica inspiração mútua, onde transcendemos nossa materialidade. No meu breve transe, esculpi pela imaginação neste mármore os meus sonhos. Estes ganham volume e beleza, em pensamentos leves que vão dando um delicado relevo e contornos de eternidade às nossas almas. Então, é hora de tomar do cinzel e trabalhar a forma libertadora. Conforme se despregam os fragmentos, vai-se liberando a alma aprisionada bem nas entranhas do mármore e uma imagem vai se figurando alegre entre os meus dedos. Este bloco agora está quieto. Deixa-se apenas mostrar, transfigurando-se, lentamente. Também eu me calo e, determinado, deixo-me fundir em experiência àquela imagem sonhada em comum. Assim, enlevado, entro em novo estado, no qual meu corpo se dilui no ato que executo. Neste novo transe, já não sei mais se estou a esculpir a pedra ou se ela é que está a me moldar. Nem me importo. Já estou sonhando nela! A obra, uma vez acabada, é um monumento de mim mesmo, memorial e onírico. Não é uma escultura estática, mas um mapa sem peso algum, capaz de dançar livre, solta no espaço. Para você, não é uma obra silenciosa, mas uma contadora de histórias, que diz de uma alma que se reconverte em matéria e de uma aventura íntima que conecta as mãos à mente, a mente à terra e a terra ao cosmos.

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Imagem: criada por IA generativa 

2 de novembro de 2025

A hora e a vez de Constança

Geraldo Phonteboa
Cadeira n.º 14

Hoje apresento a vocês a história de Constança. Uma mulher preta, escravizada, que afirma que não havia sido matriculada, conforme determinava a Lei de 1871 - que é a lei do Ventre Livre. E para ela o seu Senhor não havia feito tal matrícula. Nesse sentido, a petição inicial é muito simples, objetiva e direta. Ou seja, não há nenhum outro argumento. Somente isso, não foi matriculada pelo seu senhor e, portanto, teria o "direito" à liberdade.

Em todo caso o Juiz Municipal, aceita a petição e nomeia um Curador e um depositário. E o processo se inicia. Em seguida o Juiz Manoel Joaquim Cavalcanti de Albuquerque, solicita a verificação através do livro de matrícula do município. E ao fazer isso, vem a surpresa: Francisco Alves da Cunha, apontado como Réu no processo, isso porque Constança estava sob o domínio deste senhor., não era de fato senhor de Constança, pelo menos não era isso encontrado no livro de Matrícula de Escravos do Município. O Verdadeiro dono de Constança era outro. Veja a Certidão de Matrícula:

Diante das informações desta certidão, o Juiz não tinha muito o que fazer, a não ser suspender tanto o depósito, bem como a curatela de Constança, para depois encerrar o processo. Então expede o mandato para que os oficiais de justiça ir até a casa do depositário buscar a escrava e entregá-la ao seu verdadeiro dono. E isso acontece. O oficial de Justiça vai até o distrito de Mateus Leme, em casa do curador, buscar a escravizada Constança. E ela não se encontrava na casa do depositário, mas que estava em sua propriedade na Fazenda da Sesmaria, naquele distrito. Chegando à fazenda, o depositário rejeita a entrega de Constança, por ela já ser livre, pois já havia recebido "Carta de Liberdade", que ela, Constança, havia dado ao seu senhor, José Nunes da Costa, por esta liberdade.

Os oficiais de Justiça retornam ao Juiz e informa a situação. O Juiz não aceita aquela situação e envia novamente os oficiais, até à Fazenda Sesmaria para trazer a escravizada, e que apresente a carta de liberdade. Novamente o depositário recusa entregar Constança aos oficiais, alegando que não poderia entregar "pessoa livre" contra a vontade dela.  Informa também aos oficiais que ele não tinha em seu poder a referida "Carta de Liberdade". 

Diante desta informação, o Juiz faz intimação ao depositário e ao Curador para apresentar em audiência o documento que garantia a liberdade de Constança, sob as pena da Lei. E então, em 04 de agosto de 1887, em audiência pública, a Carta de Liberdade de Constança é apresentada ao juiz. Que após verificada a veracidade da mesma, declara Constança como mulher livre. Mas, por que a relutância em apresentar esta carta por parte do depositário? Por que ele resistiu tanto entregar esta carta ou apresentá-la ao juiz? E a resposta está na própria carta. A carta de liberdade foi passada em 21 de julho de 1882, 5 anos antes de Constância entrar na justiça. Ou seja, esta demora do depositário em entregar a carta e até mesmo devolver Constância ao seu dono estava no fato de que ele tinha intenções em continuar explorando o trabalho de Constança. Ele já era livre, mas estava em sua fazenda, prestando algum tipo de serviço. E foi por isso também que o Réu no Processo, Francisco Alves da Cunha, também não podia matriculá-la, pois se poderia descobrir que ela já era livre. Era conveniente para os senhores tentar encobrir esta situação. 

Dá para imaginar que muitos escravizados, mesmo já com a carta de alforria, não tinha garantias de sua liberdade, sendo preciso recorrer à justiça para conseguir, de fato, ser livre, e muitos escravizados não saberia como fazer isso. Constança torna-se assim um exemplo de como a informação pode ser útil na garantia de seus direitos. 

História como esta encontram-se a espera de pesquisadores e leitores no Acervo do Museu de Pará de Minas - MUSPAM. 

Veja abaixo o Podcast sobre este processo:

 

 

1 de novembro de 2025

Ensaio geral

Márcio Simeone
Cadeira n.º 8
 
 

 

No meu novembro, é possível adivinhar a fúria do verão, com cheiro de mangas e jabuticabas. Começa com o ritual da memória e do respeito aos que se foram. Este ato não se encerra nas lápides frias, mas também alcança as permanências. Assim começamos, nutridos pelas nossas melhores e mais calorosas lembranças, e sentimos que é a hora de renovarmos os pactos de nossa existência, sempre tão frágil, e de nos abrirmos para o que ainda haverá de vir. É uma espécie de aliança entre passado e futuro, que se molda tanto nas saudades quanto nas esperanças. Portanto, este é o meu mês do devir. Logo virão as festas, o novo ano, a nova estação. Já encontro nele o fluxo mais intenso e as potencialidades do que seremos no ano que se prepara. Só um ensaio. É este o momento que trago à consciência os fins e os fechamentos dos meses sobre si mesmos e as urgências de fazer o que até então foi procrastinado - sempre mais do que gostaria. Na minha infância, a simples expectativa do término das atividades letivas já me enchia de entusiasmo. Novembro foi sempre esse logo-ali, um quase-lá, onde tudo de bom está tão perto, mais fácil de alcançar, o que serve para nos aplacar a nostalgia, curar nossa ansiedade e nos encher de novas promessas. Vamos deixando de ser, para nos prepararmos para ser mais.

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Imagem: gerada por ferramenta de IA


21 de outubro de 2025

ALPM lança Bianuário 2024-2025


 A Academia de Letras de Pará de Minas (ALPM) realiza, no dia 31 de outubro de 2025 (sexta-feira), às 19 horas, o lançamento do Bianuário 2024–2025. O evento será realizado no Auditório I da Faculdade Católica de Pará de Minas (Fapam), voltado a estudantes da instituição, mas aberto ao público em geral. A programação inclui um bate-papo com acadêmicos e a distribuição gratuita de exemplares.

O Bianuário é uma publicação tradicional da ALPM, editada desde 1998, reunindo produções literárias dos acadêmicos e acadêmicas. Em 2025, a instituição completa 28 anos de fundação, somando quase três décadas de promoção da literatura, da arte e da cultura em Pará de Minas. Desde os primeiros anos, cada edição do Bianuário reflete a diversidade criativa e a riqueza de perspectivas dos escritores que integram a Academia, reafirmando seu compromisso com o fomento à leitura, à escrita e ao acesso à cultura.

A nova edição tem um significado especial: é a primeira publicação após a instalação da Academia em sua sede própria, no Centro Literário Pedro Nestor, no segundo andar do histórico prédio cedido pelo município. Para celebrar esse marco, a capa traz uma aquarela do artista plástico Nelson Polzin, retratando a fachada do bem tombado que abriga a ALPM. Inspirado por fotografias antigas e pela atmosfera do lugar, Polzin recriou o edifício em traços que unem precisão arquitetônica e sensibilidade artística. O artista é natural do Rio de Janeiro e tem destacada atuação no cenário artístico nacional.

Mantendo sua tradição, a Academia de Letras de Pará de Minas oferece gratuitamente o Bianuário aos leitores, reforçando sua missão de difundir a palavra escrita como forma de resistência, memória e esperança.

 

2 de outubro de 2025

Abandono e contemplação

Márcio Simeone
Cadeira n.º 8
 
 

Não fosse pelo aniversário do meu pai e por Francisco e Aparecida, meu outubro seria um mês esquecido e esmagado entre a intensidade do seu predecessor e as urgências e burburinhos dos últimos dois meses do ano. Parece um viajante sem destino e sem agenda, que vive na penumbra do calendário. Ele se arrasta, abandonado nos entremeios da vida, nos interstícios dos meus cronogramas. Resignado, de oitavo virou décimo e resiste, na plena aceitação de seu destino e com lição de humildade franciscana. Neste espaço transitório é que ele caminha sem ser quase notado. Guarda assim a sua beleza discreta e faz seu caminho sem alaridos e sem companhia. Meu outubro é reflexivo, um convite aos pensamentos profundos e ao autoconhecimento. Um momento de abandono ao meu ermitério íntimo. O céu, carregado com a chuva que vem ao longe, é contemplativo e memorioso, que dá ao fim da tarde uma vontade de café com pão. Essa chuva que cai é texto, que dialoga com a alma, e um rito de limpeza espiritual.  Meu outubro derrama água, fresca e sonora, e possibilidades infinitas. É hora das expectativas.

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Imagem: gerada por ferramenta de IA

 

24 de setembro de 2025

Evento em Pará de Minas aborda a saúde dos fibromiálgicos, com participação de escritora da ALPM

 


O Movimento Mulheres de Fibro de Pará de Minas, com a Associação Nacional de Fibromiálgicos, promove o evento especial "A saúde dos fibromiálgicos - A vida na centralidade do discurso". A programação conta com palestras que abordarão os desafios de amenizar as dores do corpo e da alma, com a participação de Victor Guilherme Lage Ferreira, mestrando em Economia Criativa e da psicóloga e psicanalista Jaqueline de Cássia Sousa Moreira.

Na segunda parte do evento, o foco será a legislação e as políticas públicas, com a palestra "Pará de Minas à frente da Legislação Federal", ministrada pela subprocuradora jurídica da Câmara Municipal, Sheila Bastos e por Mariana Viegas, enfermeira coordenadora da APS. O objetivo é destacar os avanços legislativos locais no cuidado com os fibromiálgicos. O evento conta com realização e apoio institucional da Procuradoria da Mulher e das secretarias municipais de Saúde e Assistência Social, reforçando o compromisso com a causa.

O encontro também terá um momento cultural com o lançamento do hino do movimento, composto por Conceição Cruz, escritora e compositora, membro da Academia de Letras de Pará de Minas (cadeira nº 4) e apresentações de voz e violão.

O evento será no próximo dia 25/09, às 15h, na Câmara Municipal de Pará de Minas. As inscrições gratuitas devem ser feitas no link: https://forms.gle/ZMFHEZYH9ZVkRj9b8.

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Assista ao evento e à apresentação do Hino no vídeo abaixo:

 

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Veja a sequência da música ilustrada:









19 de setembro de 2025

Livrai-nos do mal, amém!

Francisco Vilas Boas
Cadeira n.º 20
 

Tempos atrás, li numa pichação de muro do Rio de Janeiro que dizia: “você olha da direita
pra esquerda e o Estado te esmaga de cima pra baixo”. A lembrança veio diante de um
episódio curioso: em tempos de polarização, quando o nós contra eles parecia insuperável,
deputados federais de esquerda e de direita, que se atacam semanalmente no Congresso,
uniram forças para aprovar, com urgência, a PEC da Blindagem.


Urgência de quê? Urgência para quem?
 

A PEC da Blindagem não discute o aumento da faixa de isenção do imposto de
renda, a revisão da escala 6x1, nem novos investimentos em saúde ou educação. Nada disso.
A pressa foi para aprovar regras que dificultam que parlamentares federais respondam por
crimes, condicionando a atuação da Justiça à autorização da própria Casa Legislativa.
 

Como disse o Prof. Mario Spangenberg, decano da Faculdad de Derecho y Artes
Liberales do Uruguay, “se você tem um direito e os demais não, então você não tem um
direito, mas um privilégio”.
 

Parece que alguns dos nossos “representantes” trabalham intensamente, não para
o interesse dos seus representados – mas para os seus fins particulares. Foucault, no conjunto
de textos "Um diálogo sobre o poder e outras conversas", já advertia que o poder é exercido às
custas do povo e que quem o exerce sempre encontra brechas para violar as regras que ele
mesmo cria. A PEC da Blindagem é um exemplo dessa lógica.


Como professor, sigo acreditando na educação como instrumento de transformação.
E não tenho dúvidas de que, quando estimula o pensamento crítico, ela nos impulsiona a
buscar soluções para reduzir privilégios e ampliar direitos, pois, como na frase atribuída a
Paulo Freire, “o sistema não teme o pobre que passa fome, teme o pobre que sabe pensar”.
 

É justamente o pensamento crítico que deve orientar nossas escolhas. Quem se
indigna com as desigualdades sociais, com o racismo, com as múltiplas formas de
discriminação e com o excesso de privilégios dos privilegiados, nas próximas eleições,
precisará refletir sobre quem deve ocupar o papel de representante.


Acredito que é nosso dever fazer da sociedade um lugar mais justo para se viver e
conviver. E penso que a educação é o caminho. Recorrendo mais uma vez a Paulo Freire, dou
eco à máxima de que “A educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas.
E as pessoas transformam o mundo”.

9 de setembro de 2025

Romualdo em busca de sua liberdade

Geraldo Phonteboa
Cadeira n.º 14

Imagine um homem negro, com 62 anos, não 62 anos quaisquer... 62 anos de cativeiro. Mesmo após publicada a Lei do Sexagenário, no ano de 1885, esperava que seu senhor lhe concedesse sua liberdade. Mas isso não acontece. Fica sabendo que seu senhor renova sua matrícula e declara que ele tinha a idade de 45 anos. 

Sentindo-se injustiçado, recorre à justiça e faz denúncia, solicitando a sua liberdade de "injusto cativeiro". E apresenta, em sua defesa, sua certidão de nascimento, passada  pelo vigário de Pitangui. Como não bastasse, teve ainda que arrolar testemunhas para comprovar, em juízo, que aquela certidão se referia de fato a ele, buscando contrapor ao documento de matrícula feita por seu senhor. 

Então, o juiz municipal da Cidade do Pará aceita o pedido deste homem que vivia em situação de escravidão.  Para garantir o mínimo de proteção a este escravizado, nomeia um Curador para representá-lo judicialmente, e um depositário, com quem ele ficaria enquanto aguardasse sua liberdade. E o processo corre.

Os documentos são juntados aos autos. Seu senhor foi notificado e audiência foi marcada. Chega o dia da audiência e o senhor não comparece e ,alegando a impossibilidade, pede ao juiz outra data. E então o juiz concede. 

Em segunda audiência, novamente o senhor não comparece. E o juiz, após ouvir as testemunhas e à revelia dos senhores, faz o julgamento. Romualdo é declarado livre, mas não plenamente. Isso porque a lei exigia que o escravo liberto após 60 anos deveria prestar serviço ao seu senhor por mais 3 anos, a título de indenização. 

Esta agência deste homem escravizado, que durou meses (janeiro a abril de 1888). Mesmo após sua vitória, teria ele que voltar para junto do seu senhor e ainda lhe prestar o serviço previsto pela lei. Felizmente isso não ocorreu, pois em seguida veio a Lei Áurea, que declarou extinta a escravidão no Brasil. 

Histórias como esta estão à sua disposição no acervo do Museu Histórico de Pará de Minas. Conheça!


6 de setembro de 2025

Ideal de equilíbrio e uma quase perfeição

Márcio Simeone
Cadeira n.º 8
 

Meu setembro, o sétimo deslocado, é sulino e sutil. No ritmo lento dos retornos, é o ponto de equilíbrio entre o claro e o escuro. Atravesso por ele o limiar breve do encontro perfeito do dia com a noite, na trégua da infinita batalha travada entre as trevas e a luz. Os meios-tons da aurora são derramados sobre toda a natureza, até então desbotada, e ouve-se a intensa respiração da terra. Mas é no crepúsculo que o mundo suspira com os bons augúrios do encontro, no anúncio da noite perfeita, fresca e tranquila. É quando recebo com alegria os primeiros cheiros de terra molhada. Este equinócio é tão somente um instante a lembrar a fugacidade dos momentos de bonança, pois o calor e a luz intensa logo vão reclamar sua vitória, impondo-se sobre os viventes e chegará em breve o tempo das chuvas e das cheias. Vivo os setembros pará-minenses, das festas cívicas, com a sonoridade das fanfarras e dos sinos que dobram e celebram a Piedade. Tempo das nuvens deslizantes que parecem afagar o verde da Serra das Piteiras e dos ipês amarelos que, por breves momentos, se compõem em tons patrióticos. Mas trago também para mim o arcanjo Miguel, príncipe das milícias celestes, em desafio à arrogância do mal. Neste meu setembro ideal, a natureza não grita, mas tece, exuberante, um manifesto de paz. Assim como o arcanjo, ela se ergue, resistente, determinada e heroica.

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Imagem: gerada por ferramenta de IA



31 de agosto de 2025

Minúsculo

Márcio Simeone
Cadeira n.º 8

Pulsa em mim o desejo de invadir o mundo microscópico e lá habitar. Talvez pela crença que mansamente me dominou de que a graça e a poesia só existem de fato nas minúcias.

Quando um dia aprendi que cada parte contém o todo, sonhei observar os átomos e partículas ainda menores a bailarem numa dança quântica imparável, tanto alegre como indefinível, sendo, ali, todo o universo. Nesse reino infinitesimal, pareceu-me haver uma agitação silenciosa, um caos sem ruídos.

Pus-me a pensar que os micro-organismos são vida altamente concentrada e, por que não dizer, poderosa. Seres pequeníssimos que podem tombar os grandes. Imaginei as sementes como um arquivo inteiro de memórias ancestrais preservadas pela genética, um repositório em mutação. Nelas estão inscritos todos os jardins, plantações e florestas inteiras, assim como em cada palavra idealizei um livro e uma biblioteca. No grão de areia, um viajante do tempo e do vento, adivinhei praias e dunas e no grão de pólen uma vida possível.

Tais visões me convidaram a redefinir minha escala de grandeza: do muito para o profundo. É um chamado a penetrar na riqueza de mundos inexplorados, a conhecer tudo que há e tudo que é neste domínio do ínfimo, na plena intensidade de suas vibrações. Só assim para ver num sorriso uma constelação e no brilho do olhar uma alma. 

Para mergulhar nessas profundezas hei de reduzir-me, como uma gotícula que em si comporta oceanos de significados. Um ser minúsculo e metafórico, que contemplará as imensidades e seus mistérios no tudo e no todo.

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Imagem: criada com auxílio de IA generativa 

29 de agosto de 2025

Agosto Lilás, entre símbolos e realidades

Francisco Vilas Boas
Cadeira n.º 20


Dados disponíveis na página do CNJ – Conselho Nacional de Justiça, trazem que o Poder Judiciário brasileiro julgou 10.991 processos de feminicídio, morte de mulheres por menosprezo ou discriminação à condição de mulher em 2024, tendo um aumento de 225% de casos em comparação ao ano de 2020. 


Ainda em 2024, o número de processos pendentes de julgamento envolvendo outros tipos de violência, ultrapassou o patamar de 1.297.142. Temos mais de um milhão de processos pendentes no Judiciário, sem contar os números ocultos, que são os que não chegam ao conhecimento das nossas autoridades.

 
Aos desatentos, os dados parecem alarmantes. Mas para quem presta um mínimo de atenção ao que acontece na sociedade, não há nenhuma surpresa. A ausência da surpresa reside no fato de estarmos numa sociedade conservadora, machista e patriarcal, que atribui um papel secundário às mulheres, legitimando as formas de violência.


Mas temos o Agosto Lilás! 
Para além de colorirmos o nosso calendário, precisamos de políticas públicas sérias para o enfrentamento da violência contra as mulheres! E isso deve ser uma pauta não apenas dos nossos representantes eleitos, mas de todos nós enquanto sociedade!


Para isso, precisamos educar as nossas meninas para que se tornem mulheres independentes, fortes e empoderadas; precisamos educar os nossos meninos para que se tornem adultos conscientes e respeitosos; precisamos reeducar os nossos adultos, para que tenham a consciência de que violência de gênero não é saída para nenhum dos nossos problemas; precisamos cobrar das nossas autoridades, para criarem mecanismos de proteção das mulheres vítimas de violência e para responsabilizarem seus agressores; precisamos, mais do que outra coisa, compreender que o enfrentamento da violência contra as mulheres é uma pauta do dia a dia, de janeiro a dezembro e não apenas do mês de agosto.


O convite que faço é para salvarmos o mundo!


E para quem acha que é impossível salvar o mundo, deixo a mensagem trazida no filme A lista de Schindler, do diretor Steven Spielberg, mas com origem no Talmude: quem salva uma vida, salva o mundo inteiro. 

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Coluna publicada no Jornal Informativo Tribuna do Jequitinhonha, edição 288, pg. 2, agosto de 2025.

Imagem criada por IA generativa.

28 de agosto de 2025

Semear leituras, inspirar professores, cultivar leitores

No dia 26 de agosto de 2025, a acadêmica Carmélia Cândida realizou, na Escola Frei Concórdio, em Pará de Minas, a primeira edição da ação “Semear Leituras, Colher Memórias”, um projeto que une contação de histórias, memória afetiva e reflexão sobre literatura e incentivo à leitura.


O encontro, pensado especialmente para professores, teve como propósito valorizar o papel do educador na formação de leitores. A partir de sua experiência de mais de dez anos em sala de aula, de seus estudos sobre literatura infantil e de sua atuação como escritora e contadora de histórias, Carmélia compartilhou reflexões sobre como a leitura não se ensina por imposição, mas se transmite pelo afeto, pela vivência e pelo exemplo.


Momentos de partilha como esse fortalecem o compromisso da Academia de Letras de Pará de Minas com sua missão de estimular o gosto pela leitura e pela escrita, reconhecendo que o professor é uma das figuras centrais nesse processo. 
 

A ação “Semear Leituras, Colher Memórias” nasce com a proposta de se multiplicar em outras escolas, levando a educadores e educadoras o encantamento da palavra e a inspiração para continuar semeando histórias que florescem em leitores. 

27 de agosto de 2025

O construtor de pontes e a negação da obediência cega

Regina Marinho
Cadeira n.º 6


27 de agosto - 26 anos do falecimento de Dom Hélder Câmara


Lendo trechos de uma conversa datada de 8 de abril de 1946 entre Leon Goldensohn, médico e psiquiatra, e Rudolf Höss (ou Hoess), prisioneiro de guerra e ex-comandante de Auschwitz, impressionou-me a resposta dada por Höss como justificativa para os atos praticados naquele campo de extermínio. Disse ele a Goldensohn: “...quando Himmler nos dizia algo, era tão correto e natural que obedecíamos cegamente.” Heinrich Himmler[1], superior hierárquico de Höss, é considerado o idealizador da chamada solução final para a questão judaica. Ele dizia que, se os alemães não exterminassem os judeus naquele momento, logo seriam eles os exterminados pelos judeus. Essa argumentação bastava para que seu subordinado, responsável pelo programa de extermínio em Auschwitz, cumprisse suas ordens sem questionar.

A obediência cega de Höss lembrou-me algo presenciado pelo João em 1980 ou 1981. Estávamos sob o governo do último presidente da República do período militar[2]. Na época, João e eu éramos namorados. Ele estava na escola de engenharia da UFMG, onde estudava, quando viu um cartaz chamando para um encontro com Dom Hélder Câmara[3] na Universidade Católica de Minas Gerais, atual PUC-Minas. Seria a oportunidade de conhecer aquele grande arcebispo, pequeno só na estatura, amado por muitos e odiado por outros tantos.

E foi-se o João, pegar o ônibus que o levaria até o Coração Eucarístico, ansioso por escutar Dom Hélder no auditório, conforme anunciado no cartaz. Lá chegando, para sua surpresa e estranhamento, cadê Dom Hélder? Não estava no auditório. Corre daqui, corre dali, João percebe uma movimentação de gente. Era um grupo de pessoas conduzindo o arcebispo para algum lugar improvisado, aonde ele pudesse falar. Ficara evidente que se tratava de um evento organizado apenas por integrantes do Diretório Acadêmico, sem o apoio da instituição.

Encaminharam-se todos para um dos amplos corredores do prédio mais antigo e ali se instalaram, o pontífice ao centro, ladeado por alunos e alguns admiradores. O assunto não podia deixar de ser outro senão a realidade sociopolítica do Brasil. E por conhecê-la bem, Dom Hélder denunciava, corajosamente, as arbitrariedades do regime militar: violação recorrente dos direitos humanos, perseguição política a opositores, cerceamento da liberdade de expressão de estudantes, professores, jornalistas, artistas, religiosos etc.

Bem se diz que profeta é quem denuncia, mas também anuncia. Depois da denúncia, o anúncio solene: “Ninguém deve obediência cega a ninguém!”. Imediatamente, um estudante interpela o arcebispo: “Mas, senhor, nem a Deus?!”. A resposta vem categórica: “Nem a Deus!”. Silêncio e espanto…ouvintes surpresos e suspensos, aguardando uma explicação convincente para aquela declaração inesperada, saída da boca de um sacerdote. E ele conclui: “Deus não quer obediência cega de ninguém!”

Para Dom Hélder, se Deus exigisse de nós a obediência cega estaria impedindo o exercício de nossa liberdade, dom que nos concedeu. E como exemplo de uma obediência consciente, falou da atitude de Maria, que escutou o anúncio do anjo, mas perguntou como tudo aconteceria, antes de aceitar sua missão.

Isso me lembra a etimologia do verbo obedecer, que vem do latim, OB + AUDIRE, e significa “escutar com atenção”. Obedecer não significa atender a uma ordem de forma irrefletida, como muitos de nós podem pensar. Pelo contrário, é atitude que requer uma escuta atenta como pressuposto para uma livre e consciente adesão. Ao citar a obediência de Maria, como exemplo para nós, Dom Hélder traz exatamente esse sentido original do termo.

De minha parte, penso na obediência cega como negação do amor de Deus. Não havendo liberdade para escutar, questionar, discernir, decidir, agir/reagir e de responder (responsabilizar-se) por suas escolhas, o ser humano jamais poderia expressar em si a imagem e a semelhança de seu criador. Devotar obediência cega a Deus não é um gesto de confiança nele, mas uma incompreensão de sua vontade. Se cremos que Deus é Amor, como diz o apóstolo João em sua primeira carta (1 Jo 4, 8), a obediência a ele só pode nascer da livre vontade do ser amado.

Jamais tive o prazer de ver e ouvir Dom Hélder em carne, osso e espírito, mas sei de seus ensinamentos por meio de livros, vídeos, áudios e fotografias. Eles me apresentaram um ser humano íntegro, ético, de voz firme, discurso claro e gestos vigorosos. Lembro-me da forte impressão que este encontro com Dom Hélder causou no João. Ele ficara deverasmente extasiado com o que viu e ouviu e me deixara deverasmente penalizada por não ter tido essa oportunidade.

Em 2015, o Dicastério para a Causa dos Santos da Santa Sé emitiu parecer favorável para o início do processo de beatificação e canonização de Dom Hélder, conferindo-lhe o título de “Servo de Deus”, como é de praxe. No entanto, ao longo de sua vida, ele recebeu outros tantos títulos. Foi chamado de “Irmão dos pobres”, de “O Dom da paz” - indicado ao Nobel da paz por mais de uma vez, não conquistou o prêmio por intervenção de militares - e também de “Bispo Vermelho”. Este último lhe foi conferido por políticos e militares descontentes com sua atuação incansável na defesa dos direitos humanos, dentro e fora do país. Para estes, seguir o evangelho como Cristo propõe é se declarar comunista.

Hoje se sabe que Dom Hélder fora proibido, pelos sucessivos governos militares, até mesmo de frequentar as universidades brasileiras. Por isso, talvez, o encontro com os alunos na Católica não tivera o apoio da instituição. Era uma forma de tentar calar sua voz que nunca se calou e que reverbera ainda hoje pelas vozes de muitos outros.

Para mim, Dom Hélder é fonte de inspiração em tempos de tanta confusão e distorção dos valores humanos, inclusive por parte de religiosos e leigos cristãos. O termo pontífice, uma distinção conferida a bispos, arcebispos e cardeais, significa “Construtor de pontes” e é como eu chamaria aquele que construiu pontes por sobre muros e trincheiras. O mandamento de Cristo, “amai-vos como eu vos amei”, era a sua medida, e ele sabia que o caminho do amor só pode ser trilhado na liberdade, assim como dizia Agostinho de Hipona: “ama e faze o que quiseres!”



[1] Heinrich Himmler – 1900-1945 - líder nazista alemão sob a autoridade apenas de Hitler, comandante das forças de elite (SS) e da polícia secreta (Gestapo), coordenador das operações dos campos de concentração/extermínio e responsável pela execução de milhões de prisioneiros.

[2] João Batista de Oliveira Figueiredo – 1918-1999 - militar e político brasileiro, o 30.º presidente do Brasil (1979 a 1985) e o último presidente do período da ditadura militar.

[3] Dom Hélder Pessoa Câmara OFS – 1909-1999 - arcebispo emérito de Olinda e do Recife, fundador da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) e das Comunidades Eclesiais de Base (Cebs).


25 de agosto de 2025

Brasil se escreve com S, de Soberano!

Francisco Vilas Boas
Cadeira n.º 20
 

    Uma grande mentira contada é que o Estados Unidos seria a maior democracia do mundo. Essa história começou quando o EUA adotou o modelo democrático no final do Sec. XVIII. Lá, eles eram a maior democracia do mundo porque os outros países eram monarquias, impérios ou colônias. Na época, a democracia americana admitia a escravidão e discriminava mulheres. Já em meados do século passado, os afro-americanos eram restringidos em muitos direitos civis e políticos, ao passo que o restante do mundo evoluía em sistemas mais democráticos. 
    Atualmente, o EUA sofre uma grave crise de desigualdade social, não está entre os 10 países com melhor IDH e nem entre os 10 países com melhores índices de educação. Como sabemos, democracia de qualidade se faz com educação de qualidade e com a diminuição das desigualdades sociais. Trump, inversamente, amaça cortar os investimentos das principais universidades do país, ameaçou prender o governador da Califórnia, determinou que a força nacional prendesse americanos opositores, ameaçou invadir a Groelândia e o Canadá e, recentemente, ameaçou taxar o Brasil em 50% nas suas exportações. 
    Michael Sandel, professor de Harvard, autor de O descontentamento da democracia, criticou severamente o governo Trump. Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, também professores de Harvard e coautores do livro Como as democracias morrem, criticam Trump e apontam que ele está rompendo com o modelo democrático. Paul Krugman, vencedor do Nobel de Economia, fez duras críticas ao modelo econômico trumpista. Os maiores especialistas do mundo em economia e ciências políticas, indicam que Trump está dilacerando a democracia americana.
    E o Brasil? 
    Alguns dos nossos políticos aplaudiram a iniciativa trumpista de nos taxar em 50% e de “investigar” o Pix. Mas brasileiro de verdade, seja de esquerda ou de direita, não escreve Brazil com Z. Brasileiro de verdade escreve Brasil com S, de Soberano! Tá no artigo 1º, inciso I da Constituição, que o Brasil é democrático e soberano! E se você aplaude o desserviço de Trump ou os políticos brasileiros que o apoiam, você pode ser tudo, mas não é nem patriota e nem democrata.

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Coluna publicada no Jornal Informativo Tribuna do Jequitinhonha, edição 287, pg. 2, julho de 2025

Imagem: gerada por ferramenta de IA