7 de abril de 2019
ALPM participa da Paraliteratura 2019
A oitava edição da Paraliteratura, feira de incentivo à leitura, será realizada de 11 a 13 de abril. É uma iniciativa da Prefeitura Municipal, que conta com parceria da Academia de Letras de Pará de Minas. A feira de livros será realizada na Praça Torquato de Almeida, no centro da cidade e contará ainda com outros eventos, tais como apresentações artísticas, conversas com escritores e contação de histórias. O tema deste ano é "A leitura ilumina o mundo da gente". As acadêmicas Ângela Leite Xavier e Malluh Praxedes participarão de atividades prévias de divulgação do evento nos dias 8, 9 e 10 de abril em escolas da cidade, ao lado da escritora Tita de Lima e Silva. As três escreveram e lançaram recentemente o livro "3 Primas - Crônicas e Memórias".
A exposição e a venda de livros terá entrada gratuita e funcionará nos dias 11 e 12 de abril, das 8 às 20h, e no dia 13 de abril, das 8 às 12h. No dia 13/04, sábado, às 8:30h, será realizado um café com escritores da Academia de Letras de Pará de Minas da Academia Itaunense de Letras e da Academia Divinopolitana de Letras, na Casa da Cultura (Praça Torquato de Almeida). Para participar deste evento, serão disponibilizados 30 convites para o público que podem ser retirados no dia 12/04 gratuitamente na Casa da Cultura.
Veja a programação completa do evento aqui.
4 de abril de 2019
Fixo, nos infinitos
Márcio Simeone
Cadeira nº 8
Cansado de andar,
farto do tumulto cheio de estímulos e do moto perpétuo da cidade, ansiava por
um lugar onde repousar os sentidos. Até então, mesmo que forçasse os pés
cansados a pararem, o resto de mim seguia sempre adiante, sem descanso,
recolhendo mais e mais informações, processando tudo na velocidade requerida e
as novas e novas solicitações para colocar-me de novo a mover-me. Imaginava
como seria se pudesse, ao menos por um tempo, ser uma pedra, ou uma estátua
daqueles heróis da nação que só nos observavam cruzar aquelas praças e jardins.
Lembrei-me das estátuas vivas do calçadão. Hoje mesmo havia visto uma, de Hermes; sem fazer caso da velocidade
dos transeuntes e da tropelia do comércio. Devia ter dedicado mais tempo ao
deus. Não segui a quase total indiferença, mas cuidei o suficiente de verificar
que mirava seu ponto fixo lá onde as paralelas da rua finalmente se encontravam
e abraçavam o enorme largo, livre das sombras dos edifícios e, por isso, bem
mais iluminado pelo sol da tarde. Na sequência do caminho pensei o quanto
aquele olhar posto no infinito trazia a necessária concentração, mas a mim
parecia que aquela aparente imobilidade corporal talvez estivesse a acionar
furiosamente os motores da alma, a alma de Hermes, do mensageiro incansável dos
deuses, o viajante. Ali parado, simbolizava o movimento frenético da via
entupida de gente, dos muitos mensageiros que, como ele, têm asas nos pés (e
correm hoje como se isso ainda fosse necessário para a entrega das mensagens).
Sua mudez não fazia justiça à sua fama de eloquência e não pude deixar de
pensar que ali fixado, se achava temporariamente surdo. Segui meu destino, para
o lado oposto ao infinito de Hermes, não sem antes deixar-lhe algum trocado de
oferenda, contudo lamentando que minha pressa não me desse o tempo necessário
para admirar mais a estátua e esperar, a contar no relógio, quanto tempo ainda
aguentaria manter-se naquela condição. E, quem sabe, com alguma perversidade,
ficar parado o mais possível e olhar fixo nos olhos do deus. Nunca vi ninguém
fazer isso. Nem sei quem estranharia primeiro: se os passantes ou o deus... Os
primeiros talvez me rodeassem, curiosos, quem sabe à espera da reação da
estátua. Já esta, por ser deus, talvez não desviasse seus olhos do seu infinito
particular para encarar os meus, demonstrando todo o seu poder. Fiquei ainda
por um tempo a pensar que alguém possivelmente já tentou isso. Por um momento,
olhando ao meu redor, lembrei que a multidão talvez não se importasse mesmo com
essas questões, tão absorvidas pelas necessidades de se deslocarem naquele
espaço e pelas milhares de mensagens que agora mesmo estão recebendo,
processando, emitindo. Ali estava só Hermes, a nos desafiar, absolutamente
suspenso em seus pés alados.
***
Alcancei a esplanada
do miradouro, de onde, à sombra, podia ver o rio e dar descanso aos pés
doloridos. Foi então que escolhi meu infinito, fixando meus olhos nele, como a
estátua humana. Lá bem adiante estava um barco, de pescadores, imóvel, cujas
cores alegres harmonizavam naquele momento com o tom do rio. Naquele pequeno
ponto distante, concentrando o olhar como feixes de luz, vi um pescador, logo
vi dois e provavelmente só eles. Persisti. Depois de algum tempo que não medi,
sem desviar minha atenção, pareceu-me entrar em outra dimensão. Então estava no
barco e de lá avistava a cidade. A orla parecia escurecida, mesmo que ainda
faltasse muito para o anoitecer. Ou não. Ilusão do tempo? Os sons à minha volta
desapareceram e talvez tenha ouvido apenas os estranhos ruídos do meu corpo.
Agora olhava de frente o Hermes paralisado, em pose de movimento. Eu o
desafiava. Saí do transe sem que se desse o resultado daquele embate. Ou pode
ser por isso mesmo que o deus tenha vencido, não importa. Era mesmo
quase-tarde, quase-noite e tudo se agitava. Alguém estava à minha procura.
Naquele instante me veio à memória o primeiro momento em que fixei meu olhar em
você. Foi quando dormia que me quedei imóvel, onde só havia paz e silêncio.
Dei-me conta de que ali era você o infinito e deu-se o mesmo efeito. Cheguei a
pensar que eu próprio me olhava, que o tempo era outro e nossas almas se
agitavam, com os corpos em repouso. Foi um momento só meu, em que fui o próprio
Hermes, congelado na calçada. Sonhei naquela noite que você despertava meus
movimentos com um beijo suave. Mas até hoje não sei se era sonho. Isso me fez
desejar que um dia meu infinito fosse o fundo dos seus olhos, lugar que não
ousei ainda alcançar. Quase morro só em pensar quantas ilusões verei e de
imaginar quanto tempo haveremos de resistir imóveis.
1 de abril de 2019
Solstício de Inverno
Fátima
Peres
Cadeira
n.º 15
Era
o primeiro dia do inverno e estava muito frio. Cansada, foi deitar um
pouco. As costas ardiam de tanto se curvar. Fechou os olhos que
também ardiam. E uma lágrima correu pelo lado esquerdo do rosto
molhando o travesseiro. De repente as lembranças começaram a
polvilhar seus pensamentos. Se viu pelas calles,
pelas peatonales,
pelas cafeterias, pela Vélez Sarsfield onde tudo acontecia. O cheiro
do croissant com
chocolate e do café colombiano a puxaram para outra dimensão.
Tinha
que sair rápido. O encontro era às 10 horas da noite. O Cabildo era
o point. A música, o tango. E, no meio do caminho, luzes
baixas e sombras. Com passos apertados, firmes e objetivos, para não
ser pega de surpresa numa esquina qualquer, tratou logo de chegar ao
compromisso. De longe já se ouvia o bandoneon. Com a excitação do
primeiro contato imaginou-se dançando com desenvoltura na praça San
Martín, aos olhares do público atento.
– Uma
brasileira que morou aqui, certa vez, aprendeu a dançar e acabou se
tornando uma grande bailarina, disse um senhor argentino. Com seus 70
anos ainda guardava traços de uma beleza que outrora, provavelmente,
se insinuava caliente para
as moças. Convidou-a para bailar. Desajeitada, trocaram alguns
passos. E assim foi, até que o professor desligou aquela
vitrola antiga com discos de Gardel.
– Nos
vemos amanhã?
– Espero
que sim, respondeu. Enrolou a echarpe no pescoço e saiu novamente às
pressas.
O
vento frio, de cortar a pele fina e delicada, só deu trégua quando
já estava sentada, na mesa de sempre, dentro da Sopelsa, na 9 de
Julio com La Cañada. A garçonete, já acostumada, trouxe, sem
perguntar, o Tilo com tostado para esquentar a alma e matar a fome.
E, para finalizar, na saída, o irresistível sorvete de dulce
de leche completava
os prazeres do dia. Os passos até o número 90 daquela rua eram
poucos. Já na rampa do prédio onde morava ouvia-se a agitação dos
cartolas. Pela entrada lateral do edifício ficava a sede de um dos
times de futebol da cidade.
Todas
as vezes que ouvia aquele burburinho sentia-se mais animada, mais
alegre. Em seu país, futebol também dava muita conversa e
discussões. – Tudo igual, disse ao porteiro, que lhe respondeu com
alguns grunhidos. Um senhor alto, magro, de olhos azuis que falava um
espanhol que mais parecia um dialeto. Simpático, porém,
incompreensível. Mas tudo bem, ela sabia que ele a havia
compreendido.
Subiu
e foi se ajeitar para dormir. Estava cansada com tantas atividades do
dia, de ouvir as histórias da professora, la
señora
Bierbraun. Era filha de uma judia argentina com um alemão. O avô,
um ex-nazista nunca aceitou a união. Bierbraun contava histórias
horríveis sobre ele e os alemães que foram viver na região depois
da segunda guerra mundial.
Dizia
também que, em uma pequena cidade próxima, ainda viviam alguns que
foram comandados pelo Führer. Para visitá-la, era preciso pedir
permissão. O turista, no entanto, não podia ficar além do tempo
permitido pelos moradores. E era assim, com suas histórias, que la
señora Bierbraun
ia ensinando seus alunos – alemães, italianos, franceses, suíços
e a brasileira – a língua de sua terra.
Mas
já era tarde, precisava dormir. No dia seguinte, bem cedo, mesmo com
o frio abaixo de zero, tinha que sair para fazer a prova final. A
expectativa era grande e sua aprovação significava mais do que um
diploma na mão. Tinha um gosto dulce
de
vitória sobre preconceitos. Quando o burburinho dos Cartolas da Liga
se desfez, conseguiu cair no sono. Mas foi por pouco tempo. Lá pelas
11 da noite, o alarme de incêndio do prédio soou.
Um som ensurdecedor, pessoas batendo à porta, correria escada abaixo. Descabelada, de pijama e sem saber para onde ir, correu para fora do apartamento. Um vizinho alertou para não pegar o elevador. Desceu sete andares em meio a tanta aflição. Ao chegar à portaria viu que o porteiro acalmava as pessoas e dizia: los bomberos están en camino. A fumaça se espalhava por todo o prédio.
Quando
a guarnição chegou foi logo abrindo todas as portas para localizar
o foco do incêndio. De repente, o vizinho do 401 chega até o grupo
de moradores, em pânico, e confessa que ele havia deixado o bife de
chorizo queimar, enquanto assistia ao Atletico Talleres marcar
o gol. - Por causa da fumaça, abri a porta. Neste momento os
splinters e o alarme dispararam, disse o rapaz. Os moradores
se entreolharam com cara de susto e raiva ao mesmo tempo. Mas ninguém
disse absolutamente nada, afinal de contas, aquela era uma situação
que poderia ocorrer com qualquer apaixonado. O vento frio que vinha
da La Cañada fez com que a porta de vidro do prédio batesse forte.
O barulho, intenso, assusta!...
Acorda,
olha para o lado e vê sua mãe, deitada debaixo do edredom, resfolegando. Aliviada, sentiu uma felicidade infantil. Estava ali,
de volta ao carinho familiar.
28 de março de 2019
Alumbramento
Carmélia Cândida
Cadeira n.º 2
Você pode ter passado a vida toda
sem se deixar tocar pela beleza das flores, deixando morrer aquela orquídea
linda, presente de aniversário, que merecia todos os amores. Você pode não ter
cultivado nunca uma única flor. Pode. Pode ter passado a vida sem cor. E pode
acontecer de, um dia, querer iniciar um pequeno jardim. E você iniciar um
canteiro e, em pouco tempo, se ver cheio
de fascínio por flores. E passar a olhar para outros jardins, a se encantar com
jardineiras nas janelas, a ficar sem palavras diante das árvores mais belas.
Você se apaixona.
É muito bom se apaixonar. Sempre.
Por jardins, por um novo amor, por amigos que você vai fazendo ao longo da
vida, por uma música, por um filme inteiro ou por uma de suas cenas, por um
espetáculo, por um livro, por um poema, por um novo ser que chega ao mundo, por
um esporte, pelo seu trabalho, pelo trabalho de um artista, pela sua casa, por
uma ideia altruísta; enfim, por aquilo que te tocar, te fizer bem, que te
provocar encantamento. Sem te escravizar. Encantamento talvez seja a palavra
que melhor se relacione ao apaixonar. Do encantamento, passamos ao
alumbramento, palavra bonita por demais. Alumbramento: o estado de quem se
maravilha; ato ou efeito de alumbrar, iluminar; inspiração, arrebatamento,
iluminação. Precisa de mais?
Tão bom quanto se apaixonar é se apaixonar
de novo! Redescobrir o que estava esquecido, adormecido, escondido. E ver tudo
com um novo olhar. Não que isso seja tarefa fácil neste mundo tão cheio de
injustiças, desigualdades, desencantos,
crueldades realidades que nos indignam dia a dia. Mas nem por isso devemos nos
fechar e dizer que tudo está perdido. Há o amor, a amizade, o afeto, a
esperança, o sonho, as loucuras, o desejo, as conquistas, a fé e as paixões que alimentam nosso espírito.
Por isso, o coração deve estar atento e aberto ao encantamento.
Que a gente se permita uma dose de paixão. Que a
gente se permita se apaixonar. E se entregue. Sem amarras. Que estejamos
abertos ao outro, ao que pulsa e ao que irá nos dar alento. Pois a vida, com
sentimento, é mais fácil de ser vivida.
27 de março de 2019
Ele, ela e o Fusca
Renata Teixeira
Cadeira n.º 3
Ela
gostava de ver o entardecer perto do Palmital. Iam ele e ela no
Fusquinha que já os acompanhava desde o início do relacionamento. Em
todo aniversário de casamento, isto se tornara um ritual: ele se
apressava para sair mais cedo da oficina e passava em casa
para apanhá-la. Ela o esperava com sanduíches, uma garrafa com suco, o
vestido de que ele mais gostava e uma boa dose de ansiedade.
Ao som do ronco do Fusquinha, das músicas preferidas gravadas na fita
cassete, das histórias de desde quando se conheceram e de algumas
gargalhadas, seguiam viagem...
Paravam em algum ponto da estrada, observavam o entardecer e,
silenciosamente, olhavam-se como que fazendo algum tipo de prece. As
primeiras juras de amor ecoavam agora revestidas da solidez que o
convívio traz e da segurança que só quem passa uns apertos juntos
é que sabe!
24 de março de 2019
Dinzé: A mineirice de uma vida!
Conceição Cruz
Cadeira n.º 4
Terço na Janela: o sol ardente escondia-se por detrás dos montes ressequidos, fazendo cair uma densa escuridão por aquelas paragens... O momento solene da Ave Maria era marcado pelo badalar dos sinos na Igreja: todos paravam a rezar com o terço em mãos... Na janela baixa, de velhas madeiras, com vistas para a rua, Dinzé, o Vovô, costumeiramente, rezava enquanto ficava ali, com o rádio à válvula ligado, espiando a boca gulosa da noite a engolir os últimos lampejos do dia.... A rádio, de uma programação a outra, num piscar de olhos, chegava ao momento sagrado da “Hora do Brasil”. Ele rezava, cumprimentava os transeuntes, ouvia o rádio, observava o céu, admirava o bando dos pássaros em revoada, o gorjeio... e continuava a rezar! Dentro de casa, a penumbra aumentava: dali a pouco, seria preciso acender as lamparinas de querosene e as candeias de azeite para vencer o breu da escuridão... De repente, uma música solene tocou e parou... um grande suspense no ar! O locutor disse que o preço do querosene iria subir! Dinzé passou mais uma conta do terço e esbravejou em voz alta, sorrindo:
_ Diacho! Não estou lhe perguntando
nada, seu filho de... de “uma boa mãe”!
E prosseguiu, sorrindo, rezando e
contando as contas do terço...
Ninguém morre nesta Terra! Tavares, após a primeira Grande Guerra, era um minúsculo povoado, onde podia se avistar, já da estrada, lá no alto do morro, a Igreja de N. S. da Conceição; saindo dela, pela porta principal, via-se a estrada de chegada, com as casas de conserva das rodovias do DER à direita; à esquerda, uma rua de terra branca que findava aos pés de uma grande serra de pedras com um pouco de mato verde. Atrás da Igreja, o pequenino cemitério... nem sempre, o suor de arar a terra, capinar, plantar era suficiente para sustentar a família. Por isto, Dinzé, funcionário público de Minas, também se entregava, diuturnamente, à labuta rural e tornou-se o coveiro local: talvez assim, fosse viável angariar uma renda extra. Numa época de grande estiagem, pouca coisa brotava! O sol escaldante era implacável! Dinzé rezava. Rezava...Tinha dias em que perdia por completo a paciência, porque tudo o que brotava, o sol queimava... E ele trabalhava, mas... O Governo era uns dos piores pagadores da história, pois impunha deveres... na hora de reconhecer direitos, como por exemplo, salário em dia, deixava o seu servidor morrer à míngua: atrasava o pagamento até quase por um ano! O bacana de tudo era que meu avô acreditava e, seu senso de responsabilidade social lhe fazia trabalhar o dia inteiro para o Estado, independentemente de ser boa ou não a contrapartida (crença transmitida para a sua descendência!). Mas, se o Governo não pagava, ele e a família precisavam sobreviver: por isso, nas horas vagas, dedicava-se também ao que era possível, à época, agricultura de subsistência. E trabalhava, trabalhava... O sol castigava e castigava... Dinzé - com seus olhos arredondados - tranquilo, bonachão e brincalhão, insistia! Aliás, não desistia! Ele acreditava! Um dia, já cansado, exclamou, enxugando o suor da face:
_ Ah, “neim”! Salários atrasados!
Esta terra dura... Nada de chuva ou de colheita, um monte de bocas para
sustentar... E nem ao menos morre um filho de Deus neste lugar!
Realmente: ali não morria ninguém!
Medalhas e Engenhoca: Na vastidão dos quintais, havia a lavoura de subsistência: milho, café, arroz, cana, mandioca, hortaliças; criavam porcos, galinhas, cabras, cabritos etc. Tomar um banal cafezinho deste bem cheiroso, passado na hora, dependia de muita coisa: que o próprio degustador houvesse arado a terra, escolhido e plantado as sementes, recebido as bênçãos da chuva, feito a colheita, descascado, torrado e socado, no pilão, os grãos... ter separado os olhos da cana, plantado os brotos, realizado a colheita, moído a cana, fervido o caldo, feito a garapa... ter levantado cedo, ido ao pasto, cortado lenha e a deixado ao sol para secar, guardando-a depois; ter arado a terra, plantado e colhido o milho, separado e guardado as palhas... ter comprado um pote, andado algumas léguas e buscado água na fonte ou no riacho. Carregado peso! (Que cafezinho, amargo de se fazer!). Acender a fornalha, pedia uma habilidade, pois fósforo não havia: precisava “iscar” o “fuzil” com pedra de cristal para gerar uma “faisquita de nada”; depois, que esta tascazinha se propagasse sobre uma estopa dentro da “binga de macaco” (casca do fruto tipo jatobá): soprá-la delicada e insistente; acender uma palha ou um cigarro de palha para levar o fogo à fornalha... daí acendiam-se os gravetinhos... aí sim, nasciam as quentes brasas ... Detalhe: o coador de pano era fervido na hora, por causa das lagartixas que por lá passeavam... Os copos? Feitos de cabaça (isto é, plantava-se a espécie adequada, aguardava-a atingir a maturidade, colhia, secava, serrava e então) ... Ou, na onda da reciclagem, canecas de lata: punham alças nas latas de salsicha, por exemplo! Requeria ter guardado os restos de gordura, ter coado e decantado água e cinza – preparo de uma espécie de soda - observado o céu (lua nova), ter feito sabão “diquada” para, na beira do riacho, com a bucha vegetal e areia, lavar os copos e a panela de fervura da água... Precisava ter colhido o fumo, moído, enrolado e, tranquilo, ter feito um cigarrinho de palha e pitar, sossegado, para espantar as muriçocas! E isto era feito após, “largar o serviço!” Exatamente, no “momento de folga”, Dinzé fazia o seu ritual para tomar um delicioso cafezinho! À tarde, a rotina: moer a cana, socar o café no pilão... Por crença, trazia o pescoço cheio de cordões e de medalhas bentas com inúmeros santos de sua devoção. De repente, a manivela da engenhoca puxou os cordões e as medalhas. Embaraçaram-se todos... E por mais que tentasse se soltar... Desesperado, levou a mão ao pescoço, arrancou tudo e jogou fora, esbravejando:
_ Isto só pode ser mesmo coisa do “diacho”!
Nossa Senhora do Perpétuo Socorro - Dinzé levantava cedo, carregava a enxada, a foice, enfim, todas as suas ferramentas para trabalhar. Orgulhosamente, era funcionário público da turma de conservação da estrada de rodagem. (Passava até quase um ano sem receber um mês de pagamento!). Andava léguas para chegar ao local de trabalho: não tinha cavalo, não havia transporte público regular e suficiente; percorria tudo a pé, com sua “precata roda. ” (Ele usava os pneus velhos para fazer chinelo para toda a família, pois, naquela região, quase todo mundo andava descalço). A trajetória de Tavares a Pará de Minas era feita antes de o sol nascer, de segunda a sábado, todo dia... até onde era a fábrica-escola (hoje, Coopará): só retornava quando o sol ameaçava a desaparecer. A saga e o destino deste homem estavam traçados: o dia inteirinho... léguas longe de casa! Na sacola diária, o almoço, a garrafa de café preparados no fogão à lenha, de madrugada... e frutas da estação colhidas pasto afora, quando havia. Ao pôr do sol, marmita e garrafa vazias voltavam alegres, dependuradas no feixe de lenha que ele, religiosamente, providenciava para fazer o jantar (e seu almoço na madrugada seguinte). Na caminhada, muitas vezes, era acompanhado dos filhos: numa dessas idas e vindas, estava sua filha mais velha, “Bornata” - minha mãe, Maria Geralda da Cruz - que nos brinda com esses causos... Ela, andando pela estrada, outras vezes correndo na frente, apanhando lenhas, com seu jeito criança de ser. De repente, bem depois da curva, depara-se com um embrulho de jornal na beira do caminho. Joga a lenha no chão, a rodilha de velhos panos, apanha o pacote e volta em disparada, gritando pelo seu pai. Dinzé joga tudo no chão e corre sem saber o que lhe esperava depois da curva, ansioso por causa dos gritos da filha. Ele roga:
- “Vinde em nosso Socorro, oh, Mãe de Bondade!”
Vê que a filha está bem e isto é o suficiente para sossegar seu doce
coração.
Entusiasmados, vão lançando fora cada página de velhos jornais e, no meio
daquelas inúmeras folhas, uma imagem... Bornata emociona-se, benzendo-se toda.
Minutos de oração... Observam a imagem: rosto terno, inconfundível: Santa do
Perpétuo Socorro!
_ É linda, minha filha! Nossa Senhora é nossa maior riqueza! Ela veio nos
encontrar! Fala ele, benzendo-se todo emocionado... E acrescenta sorrindo:
_ Melhor mesmo, se aí dentro, além da Santa, tivesse um dinheirinho,
minha filha...
Liberdade - Domingo de manhã, depois da missa, o sol já começava a espantar o orvalho que caiu sobre a terra, antes, poeirenta. Dinzé, depois de ter rezado muito, chega em casa e vê um de seus filhos, deitado no chão, quase perto da soleira da porta, estático. Dinzé chama e ele não responde (pensamento absorto, olhos fixos no pássaro em improvisada gaiola). Dinzé segue o olhar, chama novamente... O menino continua inerte... Dinzé não encontrou alternativa: pegou a gaiola e ... soltou o animalzinho...
_ Filho, Deus fez os pássaros e as nossas almas livres! Ame-os! E deixe-os voar!
Pintassilgos - Dinzé era um típico funcionário público da época: sem terras, sem salários, apenas tinha a força de seus braços e a oportunidade de ganhar o pão a cada manhã. Fazia sol ou fazia chuva, sadio ou doente, era preciso trabalhar todo dia, o dia todo! Com salários atrasados! Sem chuvas, apesar de sua insistência, em casa, com meios primitivos, a terra quase nada produzia. Por isto, no Domingo, fez uma “manguara”: numa vara, dependurou todas as suas galinhas, a marmita, a garrafa de café e partiu a pé para a cidade. Vendeu todas elas, exceto uma: no quintal, deixou apenas um casal carijó. Na volta, passou na venda, comprou sal, querosene para as lamparinas e azeite para as candeias. Como diziam os antigos: galinha na manguara não tem preço! O sol continuava quente e castigante ... Dinzé olhou para o céu azul feito mar: os pássaros cruzavam os ares em busca de alimentos, sem sucesso... (Pobres pássaros! Se pudesse ajudá-los...). A escassez afeta homem, animais e pássaros... Mas é difícil ver a luta cruel pela sobrevivência... Já sei! Neste tempo ruim na roça, a única saída será o cativeiro urbano... E assim, construiu uma armadilha para pegar passarinhos. Dentro dela, um pássaro da mesma espécie, para chamar a atenção do que estava fora, alimentos e uma espécie de visgo, numa vareta. Eles pousavam ali e, num instante, os pés colavam-se na varinha visguenta. (Pacientemente, Dinzé pegava cada bichinho e, com um velho retalho e gordura, limpa-lhes os pés). Outras vezes, usava um alçapão com espelho ao fundo. O pássaro, ao ver a imagem refletida, pulava na armadilha para brigar; o alçapão desarmava e ficava preso.
Vale lembrar: ninguém queria casais. Fêmeas não tinham valor algum... Os
machos cantavam, elas não: acima de tudo, precisavam de alimentos e de ninhos
para a postura dos ovos .... Dinzé vendeu os machos, voltou para casa com pouco
dinheiro e a gaiola cheia de fêmeas... Rezou, como de costume: uma luz de
esperança encheu seu coração. Um novo dia! (A labuta pelo alimento... Olha os
pássaros! Pobres pássaros!). Na sua mente, outra ideia! Não estava disposto a
ver as “pintassilgas” morrerem, sem ter, ao menos, tentado ajudá-las. Os machos
estavam a salvo. E as fêmeas? Perpetuam a espécie... mas não cantam! Que
lástima! Sem alimentos! Sem elas, não há expectativa nem promessa de futuro! Ao
levar a cabo aquela nova ideia, resolveria momentaneamente a situação das
“pintassilgas” que precisavam de alimentos para manterem-se vivas e
desenvolverem o seu projeto de maternidade...
Por outro lado, ele, com certeza, não poderia mais voltar à Praça da
Matriz para vender mais nadinha de nada! Que haja então futuro! Um novo dia!
Rezou, pediu perdão a Deus e a todos a quem iria encontrar naquele dia; de
plano, resolvera o problema. Preparou uma espécie de tinta natural e pintou a
cabeça de cada fêmea, imitando os machos.
Foi à cidade, aonde os alimentos chegavam, a alto custo, numa época de
grande carestia e racionamento... Vendeu todas as fêmeas, como animais jovens
que, um dia, quem sabe, poderiam vir a aprender a cantar... Diferentes da sorte de um homem (dependente
do Governo ou do clima) a produzir seu próprio alimento, as “pintassilgas”
teriam a chance de ter fartura de comida e, seus filhotes, em quentes ninhos,
sem preocupação com o futuro! No coração, o sentimento de dever cumprido!
Saudades - A tão desejada chuva chegou para molhar a terra e realizar o tão esperado sonho de Dinzé de ver a terra molhada! A esposa e os filhos estavam tristes, os vizinhos, os animais... O sol chorou! A terra chorou! Todos choraram! Os prantos do sol e da terra transformaram-se em fina chuva... Neste e em muitos outros dias, o velho amigo rádio silenciou. Não houve o badalar dos sinos... Nenhum transeunte passeou pela rua. Rádio, sinos e transeuntes silenciaram. Neste dia, na hora da Ave Maria, um coveiro ganhou uma renda extra - talvez tenha sido a única por um bom tempo. A terra, por vezes, madrasta, outras, mãe, amiga, irmã afagou e acolheu um abençoado corpo... Os pássaros pediram perdão aos viventes e até as “pintassilgas” entoaram um cântico de louvor à Virgem Santíssima. Os lábios humanos de Dinzé, neste dia, nesta hora, não rezaram, nem balbuciaram prece alguma. A Santa do Perpétuo Socorro ouviu apenas o louvor da procissão sem fim de pintassilgos fêmeas! Surgiu um clarão no céu dentre as nuvens... os espíritos libertos dos pássaros vieram ensinar ao Espírito de Dinzé a arte de livremente voar... Juntos e livres eles se foram...
_ Dinzé! Descanse em Paz, Eu estou aqui, vim ao seu Socorro, meu bom
mineiro! José Bernardino da Silva, é quem é a minha riqueza! Oh, meu dileto
filho! Da outra vez, desci à Terra e fui ao seu encontro! Agora é a hora de a
humanidade tocar a Divindade, você sobe aos céus e eu o acolho em meus braços,
concedendo-lhe Paz... E, desta é a sua vez de estar aqui para ensinar-me a
sonhar... A não perder as esperanças... Na humanidade!
Ditas estas palavras, Nossa Senhora abraçou-o, carinhosamente, sorrindo,
envolvendo-o de forma definitiva, com seu Manto Azul de Proteção.
23 de março de 2019
Lançamento de novo livro do acadêmico José Roberto Pereira
Autor de quatro livros já publicados, o escritor da Academia de Letras de Pará de Minas José Roberto Pereira lança, no próximo dia 28 de março, a partir das 20 horas, a obra "Um ninho coberto de penas", texto infantojuvenil que aborda as relações homem x natureza e natureza x natureza. O lançamento ocorre pela Páginas Editora, de Belo Horizonte, e será no Museu Histórico de Pará de Minas (Muspam), em Pará de Minas. Para falar dessas complexas relações, José Roberto Pereira, que também é ator, com formação em Letras, narra a saga de dois filhotes de tucanos, que têm que passar por fortes provações em meio à natureza, ora acolhedora ora assustadora. O autor tem como ponto de partida o aprendizado que colheu na infância e início da juventude, período em que viveu no meio rural, trabalhando como lavrador. José Roberto é natural de Jaguara de Minas, distrito do município de Onça de Pitangui. Para Rosana de Mont’Alverne, escritora e editora de livro infantil e juvenil, que assina o texto de apresentação do livro, a história de Pereira é “uma metáfora da vida no alto dos morros onde ninhos de penas bem poderiam ser barracões de zinco, sem telhado e sem pintura. Ninhos como lares onde vivem famílias, ainda que na maioria falte o pai e às vezes até a mãe. Penas como sofrimento e aflição. Mas a vida insiste porque o amor existe, porque irmãos que cuidam um do outro - como os filhotes de tucano da história - crescem na adversidade, se fortalecem juntos e atravessam os portais essenciais aos altos voos”. As ilustrações do livro são assinadas pela artista angolana Beatriz Valdez, que consegue, com primor, imprimir a dramaticidade e a beleza trazidas pelo texto nas imagens que o acompanham. Beatriz também atuou em outro livro do autor, "A Joaninha e a Margarida" (2008). José Roberto ocupa a cadeira n.º 12 da Academia de Letras de Pará de Minas
Lançamento: dia 28 de março de 2019, às 20 horas, no Museu Histórico de Pará de Minas (Muspam) – Rua Manoel Bastista, 51, Centro.
Lançamento: dia 28 de março de 2019, às 20 horas, no Museu Histórico de Pará de Minas (Muspam) – Rua Manoel Bastista, 51, Centro.
Assinar:
Postagens (Atom)



