12 de agosto de 2020

Passarinhos

Conceição Cruz
Cadeira n.º 4
    Passarinho fez seu ninho
    bem escondidinho
    entre as folhas da árvore.

    À tarde,

    da varanda da minha casa,
    vê-se uma multidão deles,
    saltitando de galho em galho!

    Dali, voam para o poste

    e, nos fios,
    lembram notas musicais!

    Na cidade,

    aprenderam a diferenciar
    luz do poste,
    luz do dia!

    De onde vem tanta alegria?


    Será que almoçaram

    e jantaram direitinho?
    A mata está longe!
    A vegetação está seca!
    Os asfaltos cobrem os rios...

    Porquê

    Deus criou o pássaro
    antes do menininho?

    Ah! Como é lindo

    vê-los voar!

    A melodia deles traz a manhã.


    Faça sol ou faça chuva!


    O sol, brincando

    de esconde esconde,
    está a sumir
    detrás da serra...

    Onde estarão os passarinhos?


    Há apenas

    "vozes em uma árvore "
    com suas folhas verdinhas
    "cantando alegre"
    no meio da avenida!

    A noite,

    vai chegando
    pé
    antepé!

    Silêncio!

    Nem mais um pio...

    Carros, motos, caminhões

    não façam barulho!

    Não sabem que agora,

    no colo desta árvore,
    adormecem os pequeninos?

    Daqui a pouco,

    a lua vai surgir:
    à árvore fará companhia!
    Também as estrelas virão
    Para enfeitar o doce ninho!

    Decerto, ali, eles sonharão

    a sua nova sinfonia!

    Passe,

    passe bem
    calmamente
    oh, madrugada fria!
    Deixe que eles descansem!

    Daqui a pouco,

    a sinfonia alegre
    dos seres alados
    fará despertar o sol
    que trará um novo dia!

    Silencia a cidade.


    Calmamente...


    Nem mais um pio!

    Tudo, tudo é silêncio
    para não acordar os bichinhos!


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9 de agosto de 2020

Paterna idade...

Renata Teixeira da Silva
Cadeira n.º 3




Pai, já passou tanto tempo... 

Mas sempre é momento  

de pedir desculpas e agradecer. 

Felizmente, a maturidade chega um dia... 

E sou grata pela minha porção “você”... 

Gratidão por me ensinar que honra e simplicidade 

são bem-vindas em qualquer lugar. 

Perdoe-me pelas vezes em que saí  

da condição de filha, para julgar... 

 

Sou grata por nos ter tratado 

como “meninas que correm com lobos”... 

Obrigada por nos fazer fortes 

resistentes a “medos bobos”... 

 

Perdão, pai, pelas vezes 

Em que me afastei de você... 

Felizmente, a maturidade chegou 

E vejo o quão grande foi capaz de ser. 

Seus neologismos (bercurta, jabutifruta...): 

presença de espírito que jamais poderemos esquecer! 

 

Vê-lo lendo western 

fez-nos também leitoras... 

Assistir ao Trinity nos fez irreverentes... 

E as voltas de jipe nos tornaram desbravadoras. 

Seus discos de vinil nos trouxeram 

dança, imaginação, poesia... 

Sua inteligência nos colocou 

sempre em busca da sabedoria. 

Aprendemos a usar ferramentas 

e, mesmo não lembrando seus nomes, 

o seu é sempre lembrado por nós 

com fundo musical do Morricone... 

 

Era uma vez no Oeste... 

Um dólar furado à beça!  

Era uma vez... um pai e suas três filhas 

(e é bem aí que nossa história começa)... 

Honro sua vida como meu pai 

Sou grata por tudo o que pude aprender 

Percebo sua presença em mim... 

E vejo meu eu em você!  



O amor do meu pai

Carmélia Cândida
Cadeira n.º 2


Meu pai me contava histórias. Tantas que foi preciso um espaço bem grande no coração para

acomodá-las. Todas estão guardadinhas comigo. Também havia um cordel, a história de um tal pavão
misterioso, que ele recitava inteirinho para mim, coisa mais linda que o céu numa noite de lua cheia. Meu primeiro contato e encantamento com a poesia. 

Ele acordava cedo para ir para o trabalho. Trabalhava em  serviço pesado, operário em uma indústria siderúrgica, e chegava cansado em casa. Mas vinha sempre com um sorriso e disposição para nos aconchegar.

Todos os dias ganhava, no almoço na empresa, um pedaço de doce para a sobremesa. Ele nunca comia o dele, guardava para mim e para meu irmão menor. Na hora de sua chegada – meu irmão, minha mãe e eu, festivos – o esperávamos em um banco que ficava no passeio da nossa casa, quando ele  nos dava o doce – coisa rara de se ter em casa – e nós o dividíamos. Era uma doçura sem fim!

Aos domingos, se não estávamos na roça, era “lei” nos levar à missa das crianças na Matriz de Nossa Senhora da Piedade. E, na volta para casa, se tinha dinheiro, passávamos na Sorveteria Alvorada, e ele nos dava  a felicidade em forma de sorvete.

Quando estávamos na roça, o que era sempre, nadávamos todos no rio, e ele nadava comigo nas costas, eu ia agarrada ao pescoço dele, tão segura, e era quase como se eu estivesse voando. Na época de plantar milho, minha mãe, ele, meu irmão menor e eu formávamos uma ótima equipe. Ele abria as covas, meu irmão e eu íamos colocando as sementes, e minha mãe as cobria de terra. Eu adorava aquilo e ficava impressionada com o quanto podíamos ser eficientes juntos.

Eu cresci, e ele sempre foi um exemplo, uma inspiração, orgulho. Esteve presente em todos os momentos da minha vida, me acolhendo, me apoiando, me aplaudindo. Sensível, sentimental, amável para com todas as pessoas. Alegre, apesar de todas as dificuldades que enfrentou e que enfrenta e de lutar contra uma depressão que, vez ou outra, o assombra mais vigorosamente. Às vezes ele se abate, e tudo fica tenebroso, mas ele nunca se entrega, pede socorro e se reergue.

Hoje, adulta, madura, deito-me no sofá e coloco meus pés sobre suas pernas. Ele fica coçando meus pés, como quando eu era criança e como fez a vida toda. É impressionante como ele não se cansa! Outras vezes, fico num sofá e ele noutro, e conversamos sobre assuntos diversos e, muitas vezes,  ele relembra o passado. Ou ficamos vendo tevê, à noite, até que ele comece a cochilar, já sentindo os efeitos dos seus remédios para dormir, e eu, que durmo na casa dos meus pais duas vezes na semana, o levo até a cama, me encarrego de colocar o copo de água ao lado da cabeceira,  ajeito suas cobertas, apago a luz.

Olhando seus cabelos brancos, seu olhar cansado,  as mãos calejadas,  penso em tudo que ele passou, no quanto foi – e é – valente, mesmo com toda sua fragilidade.  Há passagens tanto na vida dele como da minha mãe que me dão uma tristeza profunda pelo tanto que foram sofridas. Dá vontade de poder viajar no tempo e estar lá para fazer alguma coisa para ajudar.

Mas é nos momentos felizes que eu procuro me concentrar. Na alegria dos dois e no quanto sou afortunada por ter um pai e uma mãe tão amorosos, tão entregues ao amor pelas filhas e filhos. Esse amor é uma luz acesa dentro de mim a me iluminar, a me impulsionar para que eu me mantenha firme e que siga adiante. Foi por esse amor que nasci, é dele que fui nutrida. E é ele que sempre norteará meus caminhos.

 

Feliz Dia dos Pais a todos os pais que, de verdade, se fazem presentes e essenciais na vida de seus filhos.

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8 de agosto de 2020

José Alexandre da Cruz


Conceição Cruz
Cadeira n.º 4
(na interpretação de Geraldo Phonteboa - cadeira n.º 14)









Mais forte que o touro

José Roberto Pereira

Cadeira n.º 12

Eu tenho uma cicatriz enorme na minha perna direita. Ela é saliente, está abaixo do joelho e circunda a perna quase toda. Originou-se de um corte profundo em que o osso ficou exposto. Na parte

mais silente, ainda é possível reconhecer as pontas pontiagudas e afiadas do arame farpado. Pressionado, o arame foi entrando na minha pele, cortando a carne até descobrir parte do osso. A princípio, não senti dor. Não durou mais que dois minutos o tempo de eu ser arremessado, espremido contra o arame e cortado. Não sentia a dor do corte nem gritava. Estava emudecido pelo pavor de ter um touro chifrando-me as costas e comprimindo-me com toda a força que conseguia contra os fios de arame farpado. Eu sentia sua cabeça, seu hálito, os pelos grossos e os chifres, que também atingiam minha cabeça, mas não percebia minha pele sendo cortada.

Antes, eu estava sentado na traseira de um carro de boi. Minha tia Maria Custódia conduzia a junta de bois que nos levava. Ela, em pé sobre a carroça, guiava os animais com a ajuda de uma vara que continha um ferrão na ponta. Saímos do terreno do meu avô, passamos por uma porteira que foi aberta por mim e entramos em terras do vizinho, o senhor Nereu. Foi só o tempo de eu me sentar novamente no fundo da carroça, após ter fechado a porteira, segurar-me nos fueiros e ficar com as pernas balançando no ar...

Fomos surpreendidos. Um touro surgiu entre moitas do pasto, pulou para dentro da estrada e veio com tudo para cima dos bois que puxavam a carroça, presos na canga... Houve um princípio de briga, e o carro de boi ziguezagueou na estrada, levantando poeira. Seguidamente, um solavanco forte, e o carro foi de encontro à cerca de arame. Quando percebi, já estava sendo pressionado pela cabeça do animal raivoso contra os fios de arame...

Subitamente, um dos fios, o que cortava minha perna, arrebentou... Fui jogado para o outro lado da cerca, numa palhada de milho. Só então percebi o corte. Tive um princípio de pânico. Mesmo com cinco anos de idade, eu entendi a gravidade da ferida e me dei conta de que tinha que sair dali às pressas. Num instinto de sobrevivência, voltei pela mesma abertura do fio arrebentado, único lugar que me daria acesso novamente à estrada. Já não era o touro que me despertava medo, era o corte profundo que exibia tão descabidamente parte do osso da minha perna. Nem pensei que poderia ser atacado pelo animal novamente, eu só precisava sair dali para estancar o sangue. Precisava ir em busca de qualquer pessoa que pudesse me acudir. Eu tinha ciência de que precisava chegar até alguém para ser salvo. Não vi  nem ouvi minha tia... Norteado pelo instinto de sobrevivência que me tomava por inteiro, incrédulo em relação a qualquer outro perigo, passei, com toda rapidez que pude, pelos animais que ainda lutavam. Venci o trajeto entre eles e a porteira, correndo, ora com a perna cortada suspensa no ar, ora apoiando-a levemente no chão empoeirado. Passando por entre as tábuas da porteira,  corri o quanto consegui ainda sem chorar ou gritar... Até que cheguei ao terreiro da casa do meu avô materno, Francisco. Dei de encontro com minha tia Lutinha. Ela carregava latas cheias d’água para os porcos. Quando olhou a minha perna, ficou em choque. Desnorteada, jogou um pouco de água sobre o corte da perna. Só então meu grito saiu. Vi outros cortes e arranhões pelo meu corpo. Minha cabeça, a outra perna, as costas doíam, mas o corte na perna direita, com a pele desbeiçada, me impressionou... Senti uma dor tão intensa que perdi o fôlego. Tive um apagão...

Tenho uma vaga lembrança de meus pais e tios, depois disso, no meu entorno, e de mim ainda de pé, no terreiro, apoiado em alguém. Não tenho recordação do paradeiro, naquele dia, da tia Maria Custódia...

Em seguida, meu pai me pegou nos braços e saiu da casa do meu avô, correndo, em direção à nossa casa, seguido pela minha mãe. Eu passei meu braço em volta do pescoço dele numa tentativa de travar meu corpo, pois os solavancos dos passos apressados causavam dor em todos os cortes. Eu já não chorava, não conseguia. Só queria me livrar das feridas. Passamos novamente pela porteira, pelos bois que já estavam mais apaziguados, e seguimos ora correndo, ora com passadas rápidas. O trajeto entre as casas era longo, sinuoso, com morros íngremes e descidas escorregadias cheias de cascalho. Meu sangue tingia o sujo da roupa do meu pai, que, antes do acontecido, estava trabalhando em lavoura de tomate. Sua camisa estava encharcada do meu sangue e de suor. O fôlego lhe faltava nas subidas íngremes. Talvez meu corpo machucado pesasse mais a cada passo dado. Doíam-lhe as costas, sangravam meus cortes... A dor que eu sentia era menor que o desejo de me livrar dos ferimentos. Minha mãe corria, tentando nos acalcar.  Às vezes, ela desaparecia do meu campo de visão. Em alguns momentos, conseguia correr quase ao nosso lado. Quando me olhava, chorava... Chorávamos ela e eu, menos meu pai, que só queria correr até nossa casa. O trajeto entre as casas, que ficavam em lugarejos diferentes, durou uns quarenta minutos. Tive outro apagão.

Não tenho lembrança da chegada à minha casa, da reação da minha avó Adelina ao me ver tão machucado. E nem sei como apareceu no lugarejo onde morávamos, naquele idos, final dos anos de 1970, um carro que, milagrosamente, nos levou ao hospital, na cidade. Automóvel por aquelas bandas era uma raridade. Depois de uma hora dentro do veículo, chegamos onde alguém, por fim, podia me salvar. Tive outro apagão.

Acordei na cama do hospital, com enfermeiros e médicos ao meu redor, dentro da sala cirúrgica. Percebi que estava amarrado. Gritei profundamente, tomado por pavor... Outro apagão. Recobrei os sentidos. Minha mãe estava com seu rosto colado ao meu, tentando me acalmar, dentro da sala cirúrgica. Suas lágrimas se misturavam às minhas. Desisti de tentar manter meus olhos abertos...

Acordei na casa da minha avó paterna, Adelina, onde morávamos, com a cabeça encostada ao peito do meu pai. O touro não havia nos vencido. Nem em pensamentos, nós três sequer cogitamos a hipótese de que o animal poderia nos vencer. Agarramos-nos uns aos outros e o vencemos; mas, emocionalmente estávamos devastados. 

Durante muitos anos, eu só dormia encostado ali, no peito do meu pai. Ele dormia em posição fetal e eu ainda colocava meus pés entres suas pernas. Era o único lugar que me fazia sentir mais forte que o touro.

 

(Desejo um feliz Dias dos Pais a todos os papais e a todas às mães que também são pais. Nossos heróis!!)


5 de agosto de 2020

(A)Gosto... não se discute!

Renata Teixeira da Silva
Cadeira n.º 3



Há gosto de nuvem escura quando parte 

Há gosto de felicidade quando chega 

Há gosto de saudade que arde 

E de poesia que aconchega 

Há gosto de fé inabalável 

E oração feita com vela acesa  

Há gosto de infância feliz 

Com cheiro de amor e inocência 

Há gosto de maturidade  

Obtida com presenças e ausências 

Há gosto de noite estrelada 

E de sol que, em esplendor, se deita 

Há gosto de Sessão da Tarde 

Depois de tarefa já feita 

 

Há gosto de recreio 

Adoçado com bala delícia 

Há gosto de abraços intermináveis 

Apertados na exata medida  

Há gosto de beijos eternos 

Roubados bem na saída 

Há gosto de canções que embalam 

Tantas chegadas e partidas  

Há vida pra tudo que é gosto 

Haja gosto pra tudo... 

Que é VIDA!  

Agosto!...

1 de agosto de 2020

(In)seguro

José Roberto Pereira
Cadeira n.º 12

Que eu saiba

Não tenho problemas de autoestima

Mas tive receio da sua reação ao ver-me pela primeira vez

Revisitei minha ansiedade de adolescente

Época em que uma espinha, por um segundo, provocava minha “morte”

Foi difícil te olhar nos olhos

Entrar em seu mundo vasto e misterioso

Cheio de armadilhas e de enigmas ainda indecifráveis

Depois de ser seduzido pelo seu silêncio e cheiro

Deixei-me ser levado como água de um poderoso rio

Meu desejo te acordou a noite inteira

Palavras sussurradas benzeram promessas até o amanhecer

Não desperte do sono, sob a luz do sol, meu bem

Durma ao longo do dia até o anoitecer

Descanse

Pois é sob a lua e as estrelas que os amantes fazem acontecer

Que os olhos alheios nos abençoem ou nos maldigam

Felicidade, às vezes, incomoda ou incentiva

É como palha num celeiro

Qualquer foguinho, vira lembrança

Pois tudo na vida é, inevitavelmente, passageiro.