Conceição Cruz
Cadeira n.º 4
Em
uma paragem distante, bem no deserto - entre a África e a Ásia - havia um poço
de águas amargas...
Uma
gotinha estava lá há séculos: ela não sabia o motivo pelo qual ela e seu grupo
de amigos foram parar bem ali, agarrados às pedras, cheios de amargura, no mais
profundo daquele lugar.
A
todo custo, evitavam a Luz, egoisticamente recobertos
por uma carapaça de minerais, mantendo o sabor amargo e desagradável ao paladar
humano.
Por
vezes, ouvia dizer que as águas mais leves, mais rentes à superfície - aquelas
mais próximas à Luz - elevavam-se com maior facilidade...
Da
sua posição, não percebia claridade alguma e mais e mais fechava-se naquele
local de trevas. Acostumada a viver ali, presa – vez por outra - ficava
absorta, meditando sobre a natureza da realidade e as perspectivas de passado e
de futuro...
No
seu interior, ela sabia de sua importância para a vida...
Porém,
chamava-lhe a atenção o papel das águas destruidoras, como ocorrera no dilúvio...
Havia
uma contradição ferrenha entre aquele instante - de estar no fundo, ensimesmada
em seu egoísmo, pois ninguém tiraria um pingo dali para beber - e de sua
essência renovadora como fonte de vida...
Nada
de novo acontecia: o líquido não se renovava. Vivia em verdadeira estagnação...
Não
sabemos “por qual carga d’água”, nasceu em seu âmago o desejo de transformar-se,
de cumprir o seu verdadeiro papel, de ser fonte de vidas e de Vida!
Diante
de tanta mesmice e de falta de novidades, caiu em um sono profundo... Sonhou
com o Messias e fatos futuros ligados às águas: em sonho, teve a visão do
Batismo d’Ele no Rio Jordão e da cura do cego, juntando argila e água, devolvendo-lhe
a visão. Vislumbrou também quando Ele caminhou sobre as águas, acalmou a
tempestade... A pesca milagrosa além de tantos outros milagres... Milagres. Muitos
milagres!
Numa
noite, voltou a sonhar com aquele Ser de tamanho imensurável, fazendo vibrar
todos os seus átomos... Um mundo de Luz e Paz!
As
outras partículas à sua volta não admitiam a possibilidade de um mundo cheio de
claridade...
Sempre
que ela sonhava com o Mestre, mais e mais crescia o seu desejo de se libertar.
Intimamente,
na busca por respostas, compreendeu que era importante vivenciar os diferentes
ciclos de sua evolução...
Mas
como mudar? Mudar-se? Como sair daquele estado?
Por
meio da interpretação de seus sonhos, reconheceu-se e também vislumbrou outras
possibilidades... Porém, não compreendia a voz do Grande Silêncio e
desiludiu-se... Ao desiludir-se, tornou-se mais leve, leve, leve...
Certo
dia, despertou sentindo-se cheia de docilidade, a qual repercutia em todo o
ambiente. Algo diferente havia acontecido: aquele mundinho foi tocado por um
elemento de um outro reino - por uma árvore - a qual ingressou nas
entranhas daquele abismo, trazendo-lhe a graça de tornar tudo mais dócil e mais
doce...
Ela
nem bem havia sentido direito aquele novo estado, buscando entender a
importância da conexão íntima e expansão da consciência, já estava lá no alto,
na superfície: evaporou-se formando nuvens, iniciando um ciclo de mansidão de
subir aos Céus e de descer à Terra...
Nessas
idas e vindas, lapidou-se, deliciou-se em servir, em ser útil a todos os
Reinos, fazendo disso a Razão de sua existência, aumentando ainda mais o seu entusiasmo
a caminho da iluminação.
Em
uma bela noite, observou no Céu um sereno clarão que irradiava por toda a
Terra...
Lembrou-se
da época das sombras: percebeu um friozinho em seu ventre...
De
forma compulsiva, começou a chorar: gigantesca era a sua emoção...
Naquela
Noite Feliz, a gotinha e suas lágrimas, quando perceberam, já haviam descido em
um suave sereno e já estavam em uma bacia de argila, lá na gruta de Belém entre
os animais: era Natal!
Embebidas
em um tecido suave, banharam com ternura o corpinho daquela Criança que acabara
de nascer...
Naquele
momento, ela sentiu uma intensa purificação, alinhada à uma vontade férrea de
seguir as mensagens recebidas em seus sonhos, comprometendo-se a cumprir o ideal
que trazia dentro de seu ser[i].
No
mundo atual, aquela gotinha - despida de todo e qualquer egoísmo - vibrando
amor - trabalha no meio dos homens, contribuindo para o redespertar da alma e do
coração deles, ajudando a fomentar a ideia de um Grande Propósito: ser fonte de
Vida e de vidas para a família, para a sociedade, para o planeta e para todo o
Universo...
Êxodo
15:23 - Então chegaram a Mara, mas não puderam beber das águas²³ de lá porque
eram amargas. Esta é a razão porque o lugar chama-se Mara.
Acredita-se que ela
esteve presente no momento da origem, quando “o Espírito pairava sobre as
águas”, antes mesmo da criação da Luz, imersa em profundas trevas...
Imagine
uma multidão de israelitas caminhando por 3 dias no deserto e ao chegar em um
oásis, encontrar água salobra, amarga? Moisés, à frente, ouviu as reclamações, pediu
instrução divina e foi orientado a jogar
uma árvore na água. Ele, de forma dócil, ou seja, submissa ao plano
divino, jogou o lenho e a água tornou-se doce.
Para saber mais, veja na Bíblia Êxodo 15:23-25.
[i] Será que, desde aqueles
dias, ela passou a testemunhar os ensinamentos Crísticos, participando de
eventos marcantes? A chamada de seus discípulos, a noite de lava pés, as lições
às margens do mar da Galileia e tantos outros fatos?
Quem sabe,
no último instante, quando do peito do Messias brotaram sangue e água, tocado
por uma lança - ela estava dentro dele e saiu?
E, dias
após, vivificou-se no Mestre Ressuscitado, quando Ele comeu peixe assado - animal
que vive na água - com seus discípulos?
Sabemos
que o Mestre, verdadeiramente, ressuscitou.
E aquela
gotinha?
Qual
homem sabe dizer sobre o paradeiro dela, agora, cumprindo os seus ciclos entre
nós?
Talvez
aquele que, espiritualizado e ansioso por purificação, busque a Fonte de Água
de Vida Eterna?
Seguramente,
esse homem plenificado, essa nova criatura - junto “Àquele que Vive” - a
encontrará.
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Imagem: criada por IA generativa
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Amados leitores,
Aproveito o momento para agradecer a cada um o tempo dedicado à leitura.
Agradeço-lhes também as mensagens e as críticas amigas emitidas durante a nossa jornada, especialmente, no ano de 2025, que muito contribuíram para as nossas reflexões e alegria.
Desejo-lhes um Santo Natal e um 2026 repleto de bênçãos.
Forte e fraternal abraço,
Conceição Cruz.