1 de abril de 2026

Abertura para a noite

Márcio Simeone
Cadeira n.º 8



Seu nome sugere abertura, reflexo das impressões do outro hemisfério em estação inversa. Para mim sempre aparentou fechamento: uma sensação de repouso da terra e das agitações humanas do verão que se foi, acalmado em seus estertores pela vivência quaresmal. Uma quietude relativa, a requerer contemplação de sinais da natureza e uma renovação da fé, especialmente a transmutação das folhas em ouro. Abrir também pode significar uma aceitação poética de deixar entrar em si o vazio e reconhecer as perdas, desapegar-se como as plantas que soltam suas folhas envelhecidas para mais tarde criar novas. Os dias se recolhem e fecham sobre si; nos ensinam a abrir mão da luz, soltando-nos para a noite mais longa e fresca. Abril da minha infância é o que começa com mentirinhas e pregações de peças. Traz a memória do início de dias secos e luminosos, céus limpos e intensamente azuis, com resquícios da quentura, quebrados aqui e ali por alguma chuva leve. Sentia o ar esfriar preguiçosamente e ouvia o outono trazer as suas primeiras revelações, a meio tom. A nós cabia prever, pelo caminhar dos dias, se o inverno seria menos ou mais quente, menos ou mais seco, o que frequentava quase todas as nossas conversas comezinhas. Tínhamos sempre a impressão de que essa atividade especulativa acertava em seus prognósticos intuitivos. Era tempo de redescobrir o aconchego da casa, sabendo a café e bolo de fubá.

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 Imagem: criada por IA generativa

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