29 de agosto de 2025

Agosto Lilás, entre símbolos e realidades

Francisco Vilas Boas
Cadeira n.º 20


Dados disponíveis na página do CNJ – Conselho Nacional de Justiça, trazem que o Poder Judiciário brasileiro julgou 10.991 processos de feminicídio, morte de mulheres por menosprezo ou discriminação à condição de mulher em 2024, tendo um aumento de 225% de casos em comparação ao ano de 2020. 


Ainda em 2024, o número de processos pendentes de julgamento envolvendo outros tipos de violência, ultrapassou o patamar de 1.297.142. Temos mais de um milhão de processos pendentes no Judiciário, sem contar os números ocultos, que são os que não chegam ao conhecimento das nossas autoridades.

 
Aos desatentos, os dados parecem alarmantes. Mas para quem presta um mínimo de atenção ao que acontece na sociedade, não há nenhuma surpresa. A ausência da surpresa reside no fato de estarmos numa sociedade conservadora, machista e patriarcal, que atribui um papel secundário às mulheres, legitimando as formas de violência.


Mas temos o Agosto Lilás! 
Para além de colorirmos o nosso calendário, precisamos de políticas públicas sérias para o enfrentamento da violência contra as mulheres! E isso deve ser uma pauta não apenas dos nossos representantes eleitos, mas de todos nós enquanto sociedade!


Para isso, precisamos educar as nossas meninas para que se tornem mulheres independentes, fortes e empoderadas; precisamos educar os nossos meninos para que se tornem adultos conscientes e respeitosos; precisamos reeducar os nossos adultos, para que tenham a consciência de que violência de gênero não é saída para nenhum dos nossos problemas; precisamos cobrar das nossas autoridades, para criarem mecanismos de proteção das mulheres vítimas de violência e para responsabilizarem seus agressores; precisamos, mais do que outra coisa, compreender que o enfrentamento da violência contra as mulheres é uma pauta do dia a dia, de janeiro a dezembro e não apenas do mês de agosto.


O convite que faço é para salvarmos o mundo!


E para quem acha que é impossível salvar o mundo, deixo a mensagem trazida no filme A lista de Schindler, do diretor Steven Spielberg, mas com origem no Talmude: quem salva uma vida, salva o mundo inteiro. 

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Coluna publicada no Jornal Informativo Tribuna do Jequitinhonha, edição 288, pg. 2, agosto de 2025.

Imagem criada por IA generativa.

28 de agosto de 2025

Semear leituras, inspirar professores, cultivar leitores

No dia 26 de agosto de 2025, a acadêmica Carmélia Cândida realizou, na Escola Frei Concórdio, em Pará de Minas, a primeira edição da ação “Semear Leituras, Colher Memórias”, um projeto que une contação de histórias, memória afetiva e reflexão sobre literatura e incentivo à leitura.


O encontro, pensado especialmente para professores, teve como propósito valorizar o papel do educador na formação de leitores. A partir de sua experiência de mais de dez anos em sala de aula, de seus estudos sobre literatura infantil e de sua atuação como escritora e contadora de histórias, Carmélia compartilhou reflexões sobre como a leitura não se ensina por imposição, mas se transmite pelo afeto, pela vivência e pelo exemplo.


Momentos de partilha como esse fortalecem o compromisso da Academia de Letras de Pará de Minas com sua missão de estimular o gosto pela leitura e pela escrita, reconhecendo que o professor é uma das figuras centrais nesse processo. 
 

A ação “Semear Leituras, Colher Memórias” nasce com a proposta de se multiplicar em outras escolas, levando a educadores e educadoras o encantamento da palavra e a inspiração para continuar semeando histórias que florescem em leitores. 

27 de agosto de 2025

O construtor de pontes e a negação da obediência cega

Regina Marinho
Cadeira n.º 6


27 de agosto - 26 anos do falecimento de Dom Hélder Câmara


Lendo trechos de uma conversa datada de 8 de abril de 1946 entre Leon Goldensohn, médico e psiquiatra, e Rudolf Höss (ou Hoess), prisioneiro de guerra e ex-comandante de Auschwitz, impressionou-me a resposta dada por Höss como justificativa para os atos praticados naquele campo de extermínio. Disse ele a Goldensohn: “...quando Himmler nos dizia algo, era tão correto e natural que obedecíamos cegamente.” Heinrich Himmler[1], superior hierárquico de Höss, é considerado o idealizador da chamada solução final para a questão judaica. Ele dizia que, se os alemães não exterminassem os judeus naquele momento, logo seriam eles os exterminados pelos judeus. Essa argumentação bastava para que seu subordinado, responsável pelo programa de extermínio em Auschwitz, cumprisse suas ordens sem questionar.

A obediência cega de Höss lembrou-me algo presenciado pelo João em 1980 ou 1981. Estávamos sob o governo do último presidente da República do período militar[2]. Na época, João e eu éramos namorados. Ele estava na escola de engenharia da UFMG, onde estudava, quando viu um cartaz chamando para um encontro com Dom Hélder Câmara[3] na Universidade Católica de Minas Gerais, atual PUC-Minas. Seria a oportunidade de conhecer aquele grande arcebispo, pequeno só na estatura, amado por muitos e odiado por outros tantos.

E foi-se o João, pegar o ônibus que o levaria até o Coração Eucarístico, ansioso por escutar Dom Hélder no auditório, conforme anunciado no cartaz. Lá chegando, para sua surpresa e estranhamento, cadê Dom Hélder? Não estava no auditório. Corre daqui, corre dali, João percebe uma movimentação de gente. Era um grupo de pessoas conduzindo o arcebispo para algum lugar improvisado, aonde ele pudesse falar. Ficara evidente que se tratava de um evento organizado apenas por integrantes do Diretório Acadêmico, sem o apoio da instituição.

Encaminharam-se todos para um dos amplos corredores do prédio mais antigo e ali se instalaram, o pontífice ao centro, ladeado por alunos e alguns admiradores. O assunto não podia deixar de ser outro senão a realidade sociopolítica do Brasil. E por conhecê-la bem, Dom Hélder denunciava, corajosamente, as arbitrariedades do regime militar: violação recorrente dos direitos humanos, perseguição política a opositores, cerceamento da liberdade de expressão de estudantes, professores, jornalistas, artistas, religiosos etc.

Bem se diz que profeta é quem denuncia, mas também anuncia. Depois da denúncia, o anúncio solene: “Ninguém deve obediência cega a ninguém!”. Imediatamente, um estudante interpela o arcebispo: “Mas, senhor, nem a Deus?!”. A resposta vem categórica: “Nem a Deus!”. Silêncio e espanto…ouvintes surpresos e suspensos, aguardando uma explicação convincente para aquela declaração inesperada, saída da boca de um sacerdote. E ele conclui: “Deus não quer obediência cega de ninguém!”

Para Dom Hélder, se Deus exigisse de nós a obediência cega estaria impedindo o exercício de nossa liberdade, dom que nos concedeu. E como exemplo de uma obediência consciente, falou da atitude de Maria, que escutou o anúncio do anjo, mas perguntou como tudo aconteceria, antes de aceitar sua missão.

Isso me lembra a etimologia do verbo obedecer, que vem do latim, OB + AUDIRE, e significa “escutar com atenção”. Obedecer não significa atender a uma ordem de forma irrefletida, como muitos de nós podem pensar. Pelo contrário, é atitude que requer uma escuta atenta como pressuposto para uma livre e consciente adesão. Ao citar a obediência de Maria, como exemplo para nós, Dom Hélder traz exatamente esse sentido original do termo.

De minha parte, penso na obediência cega como negação do amor de Deus. Não havendo liberdade para escutar, questionar, discernir, decidir, agir/reagir e de responder (responsabilizar-se) por suas escolhas, o ser humano jamais poderia expressar em si a imagem e a semelhança de seu criador. Devotar obediência cega a Deus não é um gesto de confiança nele, mas uma incompreensão de sua vontade. Se cremos que Deus é Amor, como diz o apóstolo João em sua primeira carta (1 Jo 4, 8), a obediência a ele só pode nascer da livre vontade do ser amado.

Jamais tive o prazer de ver e ouvir Dom Hélder em carne, osso e espírito, mas sei de seus ensinamentos por meio de livros, vídeos, áudios e fotografias. Eles me apresentaram um ser humano íntegro, ético, de voz firme, discurso claro e gestos vigorosos. Lembro-me da forte impressão que este encontro com Dom Hélder causou no João. Ele ficara deverasmente extasiado com o que viu e ouviu e me deixara deverasmente penalizada por não ter tido essa oportunidade.

Em 2015, o Dicastério para a Causa dos Santos da Santa Sé emitiu parecer favorável para o início do processo de beatificação e canonização de Dom Hélder, conferindo-lhe o título de “Servo de Deus”, como é de praxe. No entanto, ao longo de sua vida, ele recebeu outros tantos títulos. Foi chamado de “Irmão dos pobres”, de “O Dom da paz” - indicado ao Nobel da paz por mais de uma vez, não conquistou o prêmio por intervenção de militares - e também de “Bispo Vermelho”. Este último lhe foi conferido por políticos e militares descontentes com sua atuação incansável na defesa dos direitos humanos, dentro e fora do país. Para estes, seguir o evangelho como Cristo propõe é se declarar comunista.

Hoje se sabe que Dom Hélder fora proibido, pelos sucessivos governos militares, até mesmo de frequentar as universidades brasileiras. Por isso, talvez, o encontro com os alunos na Católica não tivera o apoio da instituição. Era uma forma de tentar calar sua voz que nunca se calou e que reverbera ainda hoje pelas vozes de muitos outros.

Para mim, Dom Hélder é fonte de inspiração em tempos de tanta confusão e distorção dos valores humanos, inclusive por parte de religiosos e leigos cristãos. O termo pontífice, uma distinção conferida a bispos, arcebispos e cardeais, significa “Construtor de pontes” e é como eu chamaria aquele que construiu pontes por sobre muros e trincheiras. O mandamento de Cristo, “amai-vos como eu vos amei”, era a sua medida, e ele sabia que o caminho do amor só pode ser trilhado na liberdade, assim como dizia Agostinho de Hipona: “ama e faze o que quiseres!”



[1] Heinrich Himmler – 1900-1945 - líder nazista alemão sob a autoridade apenas de Hitler, comandante das forças de elite (SS) e da polícia secreta (Gestapo), coordenador das operações dos campos de concentração/extermínio e responsável pela execução de milhões de prisioneiros.

[2] João Batista de Oliveira Figueiredo – 1918-1999 - militar e político brasileiro, o 30.º presidente do Brasil (1979 a 1985) e o último presidente do período da ditadura militar.

[3] Dom Hélder Pessoa Câmara OFS – 1909-1999 - arcebispo emérito de Olinda e do Recife, fundador da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) e das Comunidades Eclesiais de Base (Cebs).


25 de agosto de 2025

Brasil se escreve com S, de Soberano!

Francisco Vilas Boas
Cadeira n.º 20
 

    Uma grande mentira contada é que o Estados Unidos seria a maior democracia do mundo. Essa história começou quando o EUA adotou o modelo democrático no final do Sec. XVIII. Lá, eles eram a maior democracia do mundo porque os outros países eram monarquias, impérios ou colônias. Na época, a democracia americana admitia a escravidão e discriminava mulheres. Já em meados do século passado, os afro-americanos eram restringidos em muitos direitos civis e políticos, ao passo que o restante do mundo evoluía em sistemas mais democráticos. 
    Atualmente, o EUA sofre uma grave crise de desigualdade social, não está entre os 10 países com melhor IDH e nem entre os 10 países com melhores índices de educação. Como sabemos, democracia de qualidade se faz com educação de qualidade e com a diminuição das desigualdades sociais. Trump, inversamente, amaça cortar os investimentos das principais universidades do país, ameaçou prender o governador da Califórnia, determinou que a força nacional prendesse americanos opositores, ameaçou invadir a Groelândia e o Canadá e, recentemente, ameaçou taxar o Brasil em 50% nas suas exportações. 
    Michael Sandel, professor de Harvard, autor de O descontentamento da democracia, criticou severamente o governo Trump. Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, também professores de Harvard e coautores do livro Como as democracias morrem, criticam Trump e apontam que ele está rompendo com o modelo democrático. Paul Krugman, vencedor do Nobel de Economia, fez duras críticas ao modelo econômico trumpista. Os maiores especialistas do mundo em economia e ciências políticas, indicam que Trump está dilacerando a democracia americana.
    E o Brasil? 
    Alguns dos nossos políticos aplaudiram a iniciativa trumpista de nos taxar em 50% e de “investigar” o Pix. Mas brasileiro de verdade, seja de esquerda ou de direita, não escreve Brazil com Z. Brasileiro de verdade escreve Brasil com S, de Soberano! Tá no artigo 1º, inciso I da Constituição, que o Brasil é democrático e soberano! E se você aplaude o desserviço de Trump ou os políticos brasileiros que o apoiam, você pode ser tudo, mas não é nem patriota e nem democrata.

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Coluna publicada no Jornal Informativo Tribuna do Jequitinhonha, edição 287, pg. 2, julho de 2025

Imagem: gerada por ferramenta de IA