sábado, 9 de maio de 2020

Flores para minha mãe

Carmélia Cândida
Cadeira n.º 2

Plantei flores para minha mãe. Usei um vaso que achei jogado entre o quiabeiro, na horta do quintal de sua casa, um pote de sorvete, um recipiente de amaciante de roupas, um de água sanitária e o outro foi um tamborzinho de tinta que já estava com terra e furos debaixo do pé de goiaba – talvez deixado por ela lá, anos atrás. Esquentando uma chave de fenda no queimador do fogão, fiz os furos nas floreiras improvisadas, depois de ter cortado com uma faca grande as que precisavam ser cortadas. Preenchi-as com terra da horta, molhei e acomodei as mudas que tinha tirado do meu jardim e de um canteiro na entrada da casa cultivado por meu pai. Procurei fazer como ela fazia. Ela amava flores e, desde que me lembro, cultivava-as como podia, em vasos, canteiros ou, por último, em dois jardins lindos que enfeitavam a casa onde ela e meu pai viviam. Coloquei os vasos dispostos em uma pilha de tijolos encostada ao muro, no quintal da casa dela.

Minha mãe não vai ver as flores que plantei para ela. Ela pode até vê-las. Eu posso colocá-la na cadeira de rodas e, com esforço, levá-la até a pilha de tijolos para ela ver os vasos. Mas não vai fazer diferença para ela. Ela já não reage mais ao ambiente. Mostra-se alheia e indiferente em grande parte do tempo. Enquanto ela conseguia reagir, o mínimo que fosse, nós a colocávamos na cadeira e saíamos com ela do quarto. Eu gostava de levá-la para a área da frente da casa, mostrar o canteiro que meu pai havia feito, com a grutinha de Nossa Senhora que ela havia comprado, a rua, o céu, um passarinho que passasse, dizer para ela sentir o vento... dar voltas com ela no passeio. Mas chegou o tempo em que ela passou a ficar olhando somente para o chão, com o corpo pendendo para um lado, quase caindo se não fosse a firmeza da cadeira e a gente consertando a posição dela o tempo todo, e indiferente. Quando não ficava assim, ficava chorando e nervosa. E o jeito era voltar com ela para a cama. Insisti várias vezes, até ver que não fazia mais sentido tirá-la de seu leito, que é bem mais confortável para ela.

Mas as flores estão lá. E são para ela. Mesmo que ela não possa admirá-las e ficar feliz com elas. Sei que o mais certo é fazermos pelas pessoas enquanto elas estão presentes entre nós. Que pouco adianta demonstrar afeto ou dizer que nos importamos (isso se faz muito mais com atitudes do que com palavras) depois que a pessoa já não está conosco, em parte ou definitivamente. E disso devemos nos lembrar sempre, sempre.

Então me pergunto se isso tem mesmo sentido. Se outras pessoas têm atitudes parecidas com essa minha. Fazer algo por alguém depois que esse alguém já se foi, ou, no caso da minha mãe, depois do que o que ela era já se foi...

Aí uma voz que é a minha mesmo me diz que sim, que há sentido em continuar fazendo por quem amamos mesmo que esse alguém não esteja mais conosco ou mesmo que esse alguém não esteja presente o suficiente para ver ou sentir o que fazemos por ele. Talvez porque não queremos nos desligar totalmente de quem amamos. Talvez porque essa seja uma forma de manter vivo o amor, a memória, de sentirmos que a pessoa continua conosco como antes, mesmo que já tenhamos entendido que é preciso desapegar dela materialmente e aceitar sua ida. Ou será que é porque o amor transcende nosso existir?

Não sei... Sei que as flores estão lá e que, quando eu olhar para elas, sentirei um pouco da minha mãe comigo, ou... sentirei a minha mãe existindo por meio de mim (talvez seja isso!). E poderei vislumbrar o sorriso dela, olhando para aqueles vasos singelos, e me sentirei feliz. Tenho certeza de que, se eu estiver feliz, ela estará feliz também. E por certo que, enquanto eu a amar – e isso será para sempre – ela viverá em mim.


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Um comentário:

  1. Verdade, Carmélia! O amor eterniza as pessoas amadas em nós. Bjs, Regina Maria.

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